EM VIAGEM PELA TURQUIA – 49 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Devemos também falar um pouco mais da zona que tem como referência a Praça Taksim, que pode considerar-se o centro da cidade moderna, por ser, em termos culturais, a mais ocidentalizada nas épocas bizantina e otomana. Foi nesta zona que se fixaram as comunidades estrangeiras, em particular a francesa e a italiana, e muitos judeus, sendo os sefarditas a maioria, que vieram fugidos da Península Ibérica, nomeadamente do reino de Portugal, quando D. Manuel I era o rei. Também ali se fixaram muitos gregos e arménios. Dos judeus expulsos de Espanha, mais de 150.000 encontraram refúgio no Império Otomano.

E falámos da Praça Taksim por uma única razão, que mais não é do que solicitar a reflexão dos leitores para um facto histórico que também diz respeito aos portugueses, lembrando-lhes que muitos judeus portugueses perseguidos escolheram viver num meio dominado pelos otomanos, que lhes abriram as portas do seu território. Não será caso para perguntar onde está agora a tolerância dos judeus israelitas? Deveriam, por exemplo, lembrar-se do sultão Bayezid II (1447-1512), que enviou o almirante Kemal Reis a Cádiz (Cádis, em português) para transportar judeus para o Império Otomano, onde puderam refugiar-se.

Voltando à Praça do Hipódromo, há a referir também que, num dos seus lados, está o Museu de Arte Turca e Islâmica, que ocupa o antigo palácio do Grão-Vizir de Solimão I, o Magnífico, de seu nome Ibrahim Paşa, edifício construído em 1524.

A colecção deste Museu foi iniciada no princípio do século XIX, estando agora ali expostas mais de 40.000 peças, relativas a quase todos os períodos da arte islâmica, desde exemplos raros de caligrafia islâmica, Alcorões que vão do século VII até ao século XX, documentos imperiais com assinaturas otomanas e escritas turcas e iranianas em miniatura, colecção de tapetes vários, peças de metal como candelabros e outros objectos de arte em prata otomana. As tribos nómadas também não são esquecidas, onde lhes é dedicado um espaço significativo na área etnográfica, situada no rés-do-chão do edifício.

Museu de Arte Turca e Islâmica

Merece também menção um outro edifício, onde se situa a Reitoria da Universidade de Mármara

É chegado o momento da visita à Mesquita Azul, que assim é designada por causa dos já nossos conhecidos azulejos azuis de İznik, os quais merecem também uma pequena referência, para além do que referimos quando falámos da Mesquita de Rüstem Paşa.

Reitoria da Universidade de Mármara

İznik, como Küthahya, foi um dos principais centros de produção de cerâmica otomana, pintada e vidrada, nomeadamente, vasilhas, pratos e azulejos, mas também lamparinas e, até, canecas de cerveja.

Uma das maiores encomendas a este centro produtivo aconteceu aquando da construção da Mesquita de Sultanahmet, ou seja, da Mesquita Azul, com uma encomenda «de 21.043 azulejos de cerca de 50 desenhos diferentes. (…) A primeira cerâmica de İznik é de um brilhante azul e branco. O pico foi atingido no século XVI quando o famoso “vermelho tomate” foi desenvolvido. Hoje, os visitantes podem-no ver brilhar no soberbo trabalho de azulejaria da Mesquita de Rüstem Paşa em Istambul. Este período de maior riqueza da cerâmica de İznik coincidiu com o grande período de desenho do estúdio de desenho de Nakkaşhane, no Palácio de Topkapi.» (v. Guia American Express, Turquia).

De imediato se nos impõe uma diferença em relação a todas as outras mesquitas, dado ser a Mesquita Azul a única que em Istambul tem seis minaretes, o que provocou grande polémica por ter sido considerada como uma tentativa de rivalizar com a arquitectura de Meca, portanto um acto sacrílego.

Foi construída entre 1609 e 1616, em frente do Museu de Santa Sofia, como já dissemos, ficando separadas pelo jardim público que ocupa o espaço do antigo Hipódromo, o qual descrevemos neste nosso «Em Viagem pela Turquia» com bastante pormenor. O arquitecto responsável foi Mehmet Ağa

O seu exterior não se distancia do estilo clássico otomano, que junta a harmonia, a proporção e a elegância.

O sultão Ahmed I transformou um antigo palácio bizantino no que é hoje a mesquita que leva o seu nome, com um objectivo bem claro: construir uma mesquita que não só fosse maior mas também mais bela do que a Igreja de Santa Sofia, não faltando a escola religiosa, a sauna turca, a cozinha destinada à sopa aos pobres e, inevitavelmente por razões económicas, as lojas para que, com as suas rendas, houvesse o necessário financiamento do complexo.

Sobem-se uns degraus a partir da Praça do Hipódromo, entra-se neste pátio, com a fonte das abluções ao centro,iniciando-se assim a visita à Mesquita de Ahmed I

(Continua)

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