TAÇA DE CICUTA – por Fernando Correia da Silva

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Faltam 399 anos para o nascimento de Cristo. Num cárcere de Atenas um velho de 70 anos, Sócrates, aceita das mãos do carrasco uma taça de cicuta. Está condenado pelo Tribunal da Cidade a beber o veneno até ao fim, pena capital. Sócrates pergunta se pode fazer uma libação aos deuses. O carrasco responde-lhe que a dose de cicuta é exatamente a necessária para lhe roubar a vida.

– Percebo (diz Sócrates, levantando a taça). Mas ser-me-á certamente permitido, é meu dever, dirigir uma oração aos deuses pelo bom êxito desta mudança de residência, deste mundo para o Além. É esta a minha prece. Assim seja !

Sem sobressaltos, bebe a taça até ao fim. Os discípulos e amigos que o acompanham nos seus últimos momentos, caiem então em prantos. E entre eles estão Críton e Lísias. Sócrates adverte-os:

– Mandei as mulheres embora justamente para evitar cenas destas. Ensinaram-me que devemos enfrentar a morte com palavras de bom augúrio. Acalmai-vos pois. Vamos, dominai-vos !

Sente um leve torpor nas pernas e resolve dar uns passos de uma parede à outra do cárcere. Enquanto assim passeia, tudo recorda num só instante, relâmpagos da memória enquanto cai.

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