GRÉCIA-ALEMANHA: QUEM DEVE A QUEM? (2ª PARTE): OS CREDORES PROTEGIDOS, O POVO GREGO SACRIFICADO. Por ÉRIC TOUSSAINT

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

VEJA-SE  O PRIMEIRO ARTIGO DA SÉRIE: “GRÉCIA-ALEMANHA: QUEM DEVE A QUEM ? “(1)  A ANULAÇÃO DA  DÍVIDA ALEMÃ CONCEDIDA  EM  LONDRES EM 1953″, TAMBÉM DE ÉRIC TOUSSAINT, PUBLICADO EM A VIAGEM DOS ARGONAUTAS, A 17 E 18 DO CORRENTE MÊS DE JANEIRO.
(CONCLUSÃO) 

Parte III

5. Os sacrifícios impostos sobre os trabalhadores permitem conter um aumento de reivindicações nos países do centro

Os reveses sociais  infligidos aos trabalhadores gregos (mas também aos portugueses , irlandeses, espanhóis )… colocam sobre a defensiva  os trabalhadores da Alemanha, Países Baixos, Áustria, França, Bélgica… As suas direcções sindicais  temem fazer subir o nível da luta. Estas questionam-se como reivindicar aumentos de salário quando, num país como a Grécia, um membro da zona euro também, se diminuiu  o salário mínimo legal em  cerca de  20% ou mais.  Do lado das direcções sindicais dos países nórdicos (sobretudo na Finlândia),  confirma-se mesmo,  com espanto e muita tristeza,  que eles consideram que há bom-senso nas políticas impostas pelo  TSCG e nas políticas de austeridade porque eles próprios consideram  que estas políticas são  supostamente necessárias para reforçar a boa gestão do orçamento dos Estados.

De novo sobre o acordo de Londres de 1953,  sobre a  dívida alemã, sobre o  plano Marshall

Como se mostrou no artigo anterior sobre  “Grécia-Alemanha: quem deve a  quem? “(1) A anulação da dívida alemã em  Londres em 1953”, os termos do acordo assinado em  Londres diferem radicalmente  quando confrontados com a maneira como é hoje tratada a Grécia. Criaram-se múltiplas condições para permitir que a Alemanha Ocidental viesse rapidamente a crescer, permitindo a reconstrução do seu aparelho produtivo industrial. Não só a dívida emitida pela Alemanha, entre as duas guerras mundiais foi reduzida em mais de 60%, mas a liquidação de dívidas de guerra e o pagamento de reparações para as vítimas civis e para os Estados foram adiadas para uma data indeterminada : na verdade, devido à  reunificação alemã, que ocorreu em 1990 e ao Tratado de paz que foi assinado em Moscovo, no mesmo ano, entre as autoridades das duas Alemanhas no decorrer da reunificação, os Estados Unidos, a URSS, o  Reino Unido e a França. O peso das reparações sobre a economia alemã  foi, portanto, longamente diferido para muito longe no tempo . E no caso das reparações de guerra devidas à  Grécia, estas  não representaram o menor esforço por parte da Alemanha pois que as autoridades alemãs recusaram sempre dar sequência aos pedidos gregos.

Ao contrário do que se tinha passado no final da primeira Guerra Mundial, as potências ocidentais quiseram depois da  Segunda Guerra Mundial   evitar que incidissem  sobre a  Alemanha o peso de reembolsos insuportáveis, porque consideravam que estes reembolsos tinham favorecido a ascensão do regime nazi ao poder. As potências ocidentais também queriam uma Alemanha Ocidental economicamente forte (mas desarmada e ocupada militarmente) contra a União Soviética e os seus aliados. Nada de semelhante está em questão  com a Grécia e os outros países no seio da União Europeia.

Para atingir este objectivo, não só o peso da dívida foi fortemente aliviado assim como foram concedidas grandes ajudas económicas, sob a forma de donativos para a Alemanha, mas especialmente foi-lhe permitido aplicar uma política económica completamente favorável à sua recuperação e reorganização económica. Os grandes grupos industriais privados puderam assim consolidar-se, estes mesmos  que tinham desempenhado um papel chave no aventureirismo militar da primeira Guerra Mundial, no seu apoio aos nazis quanto ao genocídio dos judeus, ciganos… quanto à  pilhagem dos países ocupados ou anexados, na produção militar e  no esforço logístico gigantesco  da Segunda Guerra Mundial.

A Alemanha pode assim  desenvolver impressionantes infra-estruturas públicas, pode  apoiar as suas indústrias  a fim de satisfazer a sua procura  interna e de conquistar mercados estrangeiros. A Alemanha foi mesmo autorizada a pagar uma grande parte de sua dívida em moeda nacional, o marco alemão. Para tornar isto concreto, basta apenas pensarmos na  situação que se seguiu ao acordo de Londres de 1953. A Alemanha reembolsa a Bélgica e a França numa parte da sua dívida  de entre as duas Grandes Guerras  em marcos alemães. Esses marcos alemães que tinham nenhum interesse para o comércio com o resto do mundo, belgas e franceses tentaram rapidamente livrarem-se deles  através da compra de bens e equipamentos fornecidos pela economia alemã e contribuíram  assim  para se refazer da Alemanha uma grande potência exportadora .

