REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota de leitura de Júlio Marques Mota

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Nota de leitura

Apesar do título do artigo ser Excel + FMI = UE – TINA não resisti à tentação de propor um outro título e este é então  Excel + FMI+TINA = EU. Nesta última expressão tomamos como objectivo caracterizar a União Europeia de hoje, e em que esta é sintetizada pelo conjunto: a folha de cálculo Excel  com os seus erros, com as suas manipulações, com a dimensão da sociedade percebida apenas como valor final do excedente primário que se quer obter, a política de austeridade pura e dura dos planos de ajustamento estruturais que durante décadas foram aplicados ao Terceiro Mundo expressos pelas letras FMI   e, por fim,  TINA  a reproduzir a frase célebre de Margaret Thatcher  de que não há outra alternativa e com isto a dizer que não há  outra saída que não seja o modelo neoliberal, não há outra política que não seja a política de austeridade.  Prefiro pois a minha proposta de título,  a de que o título seja então:  Excel + FMI+TINA = EU.

Júlio Marques Mota

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Excel + FMI = UE – TINA

Sylvie Kauffmann, Le Monde, 23.04.13

 

Leonid Brezhnev deve  estar dar voltas a rir-se  no seu túmulo. Se existe alguma coisa coerente no sovietismo, foi a  coerência da sua estratégia económica. Uma estratégia bastante simples, finalmente: a economia centralizada e planeada. A União Soviética reinava  sobre um grupo de democracias  populares que não eram nem democráticas, nem populares, mas agrupadas, para a economia, no seio de uma organização de  nome um pouco rebarbativo: Comecon ou Conselho para assistência económica mútua.

O Comecon não era, estritamente falando, um lugar de  debates.  Aí ninguém se cansava em polémicas incessantes  sobre os  méritos  da estratégia de austeridade em comparação com os méritos do restabelecimento do crescimento.  Aí apoiavam-se   sobre montanhas de  estatísticas  em  que muitos economistas do bloco soviético estavam a  fingir que acreditavam serem autênticas.

A zona euro  é também, neste momento, uma espécie de Conselho para a Assistência Económica Mútua.  Com algumas  diferenças  consideradas fundamentais. Em primeiro lugar, ninguém é forçado a aderir. Em seguida, sem ofensa aos nossos amigos caricaturistas  gregos  e cipriotas, Angela Merkel  não é de modo nenhum  Leonid Brezhnev como também  não é Adolf Hitler. E acima de tudo, na União Europeia, debate-se infinitamente – demais, até mesmo, para o gosto de alguns. Mas onde  Brezhnev  se deve estar a divertir  é que nós também, nós também falsificamos as estatísticas.

Felizmente é raro , e quando isso acontece, é involuntário. O caso de “erro Excel’  que vê desde há alguns dias  os adversários  da política de austeridade saltar no ar  e aos gritos como Tarzan  é bem a ilustração  perfeita do perigo, para os políticos, de darem demasiado importância aos estudos científicos, aos números e às estatísticas

O erro do Excel, é a história de um estudo realizado por dois economistas de renome, de Harvard,  Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, que desde 2010, serve como base académica para os defensores da estratégia da redução drástica das despesas públicas como meio de superar a crise da dívida.

Publicado no início da crise grega, o estudo diz, apoiado em muitos  números,  que a dívida pública de um país não tem forte impacto sobre o nível de crescimento económico, até ao momento em que  o montante da dívida não ultrapasse o valor limite de   90% do produto interno bruto (PIB). Para além deste limite da dívida relativamente ao PIB, o crescimento económico afunda-se. A experiência tirada de  uma amostra de países depois da  Segunda Guerra Mundial revelou um declínio bastante brutal no crescimento do PIB, de 3  para (-0.1%), uma vez que o limite de 90% esteja  ultrapassado. Para os governantes, a conclusão deste estudo é bastante simples: é necessário reduzir as despesas públicas para  as situar abaixo dos  90%, a fim de reencontrar, depois, a trajectória do crescimento.

