Tony Judt (1948-2010) nasceu em Londres e estudou no King’s College, em Cambridge, e na École Normale Supérieure, em Paris. Foi professor de História nas universidades de Cambridge, Oxford, Berkeley e na Universidade de Nova Iorque. Escreveu vários artigos e ensaios para publicações como a New York Review of Books, entre outras. Em Portugal existem publicados vários livros dos quais a sua obra mais conhecida Pós-Guerra. História da Europa desde 1945 (Edições 70, 2006) lhe grangeou o Prémio do Livro Europeu em 2008.
No texto que aqui apresentamos, incluído no seu livro de memórias, Tony Judt relata a experiência de jovem judeu, nascido e educado na Europa, num kibbutz israelita e conta como essa experiência o fez regressar a Inglaterra desiludido com o sionismo que, inicialmente, admirava.
(tradução de Pedro Bernardo)
Os meus anos 60 foram um pouco diferentes dos dos meus contemporâneos. É claro que também partilhei do entusiasmo pelos Beatles, pelas drogas leves, pela divergência política e pelo sexo (este mais imaginado do que praticado, mas também aqui creio que refletia a experiência da maioria, apesar de toda a mitologia retrospectiva). Mas no que diz respeito ao ativismo político, entre os anos de 1963 e 1969 divergi da corrente dominante por me empenhar de alma e coração no sionismo de esquerda. Passei os verões de 1963, 1965 e 1967 a trabalhar em kibbutzim em Israel e durante grande parte do tempo entre estes períodos estive bastante empenhado em divulgar zelosamente o sionismo trabalhista como membro não remunerado de um dos seus movimentos de juventude. Durante o verão de 1964 estive a ser «preparado» para a liderança num campo de treino no Sudoeste de França; e de fevereiro até julho de 1966, trabalhei a tempo inteiro em Machanayim, uma quinta comunal na Alta Galileia.
A princípio, esta educação sentimental deveras intensa funcionou muito bem. Pelo menos durante o verão de 1967, quando passei do trabalho voluntário num kibbutz para a participação, como auxiliar, nas forças armadas de Israel, fui o recruta ideal: eloquente, empenhado, e ideológica e intransigentemente conformista. Tal como os dançarinos em círculo da obra de Milan Kundera, O Livro do Riso e do Esquecimento, juntei-me a outros que partilhavam do sentimento em celebrações de felicidade coletiva, excluindo dissidentes e celebrando a nossa reconfortante unidade de espírito, propósito e roupa. Idealizei a distinção judaica e percebi intuitivamente, e reproduzi, a ênfase do sionismo na separação e na diferença étnica. Até me convidaram – com a idade absurdamente imatura de 16 anos – para fazer o discurso de abertura numa conferência da juventude sionista em Paris, a denunciar o tabaco como «desvio burguês» e um perigo para as atividades ao ar livre dos adolescentes judaicos. Tenho muitas dúvidas de que mesmo na altura eu acreditasse nisso (afinal, já fumava): mas era muito bom com as palavras.
A essência do sionismo trabalhista, à época ainda fiel aos seus dogmas de fundação, consistia na promessa de trabalho judaico: a noção de que os jovens judeus da diáspora seriam resgatados das suas vidas estéreis e assimiladas e transportados para colonatos coletivos nos confins da Palestina rural – e ali criariam (e, segundo a ideologia, recriariam) um campesinato judaico, que nem explorava nem era explorado. Tendo a sua origem, em igual medida, nas utopias socialistas do início do século XIX e em mitos russos posteriores de comunidades igualitárias rurais, o sionismo trabalhista estava caracteristicamente fragmentado em cultos sectários antagónicos: havia os que achavam que no kibbutz toda a gente se devia vestir de igual, educar os filhos e comer em conjunto, e usar (mas não possuir) mobília e artigos da casa idênticos, até livros, decidindo coletivamente todo e qualquer aspeto das suas vidas numa reunião semanal obrigatória. Alterações ligeiras ao cerne da doutrina permitiam alguma variedade do estilo de vida e até um mínimo de bens pessoais. E depois havia variadíssimas gradações entre membros do kibbutz, muitas vezes resultado de um conflito pessoal ou familiar que assumia a forma de desacordo fundamentalista.
