Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
François Hollande “está até a afastar-se do projecto socialista “
Le Monde, Junho de 2013
Entrevista a Jean-Vincent Placé, Presidente do Grupo Ecologia-Verdes
O senador EELV Jean-Vincent Placé fala ao Le Monde. No dia 18 de Junho. Antonin Sabot / Le Monde.fr
Num chat no Le Monde, Jean- Vincent Placé, Presidente do Grupo Europa Ecologie – Verdes ( EELV), fala de uma série de compromissos não respeitados por François Hollande e considera ser da responsabilidade do governo as sucessivas derrotas eleitorais.
Valerie: É o PS um parceiro de confiança para EELV, particularmente sobre o acordo PS – Europe Ecologie – verdes (EELV) para 2012-2017?
Jean-Vincent Placé: o acordo programático que nós tínhamos assinado com o PS de Martine Aubry era um excelente acordo sobre as questões de fundo, tanto sobre a conversão ecológica da indústria como sobre a transição energética como sobre a tributação ambiental, e, assim como, como em muitos outros tópicos.
François Hollande desejou afastar-se deste acordo durante a sua campanha. Hoje, ele afasta-se mesmo, ao que parece, até do projecto socialista. E o nosso objectivo no próximo ano, apoiando-nos não somente na opinião mas também sobre as forças sindicais, associativas e de cidadania, é o de procurar alargar na maioria parlamentar a base política para uma verdadeira alternativa face à actual política do governo na maioria parlamentar.
Cécile: Quais são os pontos em que François Hollande não manteve a sua palavra ?
A base de tudo isto é a ratificação sem negociação do TSCG [Tratado de estabilidade, convergência e governança na Europa], o que não nos permitiu iniciar uma dinâmica voluntarista no sentido da construção europeia e nós temos, pelo contrário, estado a ser afundados numa política de austeridade e de rigor desde Maio 2012.
O segundo erro é o estabelecimento do programa CICE [crédito de imposto de competitividade emprego]: 20 mil milhões de euros para as empresas, sem estabelecimento de verdadeiros critérios, sem prioridades estabelecidas, financiadas quer pelo IVA, que nós tínhamos indicado que não queríamos que aumentasse, quer por uma redução drástica nas despesas públicas.
Finalmente, com o ANI [acordo nacional interprofissional] retomando uma ampla filosofia dos acordos de competitividade emprego do Presidente cessante, nós encontrar-nos-emos com um arsenal económico e social europeu, fortemente influenciado pelo neoliberalismo também dito social liberalismo.
Acrescentado a fraqueza da política ecologista da França, estamos bem longe do discurso de campanha sobre a excelência ambiental da França. Nos compreendemos o mal-estar absoluto daqueles que até votaram François Hollande logo na primeira volta, em Maio de 2012.
Barrenechea: Acha que Europe Ecologie – Les Verts ainda não compreendeu o que significa o sentido das palavras?
Pelo contrário. Pensamos que os nossos Ministros e os nossos grupos parlamentares são particularmente solidários. A solidariedade não quer dizer nem subserviência nem cegueira e, parece-me, que nós fazemos mais serviço a François Holland ao pedir-lhe para mudar de rumo no plano económico, social e ambiental do que estar a apoiá-lo alegremente sem reservas.
Alex: Será que Aeroporto de Notre-Dame-des-Landes, que crispa as relações entre o PS e EELV e que deverá ser aprovado pelo governo, pode desencadear uma ruptura na maioria?
O aeroporto de Notre-Dame-des-Landes cristaliza muitas coisas hoje, especialmente uma forte insatisfação dos ambientalistas contra a fraqueza das políticas de luta contra as mudanças climáticas, contra a escassez de recursos naturais, pela biodiversidade e pela artificialização dos solos.
No entanto, este Aeroporto fazia parte das divergências registadas aquando das nossas negociações programáticas com o EPR de Flamanville. Seria paradoxal fazer do desacordo constatado já a montante a causa da ruptura com a maioria.
Visitante do chat: Ouvimos regularmente os altos quadros de EELV dizer ao PS: “cuidado em não ultrapassar a linha de vermelha, caso contrário, saímos da maioria.” Mas a distância a que se está desta linha parece estar a diminuir cada vez mais ..
Não, pelo contrário. Nós temos uma posição muito clara: apoiar o governo, liberdade de expressão e de voto, várias propostas que retomam o acordo programático de 2011. Pela minha parte, eu indiquei a linha vermelha do gás de xisto sobre a posição do François Hollande tal como foi enunciada s na conferência ambiental de Setembro de 2012.
