Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Carta aberta a Keynes
Keynes, regressa, eles esqueceram o essencial da tua mensagem
Caro John Maynard Keynes,
Caro John Maynard, não tenho a certeza que venhas a receber esta carta. Mas talvez alguns, que se reclamam de ti, a venham a ler . Quase todos os seus filhos espirituais se mantiveram numa parte simples das tuas conclusões: no seu tempo e durante as décadas que se seguiram, era importante, em tempos de elevado desemprego, “relançar a economia” e conseguir um “crescimento económico elevado” apoiando-se sobre um Estado que gasta e que investe. Este princípio correspondia ao capitalismo que tu observavas e que querias salvar das suas próprias derivas, reabilitando para isso mesmo o papel do Estado investidor na economia, contra os liberais do teu tempo. E isso funcionou muito bem deste ponto de vista .
Para a maioria dos teus discípulos contemporâneos, este princípio económico tem sido “gravado na pedra”, enquanto o contexto mudou radicalmente. Do ponto de vista deles, eles têm um argumento: dado o desemprego de massa que tem disso criado desde os anos 80 então deve ser permanentemente e deverá ser sempre assim, “‘deve-se fazer a economia crescer” e tão forte quanto possível, e os Estados deveriam, portanto, endividar-se fortemente e durante todo o tempo que fosse necessário. O imperativo da retoma económica seria perpétuo.
Mas quando se pensa nisto, esse argumento é fraco. O desemprego em massa e permanente como nós o conhecemos actualmente, e tu que nunca o conheceste por um período tão longo, será ele, na verdade, o resultado de um défice permanente de crescimento? Parece bem que há outros factores decisivos, tornados estruturais: por um lado, a paragem do movimento histórico da redução do tempo de trabalho anual e, por outro lado, uma distribuição da riqueza produzida em que se tem reduzido a parte dos salários para favorecer aqueles para quem tu desejavas a eutanásia: os que vivem das rendas e os que vivem das acções.
As estratégias destes últimos, que em grande parte tomaram o poder desde os anos da década de 80, são das principais causas de depressão e do desemprego. São estes e as instituições financeiras que eles controlam, que fizeram a aposta insensata de que a especulação era mais rentável do que investir na economia real, o que se pode verificar durante algum tempo e provoca instabilidade destruidora e a crise. Nós estamos agora no ponto em que, como disseste, “a situação torna-se grave quando a empresa não é mais do que uma bolha de ar no turbilhão da especulação.”
Somado a isso, acresce o facto de que o desemprego elevado, que tem como sua fonte principal o poder exorbitante dos que vivem de rendas, os rentiers, lhes convém e em muito, pois reduz as suas reivindicações salariais e permite-lhes aumento de lucros, pelo menos a curto prazo. Mas eles não vêem para lá do curto prazo. Tu, contudo, ensinaste-nos que um “investimento visa primeiramente ou deve visar, os resultados a longo prazo e só deve ser julgado de acordo com estes últimos.”
Nós deveríamos inspirar-nos não da parte conjuntural e historicamente situada das tuas recomendações, mas de certos dos teus raciocínios que atravessaram o século. Por exemplo, este, particularmente pleno de actualidade enquanto alguns economistas nos propõem de tudo mercantilizar: “a mesma regra autodestrutiva do cálculo financeiro rege todos os aspectos da existência. Nós destruímos a beleza dos campos porque os esplendores da natureza, uma vez que não são propriedade de ninguém, não têm nenhum valor económico. Nós seríamos capazes de apagar o sol e as estrelas, porque elas não nos dão nenhum dividendo.»
Keynes, seguramente estarias de acordo em dizer que alguns dos teus discípulos (nem todos, preciso) fazem de ti o que os outros fizeram com Marx: o reducionismo economicista, enquanto tu eras também, um e outro, verdadeiros visionários, por vezes moralistas, e não analistas da conjuntura ou puro “macroeconomistas’? Contudo, em 1930, escreveste um ensaio espantoso, tentando juntar algumas ideias brilhantes de Marx, mas que eles fingem ignorar: as tuas “perspectivas económicas para os nossos netos”. Bem, tu tinhas, e muito bem, previsto que os netos da tua geração seriam cerca de oito vezes mais ricos do que na tua época. E tinhas acrescentado que, com essa abundância material, ” seria tempo para a humanidade aprender a dedicar a sua energia a outros fins que não os económicos… ” O amor do dinheiro como um objecto de posse, que é necessário distinguir do amor do dinheiro como um meio para adquirir os prazeres e as realidades da vida, será reconhecido pelo que ele é: um estado mórbido bastante repugnante, uma dessas tendências meio criminosas meio patológicas cujo tratamento se confia aos especialistas de doenças mentais.”.