Mas estávamos todos de acordo quanto ao propósito moral mais lato: trazer judeus de regresso à terra e separá-los do seu abastardamento desenraizado da diáspora. Para o neófito londrino de 15 anos, que estava num kibbutz pela primeira vez, o efeito era inebriante. Era o «Judaísmo Musculado» na sua forma mais sedutora: saúde, exercício físico, produtividade, propósito coletivo, autossuficiência, e separatismo orgulhoso – já para não falar dos encantos dos filhos do kibbutz da nossa geração, aparentemente livres dos complexos e inibições dos seus pares europeus (livres, também, da maior parte da sua bagagem cultural – embora isto só mais tarde me inquietasse) .
Adorei. Oito horas de trabalho árduo, que não obrigava a pensar, numa plantação abafada de bananeiras na costa do mar da Galileia, intervalado com canções, caminhadas, longas discussões doutrinais (cuidadosamente encenadas por forma a reduzir o risco de os adolescentes as rejeitarem, ao mesmo tempo que maximizavam a atração dos objetivos partilhados), e a insinuação constante de sexo sem culpa: naquela altura, o kibbutz e a penumbra ideológica que lhe estava associada ainda retinham laivos do ethos inocente de «amor livre» dos cultos radicais de princípios do século XX.
Na verdade, é claro que eram comunidades provincianas e muito conservadoras, e a sua rigidez ideológica camuflava o horizonte limitado de muitos dos seus membros. Mesmo em meados dos anos 60 era já evidente que a economia de Israel não se baseava na pequena agricultura doméstica; e os cuidados que os movimentos kibbutzim de esquerda tinham para não empregar mão-de-obra árabe, mais do que macular as suas credenciais igualitárias isolava-os dos factos inconvenientes da vida no Médio Oriente. Tenho a certeza de que não percebi tudo isto na altura – embora me lembre de me questionar por que razão nunca conheci um único árabe durante as minhas longas estadas no kibbutz, mesmo apesar de viver perto das comunidades árabes mais densamente povoadas do país.
No entanto, o que rapidamente percebi, ainda que não o admitisse em público, foi o quão limitados eram os kibbutzim e os seus membros. O simples facto do autogoverno coletivo ou a distribuição igualitária de mobília ou eletrodomésticos não nos torna mais sofisticados ou mais tolerantes do que os outros. Na verdade, na medida em que contribui para a extraordinária soberba da auto-estima, na prática reforça o pior tipo de solipsismo étnico.
Ainda hoje me lembro da minha surpresa ao descobrir o quão pouco os meus colegas do kibbutz sabiam ou se importavam com o resto do mundo — exceto se isso os afetasse diretamente ou ao seu país. Estavam principalmente preocupados com a gestão da quinta, com a mulher do vizinho, com as posses do vizinho (que em ambos os casos comparavam invejosamente com as suas). Nos dois kibbutzim onde passei mais tempo, a liberdade sexual era essencialmente função da infidelidade matrimonial e dos boatos e recriminações que lhe estavam associados – e neste aspeto estas comunidades socialistas-modelo pareciam-se bastante com as aldeias medievais, com consequências semelhantes para os que fossem objeto de censura coletiva.
Em resultado destas observações, desde cedo que passei a sentir uma forma de dissonância cognitiva relativamente às minhas ilusões sionistas. Por um lado, queria muito acreditar no kibbutz como modo de vida e encarnação de um tipo melhor de judaísmo; e, sendo eu de feição dogmática, durante alguns anos não tive dificuldade em convencer-me das suas nobres virtudes. Por outro lado, o kibbutz desagradava-me profundamente. Mal podia esperar pelo fim de uma semana de trabalho para me ir embora, à boleia ou apanhando um autocarro para Haifa, a cidade importante mais próxima, onde passava o sabbath a empanturrar-me com uma espécie de leite creme e a olhar, desejoso, da doca, para os ferries de passageiros que partiam para Famagusta, Esmirna, Brindisi e outros destinos cosmopolitas. Naqueles tempos, Israel parecia-me uma prisão, e o kibbutz uma cela sobrelotada.
Dois desenvolvimentos diferentes libertaram-me das minhas confusões. Quando os meus colegas de kibbutz souberam que eu fora aceite na Universidade de Cambridge e que tencionava inscrever-me, ficaram escandalizados. Toda a cultura da Alija – «ascensão» (para Israel) – presumia que se cortasse os laços e oportunidades que haviam ficado para trás na diáspora. Naquele tempo, os dirigentes do movimento de juventude sabiam perfeitamente que quando um adolescente em Inglaterra ou França era autorizado a ficar lá para tirar o curso universitário, ele ou ela estavam perdidos para Israel, para sempre.