Acontece o mesmo com o tema da tributação ambiental, prometida pelo primeiro-ministro no orçamento de 2014. Nós somos os fiadores deste acordo exigente, e apraz-me ouvir um grande número de deputados socialistas a lembrar este acordo, a reivindicá-lo e mais, a desejar vê-lo aplicado. Penso que, para além da esquerda do Partido Socialista, os nossos amigos de Laurence Rossignol e da Gauche Durable .
“-Haverá UMA MAIORIA SEM O PARTIDO SOCIALISTA?”
Titouan : Fala-se de “alargar na maioria parlamentar a base política para uma verdadeira alternativa à política do governo.” Quais são as forças políticas que poderiam apoiar esta alternativa? Uma aliança com a Frente de esquerda e a esquerda do PS, parece-lhe possível?
Jean-Vincent Placé: Não há nenhuma maioria sem o Partido Socialista e claro, sem François Hollande. Não há nenhum desejo de mudar de alianças, o que teria nenhum sentido democrático. O que precisamos fazer para influenciar nas escolha do Presidente da República nesta quinta República, que tem, contudo, quase todos os poderes, é continuar o trabalho de persuasão e de convicção na opinião e nas urnas .
Jules: porque é que não apresentaram um candidato de união em Villeneuve-sur.Lot? Não terá EELV uma parte de responsabilidade na eliminação à primeira volta do candidato PS?
Em Junho passado já tivemos um candidato que tinha obtido a mesma pontuação. A diferença hoje é que o candidato socialista na época, Jérôme Cahuzac, teve mais 23 pontos. Não é com respostas tácticas que o Partido Socialista terá sucesso em esconder o cruel repúdio dos eleitores em matéria da política governamental que tem sido feita.
Lyne: No que é que EELV marca a política do governo ?Não são os Verdes invisiveis neste governo ?
Nós temos dois excelentes ministros, Cécile Duflot et Pascal Canfin.. Eles são reconhecidos pelas suas competências e pela sua seriedade. A sua acção, tanto em matéria de igualdade dos territórios, do alojamento como do Desenvolvimento Internacional, é reconhecida por todos os observadores políticos. No entanto, é inegável que nós pesamos pouco sobre a política global económica, social e ecológica deste governo. Daí que as nossas tomadas de posição com os outros – eu penso em Claude Bartolone e ou Benoît Hamon – sejam feitas para mudar a direcção e a estratégia do governo.
XXX: A política habitacional não é ela anémica ?
Esta é uma pergunta simpática e bem dirigida … Acho que num período difícil de recessão económica, há um novo voluntarismo de Estado graças à acção de Cécile Duflot. Eu penso então na disponibilização de terrenos do Estado, a meta de 25% de habitação social, na ideia da requisição dos espaços não utilizados ou ainda nas novas normas de urbanismo a favorecerem a densidade e a construção.
“Eu não desejo estar neste governo”
Damien: Não é a situação de crise económica sem precedentes da França que que leva François Hollande a pôr de lado as suas ambições / promessas em matéria de ecologia?
Ecologia não é um problema para o desenvolvimento económico. Pelo contrário, é uma solução. Tanto em matéria de energia renovável, de renovação térmica dos edifícios, da agricultura biológica como dos investimento em infra-estrutura de transporte público, uma nova forma de desenvolvimento económico sustentável é possível.
Ao mesmo tempo que respeita tanto o ambiente é criador de emprego. É esta estratégia económica e ecológica a que eu apelo que se realize em detrimento da política liberal da oferta que se tem realizado desde há um ano.
Eric : Em que condições aceitaria parte deste Governo ?
Teria que haver uma mudança forte no plano da economia e da ecologia. Hoje, claramente relativamente à política realizada eu não desejo estar neste governo.
Jeanne: O senhor é senador, e face às recentes eleições, a esquerda tem a chance de manter o Senado daqui a 14 meses? Não tem o senhor medo de uma arrancada de FN durante as eleições municipais?
O Senado é um belo laboratório de ideias para a esquerda. É aliás talvez o único lugar onde reina a harmonia com os nossos amigos socialistas. Refiro-me, em particular, a Jean-Pierre Bel e François Rebsamen. Creio que a nossa unidade, a nossa liberdade de palavra e de expressão que prevalece no Senado, deverão permitir a que a esquerda se mantenha no Senado em setembro de 2014.
Chat modéré par Eric Nunès


