MARIA JULIETA GANDRA – UMA MULHER DE CORAGEM por clara castilho

Maria Julieta Gandra nasceu em 1917 e faleceu em 2007. Foram noventa anos cheios de vida, cheios de dádiva, cheios de ensinamento. Mas também de maus bocados, que nunca repudiou e de que muito se orgulhava.

Em Luanda, nos anos 40, atendia no seu consultório médico as senhoras da sociedade colonial. Mas também se deslocava aos bairros pobres e aos musseques para dar apoio a quem precisava.

maria Julieta

Lá se encontrava, em 1958 quando se organizou um comício de campanha para a eleição de Humberto Delgado. Conta-se que Maria Julieta Gandra iniciou o seu discurso às “mães negras”. Acusada de conspirar contra a segurança externa do Estado, bem como de pertencer ao Partido Comunista, foi julgada em Tribunal Militar, em Luanda, em 1959, integrada no chamado “processo dos 50”, o primeiro julgamento do colonialismo português, e condenada a 12 meses de prisão, pena que foi agravada para 2 anos de prisão maior e medidas de segurança de 6 meses a 3 anos, sendo de novo agravada para 4 anos após recurso pelo tribunal de Lisboa. Este assunto é abordado no livro “Angola: Processos Políticos da Luta pela Independência”, de  Maria do Carmo Medina, da Almedina,  2011.

Foi considerada a prisioneira do ano pela Amnistia Internacional em 1964. Em Julho de 1965 conseguiu sair em liberdade da cadeia de Caxias, com a saúde muito debilitada. Montou consultório na Rua Manuel da Maia, onde continuou o seu percurso de médica ginecológica, dando apoio a quem podia pagar e a quem não podia.

M-Julieta

M.Julieta Gandra e M.Cecília Correia

Após a Revolução de 25 de Abril e a independência de Angola, aí voltou, no início de 1975,  na companhia de sua companheira de prisão e de vida, Fernanda Tomás,  com o fim de ajudar a estabelecer as bases do Serviço Nacional de Saúde. Regressou a Portugal em 1978 por razões de saúde, com algumas deslocações posteriores a Londres para exames médicos.  Em 8 de Outubro de 2007, faleceu com 90 anos, depois viver uns anos numa residência de idosos.

Diana Adringa “(Caminhos da Memória”) conta um episódio que nos aponta características da Maria Julieta. “ Data dessa altura – em que a vigilância da PIDE se intensificou a tal ponto que os agentes já não se contentavam em acompanhar as nossas actividades a partir do café das traseiras (informação que nos foi dada, com solidariedade anti-fascista, por alguém que eu nem conhecia), nem sequer em vigiar a porta do prédio, mas se colocavam ao lado dela e, por vezes, nas varandas comuns – um dos episódios que melhor retrata a força, a coragem e o sentido de humor da Julieta. Vinha a entrar no prédio, bastante carregada. Ao lado da porta, um agente da PIDE. Virando-se para ele, disse-lhe: «Em vez de estar aí parado, ajude-me a levar os embrulhos!» E o pide, surpreendido, obedeceu. Pouco depois, batia a Julieta à nossa porta, toda sorridente, a contar-nos o que acontecera. Acho que foi a melhor forma que encontrou de nos incutir coragem.”

Pensar na Maria Julieta é ouvir o som das suas gargalhadas. É lembrar a sua sensibilidade no trato com adolescentes e suas famílias. É lembrar o último almoço na Arrábida em que nos regalámos com uma bela e suculenta melancia. Depois de ser amiga de meus pais em Luanda, frequentava nossa casa em Lisboa quando se estabeleceu em 1965. Era boa conviva, lançando temas de discussão sempre interessantes. A sua história pessoal não era escondida mas também não era falada abertamente. Depois de meus pais falecerem confesso que a deixei de procurar. Como quase se não falou da sua morte, só mais tarde dela tive conhecimento. Foi ao consultar o site “Caminhos da Memória” que aterrei e vi quantos anos tinham passado… Estar aqui a falar dela é um pouco tentar reparar esta culpabilidade. Maria Julieta cuja voz ainda hoje gostaria de ouvir a tratar-me por “menina”.

3 Comments

  1. Conheci a Julieta Gandra nas visitas que fazia a Caxias a uma familiar e depois estive com ela e filhos no Luso. Julgo que tinha família naquela Vila!Tudo isto foi há muitos anos., 1961?

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