Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota
Parte IV
(conclusão)
Mundo de dor…
De facto, a integração pode ajudar a tornar os problemas da dívida Europeia mais fáceis de gerir.
Como um todo, a balança corrente da zona euro está quase equilibrada, a sua balança comercial tem até um pequeno excedente, o défice orçamental global é modesto e o nível agregado da dívida pública alto é gerível. Cerca de 75% do seu comércio é no seio da própria zona o que é ajudado pela eliminação de barreiras comerciais e pela moeda comum. A Alemanha, a maior economia e um dos maiores exportadores mundiais, vende mais de 60% de seus produtos no mercado comum, e muito deste valor destina-se aos membros da zona euro.
Mas as significativas disparidades entre os seus Estados membros tomados individualmente quanto a níveis de rendimento, finanças públicas, contas externas e níveis de dívida exigirá uma transferência de riqueza líquida das nações mais ricas para os membros de rendimento mais baixos. Os Estados membros de muito maior solvabilidade terão também que subscrever os empréstimos das nações mais fracas. Apesar da oposição a tal articulação de vários passivos vinda dos credores líquidos tais como a Alemanha, a Finlândia e a Holanda, este processo será agora o resultado mais provável.
Uma integração deste tipo feita de forma não transparente terá custos substanciais. Para as Nações periféricas, a assistência de financiamento estará disponível, em doses que manterão o seu destinatário ainda vivo mas prolongando-lhe o seu sofrimento. Este processo [o que tem estado a ser seguido] exige a aderência às políticas de austeridade rigorosas que, por sua vez, lançam os países numa profunda recessão.
A qualidade de vida será reduzida através da desvalorização interna. No período desde a introdução do Euro, os custos da unidade trabalho na Alemanha aumentaram cerca de 7-8%, comparado aos 30% em Itália, 35% na Espanha e 42% na Grécia. Estes aumentos devem ser revertidos para aumentar a competitividade. As condições de emprego, as pensões de reforma, os benefícios sociais proporcionados pelo Estado passarão a ser menos generosos. Os impostos irão aumentar o que reduzirá o rendimento disponível.
Nas nações mais fortes, aqueles que têm poupança positiva verão o valor das suas poupanças caírem. Eles também vão sofrer perdas ao nível dos seus equipamentos sociais uma vez que haverá rendimento e poupança que se irá destinar a apoiar os membros mais fracos da zona do Euro. A integração torna-se uma realidade, o cidadão alemão médio irá descobrir a realidade de um antigo provérbio: “se deixa ficar a besta ela come-o, se correr com ela então ela atira-se a si e come-o “, [if you stay the beast will eat you, if you run the beast will catch you]..
A Europa encontra-se situada e bloqueada num período de moderada actividade económica e de desemprego elevado. Os países do núcleo da zona Euro, especialmente a Alemanha e a França, estão a ficar cada vez mais afectados pelos problemas do resto da Europa. No início 2013, Joerg Asmussen, membro alemão do Conselho do BCE, foi citado como prevendo a que Alemanha poderia tornar-se o “cidadão doente da Europa” se os problemas existentes continuarem a manter-se
A seca linguagem económica esconde um mundo da dor humana enquanto a vida se vai transformando numa luta cruel pela sobrevivência. As taxas de desemprego que, nalguns países, se aproxima de 30% e 50% para as pessoas com menos de 25 anos, alimentará a instabilidade crescente. O mal-estar social e os conflitos sociais serão prováveis. A militância contra as políticas de austeridade e contra a baixa dos níveis de vida, que ainda por cima continuarão a baixar ainda mais, essa oposição irá também ela aumentar.
Os principais partidos políticos em muitos países descem agora nas sondagens abaixo dos 50% da votação total, exigindo cada vez mais coligações politicamente instáveis que tornam a governação mais difícil. Como Jean-Claude Juncker, o primeiro-ministro de Luxemburgo, observou: “todos nós sabemos o que fazer, nós simplesmente não sabemos como conseguirmos ser reeleitos depois de o fazer.”
O ambiente político favorece os partidos políticos que defendem posições, acções, mais radicais como, por exemplo, o abandono do Euro, o incumprimento ou a re-estrutração da dívida em vigor. A oposição à imigração e às minorias culturais, muitas vezes a tomarem a forma de acção violenta está a crescer. São estas realidades e não tanto a economia que podem determinar o futuro da Europa.
Os dirigentes políticos europeus estão cada vez mais optimistas na sua linguagem de que a crise da zona Euro está já “atrás de nós”; os problemas estão “resolvidos”. Só a chanceler alemã Angela Merkel se tem mostrado cautelosa, argumentando que é provável que a crise irá continuar por muitos anos. Pode ser uma questão de reconhecimento táctico do custo da crise para a Alemanha. Pode, também, uma estratégia para preparar os alemães para a dura realidade do provável final do jogo
Enquanto, de facto, a integração é o resultado mais provável, uma transição suave não está ainda garantida. As fugas actuais do dinheiro para as nações sitiadas, querendo em primeiro lugar activos sobre o orçamento alemão, a poderem significar degradação da notação para os membros do núcleo da zona Euro ou então um aumento da inflação e o aumento dos preços no consumidor pode alterar rapidamente a dinâmica. Se os eleitores na Alemanha e nos outros Estados mais fortes tiverem conhecimento da realidade do pool de dívida e das transferências de riqueza estrutural institucionalizada, o resultado pode ser bem diferente. Uma contínua deterioração da actividade económica, exigindo mais resgastes assim como um nível de desemprego insustentável e uma forte desagregação social pode ainda desencadear o repúdio de dívidas, incumprimentos ou mesmo um colapso do Euro e da zona do Euro.
Satyajit Das, Europe’s Debt Crisis Endgames—Stealth Solutions, 24 de Janeiro de 2013, texto publicado em vários sites, entre os quais o EconoMonitor no seguinte endereço:
http://www.economonitor.com/blog/2013/01/europes-debt-crisis-endgames-stealth-solutions/
