É isto que está a acontecer, quando elas telefonam para o SOS-Crianças do Instituto de Apoio à Criança – Serviço de âmbito nacional de apoio às crianças /jovens/famílias/ profissionais e comunidade que até hoje já recebeu mais de 120 mil apelos.
No meu trabalho não necessito de contactar diariamente com muitas novas famílias. Mas tem-me acontecido ultimamente algumas contarem-me situações financeiras muito complicadas, em que quase não têm comida para dar aos filhos, dinheiro para pagar transportes para deslocar aos diversos locais onde necessitam – Centro de emprego, hospitais, etc… Comecei o dia com uma conversa destas, sentindo uma grande impotência, não tendo mais para oferecer do que um lenço de papel, a mesma vontade de chorar e a partilha da preocupação com as crianças. O meu tempo a ouvi-la, não sei se lhe serviu para alguma coisa….
Diz-nos a Linha SOS Criança, do Instituto de Apoio à Criança, que cerca de 300 crianças para lá ligam, preocupadas com a situação socioeconómica dos pais, um número que aumentou quase 8% em relação a 2011. “As crianças desenvolveram assim quase como que a ideia de um síndrome de um mundo mau e começaram a ficar preocupadas com medo que os pais pudessem perder o emprego e ligaram mais com esse tipo de preocupação”, contou o secretário-geral do IAC, Manuel Coutinho. Manuel Coutinho acrescentou que estes casos acontecem mais entre as crianças com idade entre os 10 e os 12 anos porque “têm alguma percepção, mas não têm conhecimento total” e não gostam de partilhar as suas angústias com os pais.
Outras notícias informam-nos que há perto de 41 mil mães desempregadas que vivem sozinhas com os filhos, de acordo com os números do último recenseamento da população, realizado em 2011. Este número corresponde a um aumento de 150% nos últimos dez anos (eram 15 mil em 2011 e 41 mil em 2011).
Contactado pela TSF, o sociólogo Renato Carmo, membro do Observatório das Desigualdades (ISCTE-IUL), nota que neste tipo de famílias o risco de pobreza tende a ser maior do que no resto da população. É que, como já vimos anteriormente, as mulheres tendem a ter salários mais baixos do que os homens. (observatorio-das-desigualdades.cies.iscte.pt).
Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos a 2011 mostram que 28% das famílias monoparentais estavam em risco de pobreza, um número superior à média nacional para toda a população portuguesa, que é de 18%.
Segundo a Caritas, Mais de meio milhão de crianças portuguesas estão em risco de pobreza, prevendo-se que vai continuar a aumentar e que as crianças serão as mais afectadas.

