REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A União Monetária terá o mesmo destino que a União Soviética?

Publicado por Agora Vox, assinado por Noe

22 Setembro de 2012

Parte II

(conclusão)

Ora,  é o mesmo sistema tecnocrático e dirigista  que tinha sido criado  pela União Soviética para regular a criação monetária  nas várias repúblicas associadas à  Rússia, onde um banco central correspondente criava  os meios de financiamento reclamados  a nível da economia local, enquanto os saldos dos bancos correspondentes nacionais eram  compensados ao nível da organização central do Plano por uma criação monetária    ex‑nihilo do Banco Central russo. Quando a União Soviética se desmoronou, este sistema de compensação acabou,  deixando os bancos centrais dos Estados-Membros não-russos com montantes diríamos ilimitados de dívidas que levaram a uma  hiper-inflação, na medida em que a criação monetária  se traduzia numa  circulação monetária totalmente desproporcionada face à quantidade de riqueza produzida.

Então é isso que espera a União Económica e Monetária que lhe  venha a acontecer? Não numa primeira fase, porque o BCE tem implementado sistemas de recompra e em quantidades quase que ilimitadas de dívidas públicas nacionais complementadas pela unificação da supervisão bancária que deve tornar  possível controlar melhor a dívida emitida a nível local, de acordo com os novos critérios de controle dos  défices estabelecidas no âmbito do Pacto de estabilidade. Os bancos também têm recursos ilimitados em matéria de financiamento dos seus activos que os tornam,  se necessário,  quase que independentes do Banco Central, desde que o BCE  continue  a garantir o valor dos títulos  da  dívida pública, graças ao seu poder de transformação dos títulos dados como  colateral em créditos em  cash, em líquido, ou seja,  em concessão de empréstimos em moeda do Banco central,  também chamada   de liquidez do banco central. A actividade bancária que  consiste  pois em  conceder empréstimos em títulos como colateral ou garantia para financiar activos bancários, como swaps por exemplo, tornou-se um dos  principais   segmentos de maior crescimento dos bancos de investimento, que desenvolvem departamentos para fazerem a  «collateral transformation» consistindo em fazer circular o  colateral entre as contrapartes de derivados OTC, ou seja de derivados negociados fora da Bolsa. Por vezes, o colateral cedido faz as vezes de uma operação de financiamento de exposições ao risco, quando as posições arriscadas, assumidas  por um banco, se transformam  em perdas de que pode resultar a falência do banco e a liquidação do colateral cedido de garantia e isto  para maior  infortúnio dos detentores  efectivos dos títulos que serviram  como garantia para operações muito longínquas sem o seu conhecimento real quanto a exposições de risco tomadas pelos agentes financeiros em questão. Os recentes casos de MFGlobal e PFGBEST são as ilustrações mais recentes dessas práticas fraudulentas para criar activos arriscados com títulos emprestados servindo de  “financiamento sintético”, enquanto que o valor real destes títulos é arbitrário porque é determinado de acordo com as regras de aceitação da garantia pelo  Banco Central como o BCE mas  também, o BOE ou o FED.

Tais métodos de manipulações  contabilísticas  permitem que os bancos preservem a sua solvabilidade,  desde que os bancos centrais continuam a ser  garantes  do zero em incumprimento  da dívida pública. Esta é a grande diferença com a União Soviética que não conhecia  os financiamentos de mercado  com base na  troca de títulos como  garantias e em que esta troca  era uma  forma de financiamento dos bancos entre eles, que poderiam  mesmo dispensar os depósitos na medida em que  o “wholesale funding”  assume um lugar de destaque no financiamento dos  seus activos bancários que até não são mais créditos “originados” pelo banco em virtude do seu privilégio bancário de criação de moeda  mas  são, isso sim,  puras posições especulativas fora do balanço  ou operações a prazo sobre produtos derivados em acções ou obrigações que são usados para refinanciar os activos do balanço.

Nestas condições, pode-se perguntar no que é que se transformou a legitimidade da actividade bancária com esta  baseada na transformação de recursos monetários em investimento produtivo e em que esta tem sido pervertida pela  manipulação contabilística fundada  na base da criação da falsa moeda dívida constituída por títulos que eles mesmos são transformados em créditos cash quase que gratuitos  pelo Banco Central para alimentar as posições especulativas  que servem para  financiar a dívida. Os próprios bancos encontram-se colocados em órbita  na companhia da finança pública, de que ela constitui o fornecedor de fundos   ao mesmo tempo que o principal mercado para a venda da dívida  convertida em recurso monetário primário pelo Banco Central. A economia real não poderá  suportar durante muito tempo uma tal perversão do sector financeiro, que deixou já de  cumprir  a sua função principal que é o financiamento dos agentes económicos, mas que especula   sobre esses mesmos activos e sobre esses mesmos agentes com os activos    transformados   em valores de mercado, enquanto que as fontes de crédito continuam a diminuir ou até mesmo a  secar por causa das restrições de crédito impostas aos bancos pelo regulador que, de imediato, colabora  activamente na  fraude contabilística de que os   bancos dia a dia se tornam culpados de falsa monetarização, criando milhões de milhões   em moeda electrónica falsa. É este desequilíbrio entre, por um lado,  a riqueza produzida e, por outro, a quantidade de moeda electrónica criada, os famosos segmentos M3 e M4, que é necessário procurar  a principal fraqueza da União Monetária Europeia que dissimula a sua própria  hiperinflação nos  canais bancários próprios aos  mercados  financeiros, onde se trocam   os instrumentos de dívida emitidos pelos  bancos, em contraste com a União Soviética, onde a moeda fiduciária criada artificialmente circulava  na economia real, provocando   uma subida vertiginosa dos preços no  consumidor.

Os nossos tecnocratas estão a aproveitar-se das últimas inovações financeiras para esterilizar ao máximo a quantidade de moeda criada pelos bancos, de modo a que esta não derive da sua principal finalidade que é, por um lado, a de garantir a liquidez da dívida bancária que é, por seu lado, garante da perpetuação do financiamento dos Estados pelos bancos e, por outro lado, é a de preservar a solvabilidade dos instrumentos financeiros, enquanto estes estão perigosamente expostos a riscos de crédito sobre a   sua carteira de empréstimos de créditos concedidos à  economia real em plena recessão. A União Europeia compra assim a sua sobrevivência à custa do afundamento do  crescimento, pelo facto de que o sistema financeiro já não é mais capaz de gerar suficiente liquidez  para o benefício da economia privada, asfixiada que esta está,  por um lado,   pela escalada fiscal que é impulsionada pelas medidas de  austeridade  e, por outro lado, por reduzir drasticamente os meios financeiros  disponibilizados pelos bancos, preocupados que estes estão em  reduzir o risco crédito face às contrapartes privadas que o banco Central não protege da falência,  ao contrário do  que  acontece   com os Estados nacionais …

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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