EXPO-VIRTUAL – URBANO TAVARES RODRIGUES FALA SOBRE DORINDO CARVALHO

Dorindo Carvalho e o mundo como ele o vê 

por Urbano Tavares Rodrigues

Dorindo Carvalho talvez seja, acima de tudo, um cáustico gravador de grotescos.  Nesse domínio produziu alguns magníficos quadros e desenhos, absolutamente originais e que, no entanto, podem fazer-nos pensar num Jorge Vieira, nas suas peculiares deformações do real e até por vezes em Botero, pelo seu gosto da vitalidade e da espessura. Mas Dorindo é um experimentador, que não se fixa numa aventura estética, num processo, numa maneira.

Como se se procurasse sempre e, encontrando-se em estilhaços de escolas e tendências, dos quais se apropria, passasse por uma decomposição das formas próximo da abstracção para regressar a uma plena figuração lírica, de cores quase estridentes e grandes superfícies lisas. São dessa fase as suas ceifeiras, o seu Alentejo visto em azul e ouro ou em restolhos de tórrido calor.

Em quase todos os momentos maiores, a pintura de Dorindo é social, carrega consigo, na força do traço, na violência de certas formas, mais até do que nos motivos, o povo, a aspereza do trabalho, a escura canga dos dias pobres.

Não que a arte de Dorindo seja muito explicitamente política, mas porque a sua mente e a sua mão falam a linguagem da forja de Vulcano, o feio torna-se belo na transmutação que esse fogo opera nas realidades cruas do barro condenado, dos forçados da cidade.

A Venezuela proporcionou-lhe o contacto com outro imaginário, a visão de corpos e flores eufóricas, a imagem viva e explosiva do sofrimento e do rancor de uma humanidade sujeita à fome e à exclusão e que se atordoa com ritmos e cantares.

A América Latina palpita na pintura de Dorindo Carvalho e nas suas poderosas figuras que às vezes gritam.

O desenho gráfico, vocação e modo de vida, atinge então, mormente em capas de livros, e ilustrações, uma dimensão quase brutal de revolta, que se traduz em musculaturas agressivas, maquinarias monstruosas, símbolos e alegorias revolucionárias.

Dorindo Carvalho está medularmente ligado (…) á memória de Abril que viveu, nas grandes alegrias e nas decepções amargas.

A sua obra variada e apaixonada espelha tudo isso.

Leave a Reply