Tenho tentado estabelecer a diferença entre a Liberdade, que tem sido o objectivo das grandes movimentações populares contra as tiranias, e as «liberdades», que são a lepra que tem minado o esforço de libertação. «Être libre, ce n’est pas pouvoir faire ce que l’on veut, mais c’est vouloir ce que l’on peut.», escreveu Jean-Paul Sartre em Situations I (Ser-se livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer-se aquilo que se pode). Não falemos do futuro – querer para netos ou bisnetos aquilo que hoje desejamos para nós, não faz sentido. Se um trabalhador do século XIX, vivendo em tugúrios, trabalhando de sol a sol, pudesse ver como vivem hoje os trabalhadores, não compreenderia por que razão reivindicam melhores condições de vida…
Mas a defesa desta Liberdade de alcançar o que é possível, impõe disciplena. Saint-Just disse que a Liberdade é a maior das tiranias. E o seu exemplo é elucidativo: jovem membro da Convenção de 1792, votou pela execução de Luís XVI e foi eleito membro do Comité de Salvação Pública em 1793. No meio daqueles senhores, odiado pelos girondinos e hostilizado pelo seu próprio partido, o dos montanheses – manteve sempre a sua intransigência – a sua utopia era a criar uma democracia de artífices, camponeses, pequenos proprietários, de gente fiel ao espírito da República. Para ele a Liberdade não era cada um fazer o que lhe apetecesse. A Liberdade era a maior das tiranias, aquela que não permitia licenciosidades. Chamaram-lhe o “arcanjo do Terror”. Em Julho de 1794 foi guilhotinado. A defesa intransigente dos princípios não compensa.
Democracia e Liberdade – segundo Rousseau (tenho-o repetido) uma governação democrática só está ao alcance de um povo de deuses «Um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos». Tal como os operários do século XIX poderiam achar maravilhosas as casas dos pobres da actualidade, as conquistas da Ciência e da Tecnologia colocam-nos, em comparação com a época em que Rousseau escreveu estas palavras, ao nível dos deuses. Eduardo Galeano disse “A diversidade tecnológica quer significar diversidade democrática. A tecnologia põe a imagem, a palavra e a música ao alcance de todos, como nunca antes ocorrera na história humana, mas essa maravilha pode transformar-se num logro para incautos se o monopólio privado acabar por impor a ditadura da imagem única, da palavra única e da música única». O pensamento único, acrescentamos. A Ciência e a Tecnologia que nos permitiriam ser mais livres, são transformados em novos factores de escravização.