Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Mais um passo para o precipício
Jacques Sapir
(conclusão)
…
As consequências desastrosas das políticas austeritárias
Todos os países, uns a seguir aos outros, lançaram-se a aplicar políticas suicidárias de desvalorização interna, condições que são equivalentes às políticas da deflação da década de 1930 que levaram Hitler ao poder. Assim, é o que acontece na Espanha e na Grécia, onde o desemprego e a austeridade devastam as respectivas sociedades [15]. Mas as consequências não se limitam a isso. Na verdade, a política de austeridade está em vias de atirar os povos uns contra os outros. O paradoxo aqui é total. A Europa, no sentido da União Europeia, que se apresenta geralmente como um factor de paz no continente está a transformar-se agora num factor de agravamento dos conflitos e do despertar de velhos ódios .
No caso da França, as consequências da austeridade são claras. Se se quer absolutamente reduzir o custo do trabalho na tentativa de restaurar a competitividade da indústria sem nenhuma desvalorização, é claro, que será necessário baixar salários e as prestações sociais. Mas, de imediato, é o consumo que diminui como o temos estado a ver actualmente e que assim se afundará. Inevitavelmente veremos as consequências sobre o crescimento; hoje, as estimativas mais credíveis indicam que para a economia francesa no ano 2013 isto resultará na melhor das hipóteses em estagnação e mais verosimilmente numa contracção de 0,4% do PIB . As últimas projecções de IMF também mostram que as perspectivas de crescimento se reduziram significativamente para o ano de 2013. Uma diferença de (-0,4%) do PIB entre as previsões feitas em Janeiro e as que são feitas em Abril é realmente muito significativa da trajectória em que estamos envolvidos.
Tableau 1
Source: Fonds Monétaire International, prévisions du 16 avril 2013
O resultado será, naturalmente, um aumento significativo do desemprego. Se queremos reduzir os nossos custos de 20%, provavelmente isso irá aumentar o desemprego de pelo menos metade ou seja, poderá mesmo chegar a mais de 15% da população activa, ou 4,5 milhões de desempregados na acepção da categoria «A» de DARES e 7,5 milhões para as categorias A, B e C, incluindo todas as categorias de desempregados. Além disso, na zona euro, a Espanha e a Itália concorrem já com a França na deflação salarial. Portanto é necessário fazer melhor do que de Madrid e Roma, e mesmo se não chegar a taxa 15%, estaremos dispostos a atingir, de seguida, os 20% de taxa de desemprego. Qual será o homem político que assumirá a responsabilidade? Quais são as consequências políticas?
Além disso e sensivelmente inquietante, os lucros das empresas e dos investimentos produtivos estão já a cair em flecha . Isto implica que a modernização do aparelho produtivo será retardada e o que nós poderemos ganhar, no caso contrário, pelas políticas de desvalorização interna, nós o perderemos em termos de produtividade.
Graphique 2
Source: INSEE
De momento, os nossos líderes e especialmente em França, consideram-se fortes. O Presidente da República, François Hollande, coloca todas as suas esperanças numa hipotética recuperação dos EUA para aliviar o peso da carga da austeridade. No entanto já teve que admitir que isso não se irá passar no segundo semestre de 2013, como ele tinha anunciado no início, e mudou a sua previsão para o início de 2014. Mas, um tal horizonte avança mais depressa do que quem o quer alcançar, a retoma dos EUA continua também ela a distanciar-se. É uma ilusão acreditar que será a procura externa que nos virá hoje salvar na nossa crença. O crescimento dos EUA é muito menor do que o esperado, e o FMI reduziu em baixa as suas previsões. Quanto ao crescimento chinês, ele está a abrandar mês a mês. François Hollande espera agora que nós seremos salvos pela cavalaria; mas a cavalaria não irá chegar, ou, como nos trágicos dias de Junho de 1940 ‘ muito pouca, muito tarde”.
Acrescentemos que aos cálculos feitos pelo governo para 2014 falta singularmente credibilidade, confiança. O governo mantém a meta de 2014 em 2,9% quanto ao défice orçamental relativamente ao PIB. No entanto, nós estaremos em 2013 não com um défice de 3% mas de 3,7% (na melhor das hipóteses) ou de 3,9% (na pior das hipóteses). Uma redução de 0,8% a 1% de redução do défice, implica uma economia ou a obtenção de novos recursos fiscais na ordem de 16 a 20 mil milhões de euros. Mas essa pressão fiscal, tendo em conta o multiplicador da despesa pública, que muito provavelmente será de 1.4 (se não for maior), irá resultar num declínio da actividade económica entre 22,4 e 28 mil milhões. Isso resultará numa diminuição das receitas fiscais 10.3 a 12,9 mil milhões de euros. O ganho total de medidas orçamentais ou fiscais será, portanto, entre 5,7 a 7,1 mil milhões.
Se o governo pretende atingir a todo o custo o objectivo do défice que considera fixo, ele deve reduzir as despesas ou aumentar impostos de 45 mil ilhões de euros e não de 16 mil milhões como planeado inicialmente. Mas esta amostragem de 2,25% do PIB, em seguida, irá resultar numa queda da actividade económica em torno de 3,1%.. Sabendo que a previsão de crescimento feita pelo governo é + 1,2% para o PIB em 2014, isso resultará, se a previsão for fiável, numa recessão de (-1.9% ) do PIB. Se se contenta com uma contracção das despesas públicas ou com aumento de impostos de 16 mil milhões, o efeito negativo no crescimento será “apenas” de 22,4 mil milhões, ou seja, de 1,1% do PIB, e estaremos em 2014 com um + 0,1% de crescimento efectivo e um défice de 3,5%. Estes cálculos mostram bem a futilidade da política de austeridade nas condições atuais, e isto é confirmado por um recente estudo do banco Natixis que contudo raciocina com um multiplicador de gastos públicos na ordem de 1, enquanto nós pensamos que o valor do multiplicador é sim de 1.4 para a França de hoje (Natixis def budg).
Mais do que nunca, a questão da sobrevivência da zona euro está posta . As tendências para o seu rebentamento amplificam-se cada vez mais . Vemos que os problemas de países diferentes como a Grécia, a Espanha, Portugal e a Itália irão convergir a muito curto prazo, provavelmente no Verão de 2013. Nesses países a crise orçamental (Grécia, Itália), a crise económica, a crise bancária (Espanha, Itália) agora estão a desenvolverem-se em paralelo. Assim, é altamente provável que iremos conhecer uma crise violenta no Verão de 2013, ou mesmo no início do Outono. É hora de saldar as contas. O Euro não está a induzir o crescimento como era esperado desde que foi criado. Agora é um cancro que está a roer uma grande parte da Europa. Se queremos salvar a ideia da Europa, tanto quanto há ainda tempo, é necessário muito rapidamente declarar a dissolução da zona euro. Esta solução impõe-se como uma evidência e deverá reunir responsáveis de diversas formações políticas. No entanto, é conveniente agir rapidamente. Ainda mais uma vez, o tempo não espera.
Texto disponível em : Jacques Sapir, “Un pas de plus vers le précipice”, nota publicada e disponível em Russeurope le 20/04/2013, URL: http://russeurope.hypotheses.org/1158
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[15] http://www.metrofrance.com/info/grece-meurtres-suicides-sida-le-terrible-bilan-de-l-austerite/mmds!PqcswhEW99LYg/

