Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
O FMI levanta o pé sobre do travão da austeridade, mas não a Europa, não o PS francês
Laurent Pinsolle
Depois da publicação de um primeiro estudo no início de Novembro, Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI acaba de publicar um artigo em que critica as políticas de austeridade que desde há muito tempo têm sido defendidas por esta Instituição, o FMI, e têm sido severamente aplicadas na Europa, apesar das inúmeras advertências.
Porque é que a austeridade não funciona
Trata-se de uma verdadeira revolução tipo de Copérnico feita pelo economista chefe do FMI, Olivier Blanchard, (que tinha proposto aumentar a meta de inflação). Enquanto que a instituição de Washington tem sempre defendido e exigido políticas de ajustamento extremamente severas do ponto de vista orçamental, trata-se agora de reconhecer que a experiência sobre os efeitos destas políticas mostra que estas podem ser contraproducentes por causa dos seus efeitos recessivos, e estes tinham sido largamente subestimados nos modelos económicos utilizados.
Para ser um pouco mais técnico, nos seus anteriores modelos, o FMI estimou que um 1% de ajustamento orçamental do PIB tinha um multiplicador de 0,5, ou seja, esta redução orçamental provoca um declínio no PIB de 0,5%. No momento, devido ao impacto de um menor crescimento nas receitas de impostos e das despesas públicas , o resultado líquido deste esforço seria de cerca de 0,75% do PIB. ( Nota de Tradutor-Dito de forma mais directa: uma redução orçamental inicial de 1% do PIB gera uma redução final global final no défice de 0,75 de PIB e uma redução final no PIB de 0,5). Em suma, os países sofrem, mas o esforço parece ser eficaz.
O problema é que a experiência tem mostrado que esses modelos teóricos eram falsos. Olivier Blanchard acredita que agora o multiplicador em vez do valor anteriormente assumido estará antes compreendido no intervalo de 0,9 a 1,7. O problema é que quando se está no topo da escada, o esforço de austeridade é extremamente contraproducente, a contracção da actividade é então muito alta e a redução do défice é por isso mesmo bastante limitada . Isso é exactamente o que está a acontecer na Grécia, Espanha ou Portugal, onde o défice não desce mais do que nos Estados Unidos.
Ilustração retirada de The Economist e do artigo: No short cuts, Short-term austerity in the aftermath of a severe crisis may prove more painful than thought, Outubro de 2012
A Europa num impasse
A confissão do FMI terá sem dúvida agradado quer a Joseph Stiglitz, uma vez que este tinha amplamente criticado essas políticas desde 2001 no seu livro “A grande desilusão”, antes de as denunciar de novo no relatório encomendado pela ONU em 2009, quer a Paul Krugman, que denunciou, no seu último livro, a política de austeridade . Além disso, conforme o relata Libération, ele reagiu no seu blog a esta publicação afirmando que o FMI “tem o mérito de repensar a sua posição à luz dos factos”.
Mas o “Prémio Nobel de economia” de 2008 também assinala que “a verdadeira má notícia é que muito poucos dos outros actores na política económica fazem a mesma coisa. Os dirigentes europeus, que criaram um enorme sofrimento à escala europeia digno da Grande Depressão de 1929 nos países endividados, sem sequer restaurar a confiança financeira, continuam a dizer que a solução resultará apenas com mais sofrimento”. O pior é que tudo isto era previsível, como escreveu Jack Dion: Nicolas Dupont-Aignan tinha-o declarado já em Maio de 2010.
Mais preocupante é continuar a ver que o governo “socialista” se agarra desesperadamente a estas condições de austeridade apesar da admissão de erro assumida pelo economista-chefe do FMI. Pierre Moscovici ou Jérôme Cazuhac, pelo lado do governo, Valérie Rabaud ou Karine Berger pela Assembleia , são incapazes de ter em conta e de aliviar a pressão a nível do défice, o que corre o risco de colocar a economia em recessão e de enviar centenas de milhares de pessoas para o desemprego.
Naturalmente, deve-se respeitar o dinheiro público e geri-lo com rigor. Mas desde há três anos, que as politicas de austeridade levadas a cabo na Europa nos têm encostados à parede. Mesmo o FMI acaba de o reconhecer . É surpreendente que o governo seja incapaz de o admitir ele próprio.

