Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A erosão alemã
Dan Steinbock
Dilemas das últimas economias da zona euro com Triple-A
Até muito recentemente, a crise da zona euro foi amortecida pelo forte comportamento económico da economia alemã. Mas esses dias estão a acabar .
Durante os últimos quatro anos, o Reino Unido sofreu um recessão em forma de W, uma recessão de dupla quebra, a double dip. ou duplo mergulho. A França está a aproximar-se de uma situação de recessão. A Itália, com uma dívida de 2 milhões de milhões de euros está agora forçada a ser governada por um regime tecnocrático desde o Outuno de 2011. A Espanha está completamente à deriva em direcção a um novo resgate com uma taxa de desemprego superior a 25% e com uma taxa de desemprego na juventude para mais de 50%.
Até muito recentemente, a Alemanha estava a sair-se muito melhor em termos relativos do que as outras economias fortes da União Europeia. No entanto, o abrandamento da actividade económica no segundo semestre de 2012 poderá transformar-se em condições recessivas no início de 2013 .
O modelo assenta na dinâmica das exportações, export led-growth, dependendo dos Estados Unidos e da China
Como o seu modelo de dinâmica do crescimento pela exportações está em plena erosão , a Alemanha espera poder agora contar com o consumo privado, mas este último não pode compensar a desaceleração do crescimento que era assegurado pelas suas exportações.
A resiliência alemã baseia-se nas empresas pequenas e médias empresas, Mittelstand, as muitas empresas de pequena e média dimensão que historicamente têm sido o grande suporte do crescimento alemão nos mercados globais. Ao contrário das grandes empresas que são as multinacionais estas pequenas e médias empresas familiares colocam em primeiro lugar as pessoas e só depois os lucros.
O que não augura nada de bom para o futuro é que o crescimento das exportações da Alemanha depende apenas de alguns sectores e regiões.
A zona euro absorve cerca de 40% das exportações alemãs, mas outras regiões representam mesmo mais de 60% das mesmas.
Nos três primeiros trimestres de 2012, as exportações para os EUA e a Ásia, representaram respectivamente, cada uma delas, cerca de 35% do crescimento do total das exportações na Alemanha; ou seja neste caso 70% do crescimento total.
Além disso, as exportações estão altamente concentradas em termos de sectores. Os automóveis, os produtos farmacêuticos e a engenharia mecânica para os Estados Unidos representavam três quartos do crescimento das suas exportações. Na China, o efeito é ainda maior: a indústria automóvel gerou quase 100% de crescimento do total do crescimento das exportações alemãs para este país.
A alta concentração pode resultar em grandes riscos estruturais. Se Washington falhar em gerir o “abismo fiscal” ou se a máquina do crescimento chines gripa, o impacto negativo seria muito significativo na Alemanha.
Erosão económica, males sociais
Os sinais de constante, embora ainda baixa, erosão económica são agora abundantes. A taxa de desemprego subiu para quase 7%. Embora o clima de negócios tenha tido ressaltos , o sentimento do consumidor permanece cauteloso, comportando-se contra a procura interna. A inflação abrandou para menos de 2% anualmente.
Mesmo veneráveis grandes instituições estão a lutar contra a situação presente. Recentemente a Opel, uma subsidiária da GM, anunciou, recentemente, que irá parar a montagem de carros em Bochum, na Alemanha até 2016. Da mesma forma, a empresa siderúrgica ThyssenKrup apresentou um prejuízo de 4,7 mil milhões, conjuntamente com as enormes perdas contabilísticas das suas fábricas nos EUA e no Brasil.
Os bancos regionais (Landesbanken) não estão imunes à possível re-escalada no sector financeiro. Os problemas podem ser ainda mais extensivos. Recentemente, um antigo funcionário do Deutsche Bank declarou que escondeu as perdas no valor de muitos milhões de euros durante a crise financeira, a fim de evitar um resgate governamental .
