MANUAL DO PERFEITO “BANKSTER”, LIÇÃO 5 – III: ENGANAR OS SEUS ACCIONISTAS

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Crise dos bancos espanhóis: como é que se chegou aqui?

Anna Villechenon, Le Monde.

 Bankia, o quarto banco espanhol cotado em grandes dificuldades por causa da sua exposição ao sector imobiliário em depressão profunda, anunciou na sexta-feira que estava a pedir ajuda ao Estado no valor de 19 mil milhões, um valor recorde na história do país. | AP/Daniel Ochoa Olza Madrid

Madrid pensa resolver sozinho a questão. Isto é, pelo menos, o que levou Rajoy a reafirmar, na segunda-feira, 28 de Maio, no momento em que a crise no sector bancário do país abala fortemente os investidores do país e faz cair as Bolsas de valores. No total, trata-se de mais de 50 mil milhões de euros que a Espanha terá de reunir para refinanciar o seu sistema bancário, dos quais 23,5 mil vão para o Bankia – quarto banco em termos de capitalização de mercado – o que hoje cristaliza fortes inquietações.

“Durante os últimos 10 anos, as Caixas de poupança têm trabalhado sobre o modo de financiamento anglo-saxónico, isto é, privilegiando o sector comercial sobre o risco ” explica Eric Delannoy, vice-presidente da empresa de consultoria em estratégia operacional Weave. As caixas concedem hipotecas sem se preocupar com a credibilidade de seus clientes. “A tentação era forte para agirem assim, numa altura em que a construção foi o grande factor de crescimento, tanto mais quanto pensavam satisfazer as suas necessidades de financiamento graças ao crescimento da bolha imobiliária.” Até que esta rebentou em 2008 e sobrecarrega de vários milhares de milhões de euros os balanços dos bancos.

“SOLUÇÃO DE EMERGÊNCIA”

A esta situação já crítica adicionou-se um factor agravante, segundo Delannoy, segundo o qual a relação quase incestuosa entre as Caixas de poupança e as regiões tem-nas incentivado a financiar vastos programas de habitação, a fim de desenvolver o sector de BTP ‘ . Realiza-se então uma série de fusões dessas Caixas de poupança como Bankia, que é o produto da consolidação de sete delas. Eram em número de 45 em 2008, estas hoje não passam de uma dúzia .

O problema é que as Caixas de poupança se fundiram sem sequer terem tempo de colocar em ordem o seu balanço. Para Rémi Legrand, um associado com a empresa de consultoria Eurogroup Consulting as fusões nunca são uma solução, elas são decisões tomadas na urgência das situações e que se destinam apenas a reagrupar instituições em dificuldade sem uma verdadeira estratégia de longo prazo “. Vários anos depois da primeira vaga , as aproximações continuam – três Caixas (Ibercaja, Liberbank e Caja3) ainda anunciaram na terça-feira a sua vontade de se reagruparem – na mesma altura em que a sobrevivência de Bankia não está assegurada.

Assim, para M. Legrand, “a crise do sector bancário espanhol limita-se principalmente às Caixas de poupança “. Eric Delannoy salienta a este nível que ” outros grandes bancos, como BBVA e Santander – em que cada um alcançou mais de 1 milhar de milhão de lucros no primeiro trimestre, estão financeiramente bem”. Segundo ele, “a situação está longe de ser dramática. É certo, existem 180 mil milhões de activos imobiliários considerados problemáticos, mas a taxa de créditos mal parados ainda não excede os a 7%.”

LIQUIDEZ NÃO FALTA

Para Thomas Costerg Economista Europa no Standard Chartered Bank, em Londres, “o sector bancário espanhol sofre de uma credibilidade fortemente enfraquecida, em particular por causa da multiplicação dos planos de ” ajuda a ” – em que cada um deles é suposto ser o último — e em que os investidores já não acreditam . Longe de se mostrar alarmista, considera, no entanto, que’ possivelmente ainda não se alcançou o fundo do problema em termos de preocupações em Espanha. ” “Mais más notícias continuam a afluir como a contracção da economia – já em recessão- esperada esta já no segundo trimestre, que poderiam causar outras perdas no leque de empréstimos imobiliários, mas também fora deste sector, assim como uma fuga dos depósitos se a crise se intensifica “-  como foi já o caso da Grécia.

Optimista, acredita que’ a médio prazo os bancos espanhóis não têm necessidade de liquidez, graças ao Banco Central Europeu, que continua a fornecer-lhes os euros em falta . “Quanto ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, este possui suficientes recursos para ajudar o país se necessário ” – se Rajoy se resignasse a pedir ajuda financeira . Neste caso, no entanto, ” a insuficiência da construção europeia no plano bancário – além de nos planos político e económico , poderia interferir com a manobra.” ” A União Europeia não dispõe, ao contrário dos Estados Unidos, de um sistema europeu de garantia de depósitos ou de um mecanismo tipo TARP, que permite a recapitalização dos bancos a nível federal e não nacional.

Quebrar a “profecia auto-realizadora”

Na ausência da ajuda europeia não resta a Madrid senão muito pouco espaço de manobra. “. Rajoy quer mostrar que os seus bancos e o seu país podem-se recuperar apenas pelo seu esforço interno, sem ajuda externa. Solicitar a ajuda europeia seria para ele admitir, nem que seja apenas simbolicamente, uma situação de incumprimento enquanto que, antes pelo contrário, Rajoy pretende quer colocar a Espanha como o modelo anti-Grécia por referência “, diz-nos Delannoy.

Isto é igualmente válido para os bancos espanhóis. A prova está, de acordo com Delannoy, ‘ na sua recusa para criar um bad bank, uma estrutura financeira de acantonamento dos maus créditos, que retomaria os activos duvidosos a preços de grande saldo antes que o Estado não tente despachá-los. Em segundo lugar, sublinha ele, não devemos esquecer que o país reduziu de metade o seu défice em 2009 e que a sua dívida relativamente ao produto interno bruto é de cerca de 60% quando esta é de 80% em França e de 145% na Grécia: “a situação não é tão catastrófica como se quer fazer crer – na condição, é certo, de quebrar essa profecia auto-realizadora que quer que a Espanha vá mesmo muito mal e que está a alimentar a especulação.”

Anna Villechenon

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