Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
(CONTINUAÇÃO)
Sexta nuvem
(6) O novo elemento que perturba a economia global – parte IV
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6.3 Factores políticos e financeiros no IDE da China
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A queda nas reservas foi uma reviravolta nada habitual nos dados que inicialmente a Reuters informou teria havido engano no sinal do registo na balança . Um porta-voz do organismo que publicou o relatório sentiu a necessidade de dizer que essas saídas não correspondem a uma saída em massa para fora do país . As saídas são na China, em qualquer caso, parcialmente bloqueadas pelos mecanismos de controle de capital. Ainda assim, essa regulamentação não pode bloquear nem as empresas multinacionais, que podem repatriar os seus lucros, nem determinados indivíduos ricos, que viajam com frequência, que mantêm contas bancárias no estrangeiro e têm as suas próprias empresas transnacionais. Os indivíduos chineses podem levar até 50.000 dólares anualmente para fora do país sem permissão especial. Victor Shih da Northwestern University avalia que os 1% das famílias chinesas mais ricas possuem entre 2 e 5 milhões de milhões de activos líquidos e de propriedades. (Economist, 4 August 2012). Podemos pois considerar que o item de dados mais significativo ao longo do período de Verão é o défice na balança de pagamentos do China (Ver gráfico da The Economist).
Este é um ponto decisivo para a economia global. Relativamente às tensões a aumentarem dentro da China e com o dinheiro a fugir para regiões mais seguras, nós percebemos como é que internamente esse défice agrava o risco de turbulência económica e política na China.
… As saídas de capitais no segundo trimestre (barra a azul) compensam o excedente na conta corrente. Um dos temas de que temos andado a falar nos últimos 18 meses é o de saber como é que o excedente da conta corrente na China tem vindo a diminuir nos últimos anos, não exactamente por causa da fraqueza recente nos seus principais mercados de exportação tais como a zona euro, mas porque o renminbi está ligado ao dólar americano. A taxa de câmbio efectiva nominal, a taxa de câmbio nominal ponderada pelos pesos comerciais dos principais países parceiros no comércio com a China, terá então acabado por se tornar excessivamente forte.
… Temos estado entre um conjunto pequeno de comentadores que têm consistentemente identificado o crescimento das reservas cambiais da China como uma questão chave na bomba da liquidez, quer para a própria China quer para a economia global também. Por muito que as autoridades chinesas se tenham queixado recentemente acerca da política monetária perdulária dos Estados Unidos e da seu quantitative easing. Os chineses têm feito exactamente o mesmo ou seja, imprimindo vastas quantidades de renminbi mantendo a sua taxa de câmbio desvalorizada face ao dólar americano.
Este é um tema comum nos mercados emergentes em geral e muitas vezes ajuda a explicar as taxas de crescimento rápido e o boom do valor dos activos nesses países. E à medida que o excesso de optimismo sobre o crescimento da China se foi transformando em instabilidade e criando várias montanhas Kilimanjaran de dívida, nós desde então bem avisámos que este baralho de cartas poderia vir a desabar em contraste evidente com o consenso geral. Embora o declínio absoluto das reservas seja pequeno, a alteração marca uma enorme mudança para a descida através das engrenagens ligadas à impressão de moeda. E se as saídas de capitais se aceleram, a próxima engrenagem pode ainda ser invertida.
Edward Chancellor do fundo de investimentos GMO, um dos fundos mais importantes à escala planetária, fez uma excelente análise sobre este tema. Discutindo a aceleração clara da fuga de capitais no segundo trimestre, ele cita Victor Shih, da Northwestern University, sublinhando que a riqueza está altamente concentrada na China e dada a evolução económica e política recente, os chineses ricos têm muitos incentivos para colocar o seu dinheiro no exterior.
No seu texto “China’s cash pile provides no shield“, Edward Chancellor, Financial Times, 5 August 2012 escreve:
“Quando o capital foge do país, as reservas estrangeiras da China vão-se reduzir . O Professor Shih considera que globalmente o valor das fortunas dos 1% das famílias chinesas mais ricas é superior ao valor dessas reservas. Esta vulnerabilidade pode ser vista de uma outra perspectiva. A oferta chinesa de moeda (M2) não é somente duas vezes o valor do PIB do país como é mais de quatro vezes superior ao valor das reservas cambiais . As reservas são actualmente iguais a 22% da oferta de moeda na China. Por outro lado, as reservas cambiais dos chamados tigres asiáticos representam em média cerca 35% da oferta de moeda aquando as suas moedas entraram em colapso em 1997.”