Por isso, a posição oficial era a de que os estudantes que iriam para a universidade deviam esquecer os seus locais na Europa; dedicar-se ao kibbutz. durante alguns anos, a apanhar laranjas, guiar tratores, ou a separar bananas; e depois, caso as circunstâncias o permitissem, apresentarem-se à comunidade como candidatos ao ensino superior – no pressuposto de que o kibbutz iria determinar, coletivamente, se e que curso deviam seguir, realçando a sua utilidade futura para o coletivo.
Em suma: com sorte, podiam mandar-me para a universidade em Israel, por volta dos 25 anos, talvez para estudar engenharia elétrica ou, com sorte e a condescendência dos meus camaradas, fazer a formação para professor de história do liceu. Aos 15 anos, esta perspetiva agradara-me. Dois anos mais tarde, e depois de ter trabalhado arduamente para entrar no King’s, não fazia tenção de recusar a oportunidade, quanto mais dedicar-me a uma vida nos campos. A profunda incompreensão e o desprezo manifesto da comunidade do kibbutz perante a minha decisão apenas serviram para confirmar o meu cada vez maior afastamento da teoria e da prática da democracia comunitária.
O outro estímulo para me separar, é claro, foi a minha experiência no exército nos montes Golã, durante a Guerra dos Seis Dias. Foi ali que, para minha surpresa, descobri que a maioria dos israelitas não eram socialistas agrários modernos transplantados, mas sim judeus jovens, urbanos, preconceituosos, que só eram diferentes dos seus homólogos europeus e americanos na sua autoconfiança machista, gabarola, e por terem uma arma nas mãos. O modo como tratavam os árabes, que haviam derrotado, chocou-me (e pôs um ponto final nas ilusões dos meus anos de kibbutz), e a indiferença com que previam a futura ocupação e domínio de territórios árabes até na altura me deixou aterrado. Quando regressei ao kibbutz onde então vivia – Hakuk, na Galileia – senti-me um estranho. Umas semanas depois já fizera as malas e regressara a casa. Dois anos mais tarde, em 1969, regressei, com a rapariga com quem namorava na altura, para ver o que restava. Quando fui visitar o kibbutz Machanayim encontrei o «Uri», que em tempos apanhara laranjas comigo. Sem sequer fingir notar a minha presença, muito menos dar-se ao trabalho de me cumprimentar, Uri passou por nós e parou para perguntar: «Ma ata oseah kan?» («Que estás aqui a fazer?»). De facto, que estava eu ali a fazer?
Não acho que aqueles anos tenham sido desperdiçados ou mal passados. Quanto mais não seja, deram-me um conjunto de memórias e lições de certa forma mais ricas do que poderia ter adquirido se tivesse passado a década em conformidade com as habituais predisposições da geração. Quando fui para Cambridge, já tinha feito parte – e liderado – um movimento ideológico do género que a maioria dos meus contemporâneos só conhece em teoria. Sabia o que significava ser um «crente» – mas também sabia o preço que se paga pela intensidade dessa identificação e pela obediência incondicional. Antes de fazer vinte anos, eu tornara-me, fora e deixara de ser um sionista, um marxista, e um colono comunitário: não é feito de somenos para um adolescente londrino.
Assim, ao contrário dos meus contemporâneos de Cambridge, eu estava imune aos entusiasmos e à sedução da Nova Esquerda, e muito mais às suas derivações radicais: maoísmo, gauchisme, terceiro-mundismo, etc. Pelas mesmas razões, os dogmas estudantis da transformação anticapitalista e muito menos os cantos de sereia do feminino-marxismo ou das políticas sexuais em geral não me empolgaram, de todo. Era – e continuo a ser – desconfiado relativamente às políticas de identidade em todas as suas formas. O sionismo trabalhista tornou-me, quiçá algo prematuramente, um social-democrata universalista – consequência fortuita que teria horrorizado os meus mestres israelistas, tivessem eles acompanhado a minha carreira. Mas, claro, não o fizeram. Eu estava perdido para a causa e, por isso, na prática, «morto».
(in Tony Judt, O Chalet da Memória, Edições 70)


