A IGREJA, A DITADURA E O PAPA – por Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro

Artigo transcrito, com a devida vénia e os nossos agradecimentos, do blogue CONVERGÊNCIA http://blogconvergencia.org/

Parte I

A relação entre Igreja e ditadura na Argentina é anterior ao desencadeamento do golpe terrorista de 1976. Nos seis golpes de Estado, que foram seguidos por controle militar do aparato estatal houve, em grande medida, participação e atuação da Igreja. Em 1930, com apoio da igreja, o movimento militar da chamada “restauração conservadora” derrubou presidente eleito e retroagiu a estrutura econômica e política do país ao sabor das oligarquias reacionárias. Em 1943 o Grupo de Oficiais Unidos (GOU), arquitetou a tomada de poder numa mistura confusa e eficaz que conjugou catolicismo e nacionalismo. Em 1955, após os dois primeiros governos peronistas, a Igreja Católica entra em choque com Perón, chegando a excomungá-lo, para logo apoiar a chamada “revolução libertadora” que pôs fim à experiência peronista, liderada por militares integristas. Se auto-intitularam como portadores de uma missão redentora cujo objetivo fora a “desperonização do Estado”.

O caráter ativado da mobilização popular no contexto dos anos 1960, cujo Cordobazo foi o ápice, introduz um panorama que põe em xeque a hegemonia capitalista e o status quo.

Em 1966, Juan Carlos Ongania assumiu o poder com apoio deliberado da direita conservadora, alinhada com a igreja, e prometera nova reação a ativação dos movimentos de luta popular, os setores da lucha callera. À época, o projeto do Onganito contou com o apoio da instituição católica. Postura que coadunou um projeto espiritual e econômico esclarecido, enfim, na nomeação de seu Ministro da Economia, Jorge Néstor Salinei, que não possuía outra credencial senão o apoio declarado dos setores conservadores da Igreja.

O Cordobazo e o Rozariazo atropelaram o Onganiato. O olho do furacão, a cidade de Córdoba. Barricadas montadas nas ruas, baseadas na aliança entre setores operários e estudantis, demonstraram a ativação da luta popular em fins dos anos de 1960 e a fragilidade da hegemonia militar encouraçada de repressão. A luta de classes atingia níveis muito intensos.

Em 1976, sob as bênçãos da Igreja, representada na ocasião pelo padre Adolfo Tortolo, houve o golpe de 24 de março. Não se tratava de mais uma ditadura como as anteriores. Tratava-se, em suma, da ativação de um projeto terrorista cujo ensaio fora a “operação independência” em Tucumán. Imbuídos da doutrina Francesa da contra-insurgência, um aparato de guerra, bem azeitado, agrediu e dizimou a iniciativa foquista do Ejercito Revolucionario Del Pueblo (ERP) em 1975, ainda sob o governo constitucional de Isabelita Perón.

O Golpe de 24 de março de 1976, por si, apresentou-se como síntese do processo contra-revolucionário. Sobre bases amplas de setores apoiadores da sociedade civil, meios de comunicação como o jornal Clarín, a Associação Permanente de Entidades Gremiais (APEGE) – representante do patronato empresarial argentino -, Sociedade Rural Argentina (SRA), e os setores conservadores da Igreja católica, apoiaram o auto-intitulado “Processo de Reorganização Nacional” (PRN), que oficializou o Terrorismo de Estado.

Os objetivos do Terrorismo de Estado, a partir de 1976, eram amplos, de longo prazo e retroativos. Tratava-se de uma intervenção “cirúrgica”, além de um projeto de militarização da sociedade. Constavam nas atas do processo os seguintes objetivos: “O Exército agirá seletivamente sobre os estabelecimentos industriais e empresas do Estado, em coordenação com os organismos estatais relacionados ao âmbito, para promover e neutralizar as situações conflitivas de origem trabalhista, provocadas ou que possam ser exploradas pela subversão, a fim de impedir a agitação e a ação insurrecional de massas, e contribuir para o eficiente funcionamento do aparelho produtivo do País.” (CONADEP, s/d: 280).