Outros investigadores que trabalham sobre o mesmo tema, no entanto, não conseguem encontrar os mesmos resultados. Para sermos bem claros  três economistas da Universidade de Massachusetts  retomaram os mesmos dados , com o acordo de  Reinhart e de Rogoff , os cálculos que estes tinham já realizado. E foi assim que  descobriram que  havia um erro de codificação, especialmente  numa folha de cálculo Excel   que tinha sido utilizada   por dois pesquisadores de Harvard  que os tinha levado a  omitir uma parte importante  dos dados em análise.

O resultado, de imediato, aparece modificado:   quando a dívida pública relativamente ao PIB ultrapassa  o limite de 90% do PIB  não é certamente um facto que  estimule  o crescimento, e este  declina linearmente, mas sem acusar a queda brutal que lhe atribuem  Reinhart e Rogoff. Pode-se também deduzir que é a fraqueza do crescimento que favorece a dívida e não o   contrário como se é levado a  inferir com a  análise  de Reinhart e Rogoff.

Da mesma forma que o timing  do texto  dos dois economistas de Harvard foi perfeito, exactamente   no momento  em que  a Europa estava a começar  a enfrentar a questão da dívida grega, da mesma forma é  agora  a descoberta do erro’ Excel’ que cai abruptamente, cai a pique. Três anos depois da explosão grega, o tsunami da dívida inundou a Europa do Sul, o desemprego atingiu níveis dificilmente toleráveis e a maioria das economias europeias está   mergulhada na  recessão. Entre os políticos, o debate faz os seus estragos. De um lado, os partidários de TINA , com Angela Merkel no violento papel de Margaret Thatcher:  não há alternativa. Para eles, o crescimento não se  poderá  retomar  o crescimento  sem uma consolidação orçamental radical, ou seja, sem uma politica de austeridade .

Do outro lado, estão os rebeldes, cada   vez mais numerosos ,  com o Prémio Nobel Paul Krugman à cabeça ,  e estes  estão convencidos que a demasiada austeridade irremediavelmente prolonga a recessão. Eles estão a exigir  uma política de retoma, particularmente na Alemanha, essencial aos  seus  olhos para reiniciar o crescimento na zona  euro.  Aí, resumiu o  francês Louis Gallois, Comissário Geral do investimento, no domingo, 21 de Abril,  há  “uma tomada de consciência de que a adição das políticas de austeridade na Europa  conduziu a que os Estados se sintam encostados contra a parede”.

Neste contexto, a descoberta do erro de cálculo de Reinhart e Rogoff, na realidade, não altera fundamentalmente a situação. Os rebeldes têm razão em se mostrarem contentes e Krugman grita  ao fiasco  enquanto se pensa e diz que o rei vai nu mas não  totalmente e TINA tem ainda uma bela vida pela frente.  Este não é o primeiro erro de cálculo, feito pelos investigadores, mesmo se estes são de Harvard, e este estudo não foi a única leitura de mesa de  cabeceira da Chanceler alemã. Mas o eco encontrado por esta reviravolta  é ainda maior quando a esta situação se acrescenta a nova posição tomada pelo Fundo Monetário Internacional: o FMI  pediu a 16 de Abril, à  Grã-Bretanha e aos Estados Unidos  uma “maior flexibilidade” nas suas políticas de austeridade e pediu  a Alemanha para que  “faça  mais para estimular o investimento”, a fim de relançar a actividade na  zona  euro através de uma retoma pelo lado da procura .

Por  outras palavras, não só Angela Merkel não é Brezhnev, como também a  zona euro não é o Comecon. As situações e os países diferem. A relação entre crescimento do PIB e a dívida pública não é matematicamente a mesma em todos os lugares, e os programas de austeridade não existem somente no tamanho XXL. A senhora Merkel sabe ela própria que, por vezes, é necessário saber relativizar os números, ou seja é necessário coloca-los em perspectiva: “atenção, as estatísticas podem ser enganadoras!”, acaba ela de explicar aos alemães, indignados por um relatório  do BCE que lhes diz  que os europeus do Sul são, em termos de património, são  mais ricos  do que os europeus do Norte. .

Sylvie Kauffmann

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