Pelo seu lado, a Grécia,  Portugal, Irlanda, Espanha, Estónia, Eslovénia e  outros países periféricos  da zona euro  devem reembolsar as suas dívidas públicas em euros enquanto euros é o que lhes faz mesmo muita falta tendo em conta o seu défice comercial  contra os países mais fortes da zona do euro. Ao mesmo tempo, as potências  que dominam a zona euro exigem-lhos  e obrigam-nos  através da Comissão Europeia e dos tratados  adoptados, a prosseguir políticas de austeridade que os impedem tanto  de satisfazer a sua procura interna  como de exportar [facto tanto mais dramático quando estes países fortes decidem levar agora, também eles, políticas restritivas e daí a pergunta – exportar para quem ?]. Se eles querem mesmo assim ter sucesso na exportação, eles são então empurrados a reduzir ainda mais os salários dos seus trabalhadores, o que comprime a procura interna um pouco mais e acentua a recessão. O programa de privatização completa o quadro acabando por  atingir  duramente o seu aparelho produtivo industrial , as suas infra-estruturas e o  seu património em geral.

Para sair deste impasse,  é necessário por em acção  um pacote de medidas económicas e sociais em ruptura radical com as políticas realizadas até hoje, quer no que se refere ao  nível nacional quer igualmente ao  nível europeu. É pois necessário levar á prática  um programa de emergência face à crise  |19|.

Proximamente o terceiro artigo da  série  : Grèce-Allemagne: qui doit à qui ? (3)  e este incidirá sobre a recusa   dos dirigentes alemães em pagar as reparações devidas ao povo grego na sequência da ocupação nazi.

Notas

|1| Uma  biografia útil   está publicada na  wikipedia em inglês- http://en.wikipedia.org/wiki/Hans-W…

|2| Le Monde, 1 Agosto de 2012, p.17 http://www.lemonde.fr/idees/article…

|3|Ver http://alencontre.org/europe/la-gre… assim como  http://www.agoravox.fr/tribune-libr…http://cadtm.org/Declaration-de-Man…

|4| Ver nota bibliográfica em alemão em  : http://de.wikipedia.org/wiki/Karl_H…

|5| retomado de  C. Lapavitsas, A. Kaltenbrunner, G. Lambrinidis, D. Lindo, J. Meadway, J. Michell, J.P. Painceira, E. Pires, J. Powell, A. Stenfors, N. Teles: « The eurozone between austerity ans default », September 2010. http://www.researchonmoneyandfinanc…. Veja-se igualmente o resumo em francês (rédigé par Stéphanie Jacquemont du CADTM) deste estudo.

|6| O mesmo fenómeno verificou-se também e na mesma altura em  Portugal, na Espanha, nos países da Europa Central e de Leste .

|7| Quadro retomado de  C. Lapavitsas, op. cit.

|8| . Os principais detentores  (ou seja, bancos dos países  mencionados) dos títulos da dívida grega são assim de acordo com os dados disponíveis:  França,  Alemanha,  Itália, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Reino Unido, os outros detentores   estão  agrupados na categoria “resto do mundo”.  Esta representação gráfica  é retirada de C.  Lapavitsas, op. Cit., p. 11. De acordo  com o Banco de Pagamentos Internacionais, em Dezembro de 2009, os bancos franceses  detinham em  dívida pública grega  um  montante de US $ 31 mil milhões,  os bancos alemães detinham cerca de 23 mil milhões.

|9| A partir de 2010, os bancos ocidentais têm parado ou diminuido radicalmente  a compra de títulos da dívida públiaca grega e começaram a desfazerem-se isso sim  daqueles títulos que tinham  comprado anteriormente. Estes títulos foram revendidos ao Banco Central Europeu que os compra  no mercado secundário.

|10| Christine Lagarde tornou-se directora-geral do FMI   em Julho de  2011.

|11| Veja-se  Council of the European Union, Statement by the Heads of State or Government of the Euro area and EU Institutions, Bruxelles, 21 Julho de  2011, ponto t 3, http://europa.eu/rapid/pressRelease….

|12| Veja-se  European Commission, Directorate General Economic and Financial Affairs, “The Second Economic Adjustment Programme for Greece”, Março 2012, quadro   18, p. 45, “Interest rates and interest payments charged to Greece” by the euro area Member States”, http://ec.europa.eu/economy_finance…

|13| Financial Times, “Investors rush for the safety of German Bunds”, 24 Mai 2012, p. 29

|14| Les Echos, Isabelle Couet, « L’aide à la Grèce ne coûte rien à l’Allemagne », 21 juin 2012. A jornalista precisa : « as taxas a  6 anos – as que correspondem à maturidade média da dívida alemã –   de facto passaram de  2,6% em  2009 para  0,95% en 2012. »

|15| Le Soir, Dominique Berns e  Pierre Henri Thomas, « L’Allemagne se finance à 0% », 23 mai 2012, p. 21

|16| Idem.

|17| Voir le film documentaire Catastroïka

|18| Veja-se o dossier já anteriormente citado : http://alencontre.org/europe/la-gre… Sobre o processo de privatização veja-se  : European Commission, Directorate General Economic and Financial Affairs, “The Second Economic Adjustment Programme for Greece”, Março de 2012, p. 31 à 33, http://ec.europa.eu/economy_finance…

|19| Veja-se  Damien Millet – Eric Toussaint, « Europe : Quel programme d’urgence face à la crise ? »

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