Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Objectivo, o equilíbrio em 2017: a França deve respeitar o seu compromisso
Editorial do jornal “Le Monde”, 24 de Abril de 2013
Editorial do “Le Monde”. Pleno emprego, excedente orçamental, leves sinais de crescimento: a Alemanha mostra-se com uma saúde económica que não é possível levar a que não se sinta ciúmes. O sucesso de Angela Merkel é uma humilhação para o sul da Europa e para a França, cujo desfasamento é bem patente. A França que sofre de uma taxa de desemprego que é o dobro da vizinha Alemanha, registou um défice orçamental de 4,8% do PIB em 2012 e agora está a estagnar.
É neste contexto que os deputados devem analisar, na terça-feira, 23 de Abril, o “programa de estabilidade” transmitido a Bruxelas. Este prevê o retorno ao equilíbrio das finanças públicas em 2017. A história tem um certo gosto um pouco semelhante ao déjà vu: cada governo, seja de direita seja de esquerda, faz deste objectivo um alvo em movimento. Em 2002, Jacques Chirac tinha adiado os compromissos da França, que era o de ter um orçamento equilibrado em 2003! Nicolas Sarkozy tinha feito o mesmo em 2007. E François Hollande, depois de se ter assegurado que a França ultrapassaria os 3% do défice público em 2013, teve que desistir de fazer o mesmo.
Desde há dez anos, os franceses têm a sensação de que constantemente lhes pedem esforços. Hoje, após cinco anos de crise financeira, eles consideram que já não podem mais. Para encontrar uma escapatória, invocam o rigor excessivo, que não teria tido nenhum sucesso no sul da Europa.
Até o Presidente da Comissão Europeia tomou agora as suas distâncias com esta política de rigor: ” tanto penso que esta política é fundamentalmente boa, tanto acho também que esta política atingiu os seus limites. “Para ser bem-sucedida, uma política deve não só ser projectada correctamente, mas deve ter um mínimo de apoio político e social”, resumiu José Manuel Barroso.
O apoio a esta política de austeridade começa agora a faltar numa zona euro que tem uma taxa de desemprego de 12%, ou seja 20 milhões de desempregados. A desconfiança do povo reflecte-se nas sondagens, como é evidenciado pela explosão do panorama político na Grécia e na Itália.
O debate público centra-se sobre o rigor excessivo, que estaria a acrescentar mais crise à crise já existente. Mas, na prática, os responsáveis políticos abrem sucessivas concessões desde há meses com o aval do FMI e da Comissão. Hoje, o esforço de rigor é duas vezes menos intenso do que o era há ainda um ano. Primeiro, foi o Tribunal Constitucional de Portugal que censura um plano de poupanças do governo e, em seguida, foi a Holanda, que adiou uma economia de 4 mil milhões de euros em economias previstas para 2014. Hoje, a Espanha deve obter um prolongamento de dois anos para fazer passar o seu défice para valores inferiores aos 3%.
A França não conheceu o que se pode chamar um verdadeiro rigor. As suas despesas públicas continuam a ser as mais elevadas na Europa e o Estado social desempenhou o seu papel de amortecedor desde a crise de 2008. Foi necessário esperar até 2012 para registar uma baixa do poder de compra das famílias, a primeira descida desde 1984, sob o efeito de aumento de impostos decidido por Nicolas Sarkozy e depois acentuados por François Hollande. Esta via tem os seus limites. O programa francês prevê reduzir de 3 pontos a despesa pública daqui até 2017. Ainda é necessário manter este objectivo, cumpri-lo.
Éditorial du “Monde”, Objectif équilibre 2017: la France doit tenir son cap