Conjugavam-se, no escopo e corpo da ditadura, um projeto de contra-revolução que se baseou no Integrismo Católico, na Doutrina de Segurança Nacional (DSN), e nos “valores ocidentais”. A ditadura de Terrorismo de Estado, na Argentina, contou com apoio massivo da cúpula católica. Desde os primeiros momentos da ditadura terrorista, a posição da Igreja era claramente definida, como revela a nota da Junta Episcopal argentina em reunião com a Junta Militar, ocorrida em 15.11.1976:

“O que pretende a Igreja? Primeiro, que não se misture na política. Frente a isto, os Bispos somos conscientes de que um fracasso levara, com muita probabilidade, ao marxismo, e por isto, acompanhamos o atual processo de reorganização do país, empreendido e encabeçado pelas Forças Armadas, o acompanhamos com compreensão, e igualmente com ADESÃO E ACEITAÇÃO.” (1)

Como insígnia do referido debate, encontramos alguns pontos nodais da cumplicidade entre Igreja e Ditadura. Para elucidar a questão, é importante lembrar o sequestro e desaparição de duas monjas francesas durante o terrorismo de Estado. Dagmar Hegelin, monja francesa que atuou nas redes de solidariedade aos familiares de desaparecidos, ainda durante a ditadura, foi sequestrada e levada a ESMA onde foi brutalmente torturada. Apesar das vinculações de Dagmar com a instituição, nada se falou à época.

Além do silêncio e cumplicidade da cúpula eclesiástica, encontra-se o caso de cooperação ativa em seções de tortura, como é o caso do Padre Christian Von Wernich. Von Wernich foi capelão da temida bonaerense durante a ditadura, além de ser acusado de participar de cerca de 45 sequestros, três assassinatos e outras tantas apropriações de bebês. Von Wernich foi julgado e condenado a prisão perpétua pela participação ativa em 7 assassinatos e 34 casos de tortura. No marco de seu julgamento, no ano de 2006, desapareceu a principal testemunha de acusação, Julio Lopez. Lopez, que até hoje permanece desaparecido.

É desta Igreja que provém Jorge Bergoglio. Uma Igreja que não deixou de contar com vozes dissonantes e resistentes – alguns dos quais inclusive desaparecidos pela ditadura -, mas que em sua cúpula hierárquica sempre se manteve firmemente aliada aos setores mais reacionários da sociedade argentina. Um grupo militares acusados de crimes contra a humanidade durante a ditadura argentina (1976-1983) apareceu nesta quinta-feira (14/03) em audiência realizada em um tribunal na cidade de Córdoba, trajando broches do Vaticano no lado esquerdo do terno, em alusão à eleição ocorrida um dia antes do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o novo papa da Igreja Católica.

Bergoglio e a Ditadura

São inúmeras as denúncias de envolvimento de Jorge Bergoglio com a ditadura argentina. Algumas apontam sua conivência, cumplicidade e intimidade com os ditadores enquanto outras o acusam de forma mais direta em ações de terror de Estado.

A cumplicidade com a ditadura foi compartilhada por toda alta hierarquia católica argentina (o que naturalmente não exime a responsabilidade individual de cada bispo) e portanto não é de estranhar que Bergoglio apareça sorridente e muito confortável ao lado de ditadores, em especial daquele que melhor simboliza o terror de Estado – o General Jorge Rafael Videla – e que tenha atuado sistematicamente contra os movimentos católicos renovadores de base popular.

Mais impactantes são as denúncias fartamente documentadas da cumplicidade de Bergoglio com a prisão e tortura de padres pertencentes a sua própria Ordem, Francisco Jalic e Orlando Yorio. Ambos integravam um movimento de renovação no interior da Ordem dos Jesuítas e da Igreja, desenvolvendo trabalhos de alfabetização e assistência na periferia de Buenos Aires, sob influência da Teologia da Libertação, e foram sequestrados em maio de 1976 e permaneceram detidos e torturados na famigerada Escola Superior da Marinha (ESMA) até outubro daquele ano, quando foram drogados e deixados em um terreno baldio. No mesmo operativo, foram sequestradas quatro catequistas e os maridos de duas delas, os quais permanecem desaparecidos.

As denúncias de cumplicidade de Bergoglio são sustentadas por diversos religiosos.(2) Ainda em março de 1976, Bergoglio acusou a ambos de desenvolverem atividades dissolventes e de conflito de obediência (por recusarem-se a interromper o trabalho desenvolvido na periferia de Buenos Aires), e decretou sua expulsão da Ordem dos Jesuítas. Dois meses depois do golpe, o Bispo de Morón, Miguel Raspatini, pediu a transferência de Jalic e Yorio para aquela Diocese, preocupado com o perigo que corriam em Buenos Aires, mas a transferência foi proibida por Bergoglio, e poucos dias depois, a 23 de maio, foram ambos sequestrados pela ditadura. Como acusou Yorio, Bergoglio submeteu a ambos “à proibição e à infâmia pública de não poder exercer o sacerdócio, dando assim ocasião e justificação para que as forças repressivas fizessem com que desaparecêssemos. (…)

