REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

AS CASCAS DE BANANA EM PUTREFACÇÃO: DE ROGOFF AO ECONOMISTA CAVACO SILVA

Por Júlio Marques Mota

III

(CONTINUAÇÃO)

Exclusões selectivas

R&R utilizaram os anos de 1946-2009 como o seu período de trabalho no que se refere às economias mais desenvolvidas em que a principal diferença entre os países era o ano de partida. No seu conjunto de dados, há 110 anos de dados disponíveis para países que têm uma dívida/PIB de mais de 90%, mas eles só utilizaram 96 daqueles anos. No seu estudo não se diz quais são os anos que são excluídos nem qual a razão da sua exclusão, o que mais uma vez não deixa de ser curioso. Vejamos um excerto da tabela que serviu de base ao trabalho de Kenneth Rogoff e de HAP. Por exemplo, para o caso dos Estados Unidos e Reino Unido, em que por exemplo os Estados Unidos registaram 39 observações-ano em que estiveram com um rácio da dívida pública/PIB de 30% a 60%, 6 observações-ano com o mesmo rácio entre 60% e 90% e assim sucessivamente:

rogoff - I

HAP também verificaram que R&R excluíram a Austrália (1946-1950), a Nova Zelândia (1946-1949) e o Canadá (1946-1950). Isso tem consequências, uma vez que estes países têm um rácio elevado de dívida pública/PIB e ao mesmo tempo têm elevada taxa de crescimento. O Canadá tinha um rácio da dívida/PIB de mais de 90% durante este período e 3% de taxa de crescimento. A Nova Zelândia tinha uma dívida pública/PIB de mais de 90% de 1946 a 1951 e se calcularmos a taxa de crescimento médio em todos esses anos esta foi de 2,58%. Se nos cálculos utilizarmos somente o último ano, como fizeram R&R, a taxa de crescimento é de (-7,6%). Há pois aqui uma grande diferença, especialmente quando se considera a forma como eles ponderaram os países, como iremos ver de seguida.

Podemos avançar um pouco mais na análise e construir subconjuntos de observações por períodos de tempo também eles uma partição do período global, de 1950 a 2009. Evita-se assim achar taxas de crescimento médio entre períodos de tempo por país e por situação muito distantes no tempo.

Os diferentes resultados alcançados com a segmentação por subperíodos por HAP

Podemos explorar ainda mais a especificidade histórica dos resultados, examinando o crescimento médio do PIB real por categoria de dívida pública e por períodos que são subconjuntos das informações globalmente recolhidas. A tabela abaixo apresenta os resultados para os períodos de 1950-2009, 1960-2009, 1970-2009, 1980-2009 e 1990-2009 e, por fim, o período de 2000-2009.

Vemos que o elevado crescimento do PIB na categoria do intervalo mais baixo para o rácio da dívida pública/PIB degrada-se relativamente mais nos subperíodos mais recentes. Assim, no intervalo mais baixo do rácio da dívida pública/PIB, de 0% a 30%, o crescimento do PIB passa de 4,1% no período 1950-2009 para apenas 2,5% no período 1980-2009. O crescimento nas duas categorias da dívida pública/PIB médias também desacelera claramente com a média a cair em mais de um ponto percentual nos períodos limitados aos anos mais recentes. Em contrapartida, o crescimento médio na categoria mais alta do rácio da dívida/PIB é bastante estável em todos os subconjuntos dos períodos considerados, permanecendo dentro de 0,3 ponto percentual para uma taxa média de 2% ao ano durante todo o período global considerado, ou seja, de 1950 a 2009. Nos últimos anos, o crescimento real do PIB na categoria mais alta da dívida pública relativamente ao PIB, ou seja, acima de 90% de dívida pública/PIB, foi superior ao obtido para o mesmo período e para o rácio imediatamente inferior, pois temos 1,7% na categoria mais alta contra 1,3% na imediatamente anterior.

Estes comportamentos sugerem duas conclusões importantes: (1) mesmo a aparente não-linearidade entre os valores obtidos com o mais baixo e o mais alto intervalo do rácio dívida pública/PIB é um resultado historicamente específico e não um resultado solidamente alcançado ao longo de todo o período de tempo considerado; (2) a relação entre os rácios da dívida pública/PIB e a taxa de crescimento é mais fraca nos anos mais recentes do que nos primeiros anos da análise.

Uma estranha ponderação

R&R dividiam as observações de cada país de acordo com o intervalo do rácio da dívida pública/PIB (0% a 30%, 30% a 60%, 60 a 90% e mais de 90%) e para cada um destes intervalos agrupavam as observações de todos os países que caíam nesta categoria. Por cada uma destas categorias, achavam o crescimento médio real de cada país, independentemente do número de observações de cada um. Assim, a taxa de crescimento médio real da Inglaterra dos 19 anos em que este país esteve acima dos 90% da dívida pública/PIB a entrar na ponderação é pois a média destes 19 anos. A seguir, para o cálculo da média do conjunto dos países que estão no grupo de rácios da dívida/PIB acima de 90%, consideraram um grupo constituído por 10 países com datas completamente diferentes, historicamente nada tendo haver economicamente umas com as outras. Neste caso, a média inglesa entra no cálculo da média do grupo com o peso 1/10 pois o que conta aqui e de igual modo é o número de países e não o número de observações. Para se ver melhor o valor da metodologia utilizada e nunca justificada por R&R será então melhor pegar numa tabela reduzida de HAP, onde a coluna “Correct” no quadro abaixo significa as contagens que de modo correcto deveriam ser consideradas para cada país, a coluna seguinte, a da “RR Exclusion” significa a contagem feita por R&R com a exclusão de alguns anos para a Austrália, Canadá e Nova Zelândia, exclusão nunca justificada, e a coluna seguinte representa os países que a própria folha de cálculo excluía.

