Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Itália: o Dragão e o grilo
Parte III
(conclusão)
Os títulos italianos, acções e obrigações, têm recuperado grande parte das perdas iniciais verificadas no rescaldo das eleições. A Itália está entre os países com menor défice na Europa e é mesmo o único país com um excedente primário. Para o serviço da sua dívida, no entanto, a Itália tem de vender mensalmente 30 mil milhões de euros em bens e em títulos. Ela está a tentar agora alargar os prazos de vencimento, em que a média já está no limite superior da zona euro (um pouco mais de 7 anos).
Há relatos de que o BCE esteve de modo contemplativo a deixar a Troika fazer o seu trabalho (EU, FMI e BCE), mas como não se tratava de nenhum grupo formal enquanto tal os relatórios foram pura e simplesmente desmentidos pelo BCE. No entanto, a semente da verdade será a de que o BCE está cada vez mais isolado dentro do grupo que agiu como sendo o juiz financeiro e como sendo igualmente o júri dos países soberanos da zona euro.
A União Europeia está a considerar dar a vários países um tempo extra para estes consigam alcançar as suas metas orçamentais. O FMI tem, um pouco tardiamente, reconhecido que o multiplicador orçamental (o impacto de um corte nas despesas públicas na economia global) é maior do que o multiplicador anteriormente adoptado. Tudo isto é mais simpático para uma participação do sector oficial na reestruturação da dívida, tal como na Grécia, embora insista que tal concessão está excluída. Lagarde, Director-Geral do FMI, também apelou ao BCE para cortar nas suas taxas e reiterou este seu apelo ao longo dos últimos dias.
Lagarde reconhece que uma taxa de inflação mais baixa e salários menores na periferia requer que haja uma inflação um pouco mais elevada e salários mais altos em países como a Alemanha, ideia esta que o BCE está relutante em assumir. Ainda, muito recentemente, o governo alemão aceitou conceder aos seus funcionários civis, via a frente sindical VERDI, um acordo de 2 anos em 9 de Março com um aumento de salário que é superior à taxa de inflação em 5,6%. Este acordo inclui um aumento de 2,65% este ano, com efeitos retroactivos a 1 de Janeiro e um outro aumento de 2,95% em Janeiro próximo. O acordo tem efeitos sobre 15 Estados alemães. Apenas o Hesse, que não faz parte do acordo colectivo, não participa formalmente no acordo alcançado.
A inflação alemã ficou em 1,5% em Fevereiro, a taxa mais baixa desde Dezembro de 2010. Relembremos que em Março passado os trabalhadores municipais e federais receberam um aumento salarial de 6,3% em dois anos. Mesmo se os cínicos têm razão e as considerações eleitorais (eleição em Setembro) estão a desempenhar o seu papel, o facto é que o aumento dos custos de trabalho na Alemanha podem ajudar o reequilíbrio do crescimento na zona euro e muito mais do que a dura austeridade sozinha na periferia.
Um dragão, pode Mário Draghi ser, mas como dragão Draghi não pode mais continuar a lançar chispas de fogo como força de ataque. A barra alta imposta para desencadear as OMT significam que este programa não pode ser implementado rapidamente, nem sequer pode ser visto como fazendo parte de um programa de resposta à crise. Com a taxa dos depósitos a taxa zero como sendo a verdadeira âncora para as taxas de curto prazo, mesmo um corte de 25 pb na taxa de refinanciamento de 75 pb só terá um impacto mínimo. A flexibilização de regras de garantias continua a ser possível, mas há uma relutância, especialmente pela parte das nações credoras, o que acarreta o risco de enfraquecer mais o balanço do BCE.
Enquanto isso, a bola está no campo dos grilos. Grillo e o movimento M5S é muito dificilmente um partido político, embora seja claramente uma força com que se deve ou se tem de contar. Alguns dos pontos do seu programa poderão provavelmente ser assimilados pela direita ou pela esquerda, consoante. Mais do que um pouco tarde, ou seja tardíssimo, Monti suavizou os seus impulsos de austeridade nos últimos dias da campanha. A eleição pode vir a ser uma catarse, uma expressão de frustração e de insatisfação com a elite política na Itália, mas o corpo político italiano, esse, não está propriamente prestes a auto-decapitar-se.
Marc Chandler, Italy: The Dragon and the Cricket, texto publicado em diversos sites entre os quais Zero Hedge, Insider Business, Marc To Market e e outros mais.
http://www.marctomarket.com/2013/03/italy-dragon-and-cricket.html
Nota. Marc Chandler is the head of global currency strategy at Brown Brothers Harriman.
(see our previous analysis of Monti here)
This piece is cross-posted from Marc to Market with permission.
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