UMA CARTA DO ARGONAUTA JÚLIO MARQUES MOTA

Meu caro João Machado

Assisti ontem  a um espectáculo majestoso, com muitas mas muitas dezenas de milhares  de pessoas a dizerem não à política de destruição do nosso país, levada a cabo a mando da Troika por Passos Coelho, por  Gaspar, por um cabotino de nome Álvaro Santos Pereira e alguns outros mais. Mas devemos ter em conta que estas três  marionetas políticas   são peças menores de um  puzzle dirigido  pelos adoradores do Templo Sagrado, a City,  com os seus sacerdotes a que se refere o curso Manual do perfeito gangsterismo, do perfeito banksterismo,  publicado pelo nosso blog, ou seja, sobre os banqueiros como os de Goldman  Sachs onde trabalhou António Borges. Ora estes  BANKSTERS contam sempre  com os seus ajudantes no terreno onde  se devem situar as suas políticas,  e  esses sim, são os verdadeiros mentores da política seguida no terreno, os António Borges, os Braga de Macedo, no caso português  gente sinistra que de humanidade não tem nada a não  ser  o pedantismo, a não ser  a arrogância, características  que humanas também  são,  e que são por eles potenciadas a um nível que até a pessoa mais simples  ofendem.

A estes defensores da TSU ou dos paraísos fiscais, que nos digam um estudo credível do FMI ou de Organização ainda mais credível onde se defenda uma e outra coisa, mas que não nos indiquem, como o fez Olivier Blanchard, como exemplo a Estónia, país que tal como nós entrou já na noite escura da falta de civilização, entrou já no domínio absoluto das políticas da Troika e da extorsão por esta organizada ao seu presente e ao seu futuro político como país, país de onde Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI,  radioso dos seus feitos  gritou “Viva a austeridade” , onde a ignorante da Christine Lagarde, directora do FMI  aconselhou a tomar-se este pais martirizado e as suas políticas de austeridade como o exemplo a seguir para os países do Sul da Europa.

Para esta política do absurdo económico e social e da subserviência à extorsão praticada pelos mercados de capitais e ao puritanismo fanático de  uma qualquer seita protestante sediada em Frankfurt e Berlim, para  tudo isto  uma nova expressão  deve ser agora inventada: o “ liquidacionismo” económico e social.

A analogia com o que se passou em 1929-1933 é imediata, ponto por ponto com uma simples modificação: a limitação imposta ao nível do BCE quanto à monetarização da dívida pública leva a que  o sistema monetário europeu  deva ser assimilado como equivalente ao padrão-ouro da época. Sobre esta questão, debrucemo-nos, nem que seja de passagem pelo período acima citado e nos Estados Unidos. Fazendo-o, podemos então perceber que por detrás dos discursos  destes personagens portugueses poderá estar  uma agenda bem precisa a tornar entendível a prática política destes senhores, e essa agenda é nada mais nada menos  a destruição do modelo social europeu porque este tem estado assente numa certa dinâmica de aprofundamento do Estado Providência. Por  detrás dos seus discursos está então está a aplicação sistemática do verbo “liquidate”, liquidar, à economia e à sociedade como um todo. De resto não estão sós, pois no outro lado do Atlântico o candidato  republicano à Casa Branca e o seu vice-presidente potencial prosseguem os mesmos objectivos. De passagem, tomemos então uma longa citação de um texto de Delong sobre as políticas seguidas neste período nos Estados Unidos:

The Great Depression and the “Liquidationist” Perspective

From late summer 1929 up to the inauguration of Roosevelt, macroeconomic indicators signalled a grave and immediate need for expansion. The stock market declined in nominal terms at a rate of 35 percent per year, and at 25 percent per year in real terms. The price level and the nominal money stock fell at 8 percent per year. While a flight to quality pushed interest rates on government securities and on short-run paper issued by credit-worthy firms down, the nominal interest rates at which corporations could borrow for the long term rose (Temin, 1974).

Figure 1 Macroeconomic Variables in the Great Depression

  • Red GNP (hdex)        Money Stock (Index) Money Velocity (Index)
  •                                   • Price Level (Index)


Index Numbers: 
1929-1.00 
•• price level .velocity money stock zeal GNP1934

Economic Policy Under Hoover

Throughout this decline—which carried real GNP per worker down to a level 40 percent below that which it had attained in 1929, and which saw the unemployment rise to take in more than a quarter of the labor force—the government did not try to prop up aggregate demand. The only expansionary fiscal policy action undertaken was the Veterans’ Bonus, passed over President Hoover’s veto (Chandler, 1970). That aside, the full-employment budget surplus did not fall over 1929-33 (Brown, 1956).