Os documentos que incriminam Bergoglio foram revelados por Horácio Verbitsky, um dos principais jornalistas argentinos e autor de inúmeros livros sobre a ditadura daquele país.(3) Graciela Yorio, irmã de Orlando (falecido em 2000) sustentou acusação formal contra Bergoglio, que culminou em sua intimação para depoimento em 2011, e frente a sua nomeação como papa, reafirma as denúncias: “Bergoglio os desprotegeu. Como meu irmão e Francisco não seguiram os conselhos de deixar de viver numa favela, foram expulsos da congregação pelas pressões da ditadura, que achava que eram subversivos, e posteriormente presos”. Graciela conta ainda que depois do sequestro de seu irmão procurou Bergoglio e então compreendeu que ele estava envolvido no sequestro: “Ele nos disse que sobre Orlando não se falava mais, dando a entender que ele estava morto. Nossa sensação é de que ele os entregou. Quando meu irmão e Francisco foram soltos, telefonaram para Bergoglio e ele lhes disse que não podia ajudá-los – afirmou Graciela”.(4)Também Lorenzo Riquelme, médico peronista e militante católico sequestrado pela ditadura, acusa Bergoglio de envolvimento na repressão, afirmando que “o grupo que o sequestrou e torturou em 1976 saiu da sede principal da Companhia de Jesus, onde vivia e era responsável o superior provincial Jorge Mario Bergoglio”.(5) Sua localização foi extraída de sua noiva em uma sessão de tortura da qual participou ativamente o padre Martín González.(6)

Por sua vez o sacerdote Mom Debussy, motorista de Bergoglio à época, revela que em 1974 Bergoglio, então Reitor Provincial dos jesuítas, obrigara seus subordinados a participar e apoiar um comício de Isabelita Perón e também que lhe confidenciara os planos políticos do Almirante Massera, manifestando sua simpatia.(7)

Bergoglio é acusado ainda de cumplicidade e envolvimento com o sequestro de bebês, filhos de militantes políticos mortos pela ditadura, tendo sido intimado para depor na causa ESMA a partir de denúncia de Estela de la Cuadra, uma das fundadoras das Abuelas de la Plaza de Mayo, que o acusa de conhecer e omitir o paradeiro de sua sobrinha, roubada de uma delegacia de La Plata.(8) Ouvido em Tribunal, Bergoglio sustentou que só teve notícia dos sequestros muitos anos depois. Estela sustenta que sua família procurou Bergoglio após o sequestro de sua irmã Helena (grávida de 5 meses), que recebeu como resposta que “a situação era irreversível” e “que Ana, minha sobrinha nascida numa delegacia, estava com uma boa família, que cuidaria muito dela”.(9) Ainda segundo de la Cuadra, “muitos dos bebês sequestrados eram distribuídos pelo Movimento de Famílias Cristãs, fortemente vinculado à Igreja”.(10)

Com a eleição de Bergoglio como papa e o recrudescimento das denúncias contra ele, o Vaticano não tardou a reagir, qualificando-as, em tom típico da Guerra Fria, como obra destrutiva da “esquerda anticlerical”.(11) Sem referir-se ao papel da Igreja Católica na sustentação da ditadura argentina, o porta voz do Vaticano Federico Lombardi afirmou que “jamais houve uma acusação verossímil contra o Papa. A justiça argentina o interrogou, mas como pessoa informada de fatos e jamais foi acusado de algo. Ele negou de forma documentada as acusações”.(12) Em procedimento pouco usual, Lombardi atacou diretamente o jornal argentino Página 12, responsável pela publicação original das reportagens de Horácio Verbitsky, qualificando-o como “uma publicação que lança, às vezes, notícias caluniosas e difamatórias” e concluindo que “o caráter anticlerical desta campanha e de outras acusações contra Bergoglio é notório e evidente”.(13) A nota do Vaticano, evidentemente, não traz qualquer elemento que permita refutar as acusações, o que explica seu tom agressivo. Como lembra o jornal Página 12, “Na realidade não se trata de uma esquerda anticlerical (…), mas de dois sacerdotes jesuítas que foram sequestrados e torturados durante a ditadura, e já em democracia fizeram estas denúncias, às quais se somaram os familiares de outros laicos, militantes cristãos, que foram sequestrados nesta oportunidade, a maioria dos quais continuam desaparecidos”.(14)

(continua)

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