A REVOLTA DOS FUNCIONÁRIOS, por André Brun

(1881 – 1926)

III

― Durante a tua ausência , explicava-me ele alguns instantes depois a uma mesa do Martinho, o que houve de mais notável foi a revolta dos funcionários.

― A revolta?

― Sim. Tinha que ser. De há muito andava no ar. Os governos, porém, não faziam caso. O coeficiente é que foi o rastilho da bomba.

― O coeficiente?

― Como sabes, devido à carestia da vida os economistas cá do sítio, em vez de fazerem qualquer coisa para barateá-la, decidiram multiplicar os ordenados por um coeficiente de dilatação. Ultimamente e enquanto os ordenados seguiam tranquilamente a nove, o calor das despesas passou gradualmente a trinta e picos. . Qualquer aluno do 1º ano de física te diria que o consumidor tinha que rebentar fatalmente se não lhe alargassem o coeficiente. O Parlamento, prosseguindo na sua interessante série de experiências acerca da elasticidade da paciência pública, disse lá para consigo: ― “ Esta gente tem a vida trinta vezes mais cara. Devia ganhar trinta vezes mais. Vamos a ver o que ela faz dando-se-lhe apenas doze.” Ora! Meu caro amigo. Sucedeu o que de há muito se fazia anunciar. Rebentou a revolta dos funcionários.

― Que me dizes? E houve mortos e feridos?

― Qual história! O funcionário é um animal doméstico e, portanto, pacífico. Revoltou-se, mas sem violência. Em cada ministério adoptaram um plano especial e há oito dias que aí vai uma trapalhada que ninguém se entende. Por exemplo: no ministério do Trabalho deliberaram trabalhar. Logo às nove horas da manhã apresentaram-se à porta do ministério milhares de sujeitos que os porteiros nunca tinham visto.

― Onde vai o senhor? perguntavam os Cérberos admiradíssimos.

― Trabalhar, respondiam os recém-chegados. Somos funcionários de cá, acrescentavam, sacando do cartão de identidade.

Chegados lá cima, indagavam do chefe de repartição. Como ainda não eram três horas da tarde, não tinha chegado.

― Onde é a minha carteira? Dêem-me uma caneta! Dêem-me papel! bradavam centenas de vozes alucinadas.

Os chefes, chamados à pressa pelo telefone, punham as mãos na cabeça.

― Oh senhores, vão para as suas casas, pelo amor de Deus!

― Isso nunca! Com o coeficiente doze queremos trabalhar. Só consentiríamos em não vir à repartição com o coeficiente trinta e quatro.

Nas repartições, corredores, arquivos, retretes e outros locais de labor, já circulavam patrulhas da guarda republicana a cavalo para garantir um pouco o trânsito.

Ao meio dia os chefes tiveram uma ideia luminosa.

― Meus senhores, gritaram eles com um porta-voz, são horas de ir lanchar.

― A quem tem o coeficiente doze, retorquiu a multidão, mal chega para jantar. Não pode pensar em lanchar. Venha trabalho para se entreter o tempo.

Um chefe propunha a um grupo:

― Os meus amigos não desejam ir para as águas? Não costumam tomar banhos, ou mudar de ares? Não quererão V. Exas sessenta dias de licença da junta com vencimentos? E depois, os que precisassem de outros sessenta para convalescença…

Os do grupo respondiam de má catadura:

― Com o coeficiente doze, não se pode ir para fora, nem estar doente. Quem é pobre não tem luxos. Venha trabalho! Só adoecemos quando tivermos o coeficiente trinta e quatro e uma gratificação especial.

(continua no próximo sábado)

In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.

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