The Federal Reserve did not use open market operations to keep the nominal money supply from falling. Instead the only significant systematic use of open market operations was in the other direction: to raise interest rates and discourage gold outflows after the United Kingdom abandoned the gold standard in the fall of 1931 (Temin, 1974). The Federal Reserve’s inaction did not come about because they did not understand the tools of monetary policy. They had used the tools of monetary policy often in the 1920’s, and again in the fall of 1931 (Friedman and Schwartz, 1963). The Federal Reserve’s inaction did not come about because of the necessity to defend the gold standard. The United States in 1931 held nearly half the world’s gold reserves, and was far from the point where a looser monetary policy might trigger a successful speculative attack on the U.S.’s adherence to the gold standard (Eichengreen, 1991).

The Federal Reserve thus knew what it was doing: it was letting the private sector handle the Depression in its own fashion. It saw the private sector’s task as the “liquidation” of the American economy. And it feared that expansionary monetary policy would impede the necessary private-sector process of readjustment. Contemplating the wreck of his country’s economy and his own political career in retrospect, Herbert Hoover wrote bitterly about those in his administration who had advised inaction during the downslide into the Great Depression:

The leave-it-alone liquidationists’ headed by Secretary of the Treasury Mellon…felt that government must keep its hands off and let the slump liquidate itself. Mr. Mellon had only one formula: ‘Liquidate labor, liquidate stocks, liquidate the farmers, liquidate real estate’….He held that even panic was not altogether a bad thing. He said: ‘It will purge the rottenness out of the system. High costs of living and high living will come down. People will work harder, live a more moral life. Values will be adjusted, and enterprising people will pick up the wrecks from less competent people’ (Hoover, 1952, vol. 3, p. 30).’

“Liquidate”, liquidar, será então o novo verbo destes puritanos e deste nosso (des)governo e é agora o verbo de  referência. Exactamente como nos tempos de Hoover! O caminho e o regresso a 1929,  por outras palavras, é o que agora está em jogo e com que ferocidade o pretendem pôr em marcha. Como vemos corresponde portanto a uma agenda, a agenda dos vencidos de 1929-1933 pela realidade de então e por Roosevelt, e corresponde também à  agenda dos neoliberais  de hoje,  vencidos que foram  pela desgraça que eles próprios  andaram com a sua “ignorância” a criar e cujos terríveis efeitos querem que sejamos nós agora a pagar. Contra esta desgraça e contra os ventos das novas desgraças que se anunciam, as muitas e muitas dezenas de milhares de pessoas vieram à rua enquanto  o Borges e os Joaquim Aguiar seus acompanhantes de trajecto vieram à televisão. Haja diferença, portanto.

É então neste contexto que assistimos agora a ataques mútuos sobre competência e incompetência entre António Borges a falar arrogantemente do alto da sua sapiência  (ou será antes do alto da sua ignorância ?) contra os empresários portugueses e ouvimos estes a falar contra a competência de António Borges que tão competente por estes é considerado que  na opinião deles não teria sequer  lugar nas empresas portuguesas. Logicamente  é um debate menor, mas não será menor  solicitar publicamente a informação detalhada das remunerações globais auferidas por António  Borges, é uma figura pública não o esqueçamos de quem isto pode e deve  ser exigido,  para entendermos o seu sentido pessoal da austeridade.

E não será igualmente um debate menor exigir-lhe também a demonstração científica de que  estas políticas,  que muitas largas dezenas de milhares de pessoas levam às ruas na sua contestação ao fascismo soft claramente implantado pela equipa de que será um dos  mentores,   nos levam a um bom porto, ele que se diz então tão sapiente. De uma outra forma   que nos explique então do alto do melhor cavalo possível de  Alter  como  é que a empobrecer o País em pessoas, em recursos, em rendimentos, em investimentos, ficaremos mais ricos.

Que nos respondam a estas questões e pisaríamos então outro terreno que não o da demagogia e do cinismo puro e simples e para percebermos bem o sentido desta proposição não seria incorrecto voltar a publicar a nossa Pequena Crónica de Faro-nº 5 onde personagens tão sinistras como estas são  aí analisadas, são aí, pelo menos, claramente interrogadas.

Jùlio Marques Mota

A Crónica de Faro n.º 5 foi publicada em A Viagem dos Argonautas em cinco partes. Os links indicam-se a seguir:

Parte I –
http://aviagemdosargonautas.net/2012/08/29/pequena-cronica-de-faro-no-5-por-julio-marques-mota-i/

Parte II –
http://aviagemdosargonautas.net/2012/08/30/pequena-cronica-de-faro-no-5-por-julio-marques-mota-parte-ii/

Parte III –
http://aviagemdosargonautas.net/2012/08/31/pequena-cronica-de-faro-no-5-por-julio-marques-mota-parte-iii/

Parte IV –
http://aviagemdosargonautas.net/2012/09/01/pequena-cronica-de-faro-no-5-por-julio-marques-mota-parte-iv/

Parte V –
http://aviagemdosargonautas.net/2012/09/02/pequena-cronica-de-faro-no-5-por-julio-marques-mota-parte-v/

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