rogoff - II

Exemplo: numa contagem efectiva de 110 observações, R&R trabalharam apenas com 75 observações e 10 países. Destas 96 ficaram com as exclusões das duas colunas apenas 75 observações e estão distribuídas por sete países, pois a Austrália, a Bélgica e o Canadá, têm o valor zero, porque por um erro de programação foram países excluídos pela folha de cálculo Excel. Teremos então sete países efectivos e 75 observações, 75 países-anos em que se verificou dívidas acima dos 90% do PIB. A Inglaterra esteve 19 anos com um rácio da dívida pública/PIB acima dos 90% e para esses anos a sua taxa média de crescimento foi de 2,4% e o valor com que esta taxa entra na média do grupo, ou seja, o seu ponderador para achar a taxa de crescimento médio do grupo, é então de 2,4 vezes o seu peso, isto é, 1/7 pois vale um sétimo dos países e isto independentemente do número de observações. Uma observação de um país vale tanto como 19 observações de um outro país! Ainda quanto à ponderação, vejamos a grande diferença entre R&R e HAP. Nestes últimos, contam-se também as observações que R&R excluíam e estas eram mesmo significativas até pelos valores verificados, de altas taxas de endividamento e de crescimento. Estas eram pois as observações dos primeiros anos para a Nova Zelândia, os anos de 1946-1949, para a Austrália, os anos de 1946-1950, e para o Canadá, os anos 1946-1950, não sendo necessário preocuparmo-nos com a coluna “RR Spreadsheet” que difere da coluna anterior pela redução maior relativamente a esta última. Temos pois como total os 75 de R&R mais as suas omissões: 5 observações para a Austrália, 5 para o Canadá e 4 para a Nova Zelândia. Na ponderação feita por HAP a Inglaterra entra agora não com o peso de 1/7 no cálculo da média do grupo mas sim com o peso 19/110 = 17,3%. Um outro exemplo: a Nova Zelândia esteve neste grupo cinco vezes, em 1946-1949 e em 1951 e com a taxa média de crescimento de 2,6% a multiplicar pelo seu ponderador que é de 5/110 = 4,5%, contra o ponderador 14,3% calculado por R&R, como se mostra na tabela. A Irlanda tem sete observações neste intervalo e o seu ponderador é então de 7/110 = 6,4% e entra na média geral com o valor de 6,4% vezes a sua taxa média de crescimento destes anos que foi de 2,4%.

Veja-se com mais detalhe a situação da Inglaterra e da Nova Zelândia nos trabalhos de R&R. O Reino Unido tem 19 anos observados na situação de rácio dívida pública/PIB acima dos 90% (1946-1964), com uma taxa média de crescimento média de 2,4%. A Nova Zelândia tem apenas um ano neste conjunto, ou seja, com o rácio acima dos 90% da dívida em relação ao PIB, com uma taxa de (-7,6%) crescimento, e um ano apenas devido à tal exclusão não explicada de que se falou antes. A estes dois números, 2,4% e (-7,6%), é dado o mesmo peso para o cálculo final, visto que os países contam de modo igual para a média. Embora existam 19 situações no gráfico de dispersão do Reino Unido e uma só para a Nova Zelândia, o peso em que entram é de 1/7 para cada um deles.

A ideia a reter é que R&R não discutem esta metodologia nem o facto de terem ponderado desta maneira nem a justificação para esta mesma ponderação. Vejamos agora alguns quadros do trabalho de HAP.

Interessa-nos apenas os anos de 1945-2009 para as economias desenvolvidas. As médias encontradas estão assinaladas nas caixas a cor de salmão. Nos seus trabalhos R&R tinham concluído que os períodos de dívida relativamente ao PIB acima dos 90% correspondiam, em média, a situações de recessão.

rogoff - IIIComo já se disse, segundo R&R a dívida pública tem um impacto limitado sobre o crescimento económico quando o rácio dívida pública não ultrapassa os 90% do PIB. No período do pós-guerra, 1946-2009, a queda do crescimento será bem maior quando a dívida está para além deste limite, o famoso ponto de descontinuidade ou de inflecção de R&R, sendo mesmo negativa, vertiginosa, e em média de (-0,1%), como se ilustra no gráfico abaixo.

Contrariamente a R&R os economistas HAP estimam que o crescimento económico dos países com este rácio não é de (-0,1%) mas sim de +2,2%. Contrariamente aos defensores da austeridade em tempo de crise e partindo dos dados de R&R mas com um tratamento sem os colossais erros já explicados, HAP mostram que quando a dívida relativamente ao PIB se situa entre e 90% e 120% do PIB, o crescimento será então de 2,4% e a taxa de crescimento seria ainda de 1,6% quando a dívida ultrapassa os 120% do PIB. Veja-se o gráfico de barras abaixo.

rogoff - IV (continua)

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