Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A União Monetária terá o mesmo destino que a União Soviética?
Publicado por Agora Vox, assinado por Noe
22 Setembro de 2012
Parte II
(conclusão)
Ora, é o mesmo sistema tecnocrático e dirigista que tinha sido criado pela União Soviética para regular a criação monetária nas várias repúblicas associadas à Rússia, onde um banco central correspondente criava os meios de financiamento reclamados a nível da economia local, enquanto os saldos dos bancos correspondentes nacionais eram compensados ao nível da organização central do Plano por uma criação monetária ex‑nihilo do Banco Central russo. Quando a União Soviética se desmoronou, este sistema de compensação acabou, deixando os bancos centrais dos Estados-Membros não-russos com montantes diríamos ilimitados de dívidas que levaram a uma hiper-inflação, na medida em que a criação monetária se traduzia numa circulação monetária totalmente desproporcionada face à quantidade de riqueza produzida.
Então é isso que espera a União Económica e Monetária que lhe venha a acontecer? Não numa primeira fase, porque o BCE tem implementado sistemas de recompra e em quantidades quase que ilimitadas de dívidas públicas nacionais complementadas pela unificação da supervisão bancária que deve tornar possível controlar melhor a dívida emitida a nível local, de acordo com os novos critérios de controle dos défices estabelecidas no âmbito do Pacto de estabilidade. Os bancos também têm recursos ilimitados em matéria de financiamento dos seus activos que os tornam, se necessário, quase que independentes do Banco Central, desde que o BCE continue a garantir o valor dos títulos da dívida pública, graças ao seu poder de transformação dos títulos dados como colateral em créditos em cash, em líquido, ou seja, em concessão de empréstimos em moeda do Banco central, também chamada de liquidez do banco central. A actividade bancária que consiste pois em conceder empréstimos em títulos como colateral ou garantia para financiar activos bancários, como swaps por exemplo, tornou-se um dos principais segmentos de maior crescimento dos bancos de investimento, que desenvolvem departamentos para fazerem a «collateral transformation» consistindo em fazer circular o colateral entre as contrapartes de derivados OTC, ou seja de derivados negociados fora da Bolsa. Por vezes, o colateral cedido faz as vezes de uma operação de financiamento de exposições ao risco, quando as posições arriscadas, assumidas por um banco, se transformam em perdas de que pode resultar a falência do banco e a liquidação do colateral cedido de garantia e isto para maior infortúnio dos detentores efectivos dos títulos que serviram como garantia para operações muito longínquas sem o seu conhecimento real quanto a exposições de risco tomadas pelos agentes financeiros em questão. Os recentes casos de MFGlobal e PFGBEST são as ilustrações mais recentes dessas práticas fraudulentas para criar activos arriscados com títulos emprestados servindo de “financiamento sintético”, enquanto que o valor real destes títulos é arbitrário porque é determinado de acordo com as regras de aceitação da garantia pelo Banco Central como o BCE mas também, o BOE ou o FED.
Tais métodos de manipulações contabilísticas permitem que os bancos preservem a sua solvabilidade, desde que os bancos centrais continuam a ser garantes do zero em incumprimento da dívida pública. Esta é a grande diferença com a União Soviética que não conhecia os financiamentos de mercado com base na troca de títulos como garantias e em que esta troca era uma forma de financiamento dos bancos entre eles, que poderiam mesmo dispensar os depósitos na medida em que o “wholesale funding” assume um lugar de destaque no financiamento dos seus activos bancários que até não são mais créditos “originados” pelo banco em virtude do seu privilégio bancário de criação de moeda mas são, isso sim, puras posições especulativas fora do balanço ou operações a prazo sobre produtos derivados em acções ou obrigações que são usados para refinanciar os activos do balanço.
Nestas condições, pode-se perguntar no que é que se transformou a legitimidade da actividade bancária com esta baseada na transformação de recursos monetários em investimento produtivo e em que esta tem sido pervertida pela manipulação contabilística fundada na base da criação da falsa moeda dívida constituída por títulos que eles mesmos são transformados em créditos cash quase que gratuitos pelo Banco Central para alimentar as posições especulativas que servem para financiar a dívida. Os próprios bancos encontram-se colocados em órbita na companhia da finança pública, de que ela constitui o fornecedor de fundos ao mesmo tempo que o principal mercado para a venda da dívida convertida em recurso monetário primário pelo Banco Central. A economia real não poderá suportar durante muito tempo uma tal perversão do sector financeiro, que deixou já de cumprir a sua função principal que é o financiamento dos agentes económicos, mas que especula sobre esses mesmos activos e sobre esses mesmos agentes com os activos transformados em valores de mercado, enquanto que as fontes de crédito continuam a diminuir ou até mesmo a secar por causa das restrições de crédito impostas aos bancos pelo regulador que, de imediato, colabora activamente na fraude contabilística de que os bancos dia a dia se tornam culpados de falsa monetarização, criando milhões de milhões em moeda electrónica falsa. É este desequilíbrio entre, por um lado, a riqueza produzida e, por outro, a quantidade de moeda electrónica criada, os famosos segmentos M3 e M4, que é necessário procurar a principal fraqueza da União Monetária Europeia que dissimula a sua própria hiperinflação nos canais bancários próprios aos mercados financeiros, onde se trocam os instrumentos de dívida emitidos pelos bancos, em contraste com a União Soviética, onde a moeda fiduciária criada artificialmente circulava na economia real, provocando uma subida vertiginosa dos preços no consumidor.
Os nossos tecnocratas estão a aproveitar-se das últimas inovações financeiras para esterilizar ao máximo a quantidade de moeda criada pelos bancos, de modo a que esta não derive da sua principal finalidade que é, por um lado, a de garantir a liquidez da dívida bancária que é, por seu lado, garante da perpetuação do financiamento dos Estados pelos bancos e, por outro lado, é a de preservar a solvabilidade dos instrumentos financeiros, enquanto estes estão perigosamente expostos a riscos de crédito sobre a sua carteira de empréstimos de créditos concedidos à economia real em plena recessão. A União Europeia compra assim a sua sobrevivência à custa do afundamento do crescimento, pelo facto de que o sistema financeiro já não é mais capaz de gerar suficiente liquidez para o benefício da economia privada, asfixiada que esta está, por um lado, pela escalada fiscal que é impulsionada pelas medidas de austeridade e, por outro lado, por reduzir drasticamente os meios financeiros disponibilizados pelos bancos, preocupados que estes estão em reduzir o risco crédito face às contrapartes privadas que o banco Central não protege da falência, ao contrário do que acontece com os Estados nacionais …