Vê tu que tive a oportunidade de discutir na rádio com um dos teus filhos espirituais, Jean-Paul Fitoussi. Lembrei-lhe que tu escreveste estas linhas, e perguntei-lhe se ele concordava com elas. Ele respondeu-me: “Keynes estava certo, mas o seu objectivo deve ser deferido para talvez um século mais tarde. Para lá de um século, a este ritmo, como tu o dizias por ironia, “nós estaremos todos mortos”. É para nós óbvio, mas também para os nossos descendentes, ou para uma parte da humanidade. Porque – o que tu não podias de forma alguma prever – o facto de ser oito ou até dez vezes mais ricos materialmente, que no teu tempo nos conduz colectivamente a desastres ecológicos e humanos que começaram agora a fazer sentir os seus primeiros efeitos. E isso acabará por nos levar ao esgotamento já próximo dos recursos materiais necessários para a “retoma perpétua”.
Também sei que depois de teres assistido a uma reunião de economistas americanos que se reclamavam da tua linha de pensamento e apresentado com força modelos e gráficos, disseste: “eu era o único não-keynesiano presente “. Eu penso que terias hoje uma reacção semelhante com alguns dos teus netos ou bisnetos espirituais, talvez até mesmo com uma fracção daqueles com quem me sinto muito próximo, que se chamam de “Pós-keynesianos” ou às vezes ” economistas aterrados”. Eu penso que eles só se tornarão verdadeiramente “Pós-keynesianos” quando eles admitirem que estamos actualmente numa época de “pós-crescimento, com consequências que seria bem melhor antecipar do que vir a sofrê-las. Conseguirão – eles ser capazes de recusar as suas intuições mais fortes num contexto de finitude dos recursos naturais? Conseguirão – eles ser capazes de fazer a escolha entre o que deve crescer e o que deve decrescer, de acordo com critérios ecológicos e sociais? Deverão para esse efeito de uma outra tua ideia bem correcta, próxima aliás, também da de Einstein quando este afirmava: “a dificuldade não está em compreender as ideias novas, está sim em escapar às ideias antigas. “
Muito poucos economistas aplicam a tua recomendação de modéstia: “os economistas estão agora ao volante da nossa sociedade, enquanto que eles deveriam é estar no banco de traz.” De muito boa vontade e com o maior prazer eu colocaria a maior parte deles mas era no porta-bagagens, esses neoliberais que conduzem a nossa sociedade à implosão e são frequentemente recompensados pelo banco da Suécia em nome de um inventor de explosivos. Tu pensavas também que “se os economistas pudessem conseguir que os considerassem como pessoas humildes e competentes no mesmo patamar que os dentistas, isso seria maravilhoso!”.
Desde a tua época, infelizmente, os economistas ao volante adquiriram cada vez mais poder como conselheiros próximos dos príncipes ou da finança, (o que tende a ser a mesma coisa), sem nunca se submeterem à apreensão da carta de condução devido aos acidentes graves que provocam regularmente.
Eu vou-te citar por uma última vez, mesmo se se trata de um certo humor cáustico, porque há muito de verdade nesse humor: “o capitalismo é esta crença surpreendente que os piores dos homens farão as piores coisas para o maior bem de toda a gente.”
Eu tenha algumas dúvidas que tu possas voltar a estar entre nós e, na verdade, eu não acredito nos grandes homens providenciais, mas eu gostaria que aquelas das tuas ideias, que eu aqui recordei estivessem bem presentes muitas mais vezes. Eu já não conto sobre a minha própria profissão para o fazer no imediato, mas outros poderiam empenhar-se nisso.