Simultaneamente, a pobreza urbana tem crescido a um ritmo alarmante. Enquanto a taxa nacional ultrapassou já 15% em 2011, esta aumentou para 20% nas grandes cidades. De acordo com o Instituto de investigação económica e social, quase um quarto de todas as pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza residem apenas em meia dúzia de cidades: Liepzig, Dortmund, Duisburgo, Hannover, Bremen e Berlim.
Sem surpresa, as atitudes da extrema-direita estão em ascensão, especialmente na antiga região socialista, a antiga Alemanha de Leste. De acordo com pesquisas de âmbito nacional da Friedrich Ebert Foundation, fundação de linha centro-esquerda, os comportamentos tipo da extrema-direita aumentaram de 8,2% para 9% em todo o país. Em termos relativos, a mudança foi maior no leste da Alemanha, onde este comportamento subiu de 10,5% para 15,8%. Os sentimentos xenófobos são agora já uma característica de um em cada quatro alemães.
A caminho das eleições de 2013
Por agora, a Chanceler Merkel conseguiu manter uma grande popularidade a nível nacional. No entanto, o apoio que lhe tem sido dado pelo partido do centro-direita, a Democracia Cristã (CDU), tem estado em franca erosão nas eleições locais do estado. Ao mesmo tempo, os social-democratas na Alemanha estão-se a unir em torno do seu candidato Peer Steinbrück.
No final de Novembro, o Parlamento alemão Bundestag votou a aprovação ainda um novo conjunto de medidas de auxílio para a Grécia. Apesar de irritantes dúvidas entre os deputados do centro-esquerda, o Parlamento aprovou as novas medidas da Chanceler Merkel, por uma esmagadora votação de 473 contra 100.
Segundo diversos inquéritos, a maioria dos alemães preferiria que a Grécia caísse na situação de falência assumida. No entanto, um incumprimento pela Grécia é sentido como gerador de efeitos de contágio, primeiro no sul da Europa e, em seguida, nas economias centrais da Europa. Continua a ser visto como sendo uma situação demasiado arriscada.
Ao contrário de há um ano, as medidas de dívida terão agora, e pela primeira vez, um impacto directo sobre os credores privados. Se a diminuição dos rendimentos em juros for combinada com a decisão de reservar os lucros pelo Banco Central Europeu para a Grécia, as receitas do orçamento alemão para 2013 sofrerão uma redução de 730 milhões de euros.
Na verdade, com as políticas actuais, Berlim pode ter que absorver milhares de milhões de perdas ao longo dos anos subsequentes.
A incerteza de curto prazo, a erosão a médio prazo
O principal risco que enfrenta a Alemanha é uma crescente crise da zona euro, que iria ter efeitos de repercussão sobre a Alemanha através de diferentes canais da economia real e dos mercados financeiros.
Sem surpresas, um economista alemão de referência, como o é Hans-Werner Sinn, argumentou que a continuação das actuais políticas de resgate irá criar enormes riscos. Na verdade, ele acredita que a Grécia e Portugal temporariamente devem deixar a zona euro.
Mesmo se os dois partidos dominantes podem manter a sua liderança política, a erosão económica irá por em destaque o facto ao qual os eleitores alemães se estão cada vez mais a opôr, seja à mutualização da dívida, as transferências orçamentais, seja aos resgates de custo muito elevado.
O timing não poderia ser pior. A Alemanha está-se a esforçar para aumentar a força de trabalho, a querer elevar a qualidade do capital humano de que dispõe e a querer aumentar a produtividade no sector dos serviços. Apesar dos seus pontos fortes no curto e médio prazo, terá também de enfrentar o problema do envelhecimento da sua população e os efeitos do crescimento negativo que a este envelhecimento estão associados.
Berlim está ansiosa. Para todos os efeitos práticos, a Europa está prestes a entrar numa situação de estagnação de médio prazo, ou seja, numa década perdida.
Dan Steinbock, Dilemmas of the Last Triple-A Eurozone Economies. Economitor, disponível em : http://www.economonitor.com/blog/2012/12/the-german-erosion/

