SER POETA – 7 – por Álvaro José Ferreira

Cântico Negro

Poema de José Régio (in “Poemas de Deus e do Diabo”, Coimbra, 1925; “Antologia Poética”, org. Eugénio Lisboa, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993 – págs. 18-19)

Recitado por João Villaret (in LP “João Villaret no São Luís”, Parlophone, 1959; reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)

«Vem por aqui» — dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: «vem por aqui»! Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali…

A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde, Por que me repetis: «vem por aqui»? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?… Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátrias, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: «vem por aqui»! A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou… Não sei por onde vou, Não sei para onde vou, — Sei que não vou por aí!

Nota: Embora com alguns ligeiros desvios ao texto de José Régio, este registo de João Villaret é um primoroso testemunho da inigualável arte de recitar do grande actor e, nessa medida, seria injusto preteri-lo a favor de outra leitura sem a mesma intensidade expressiva ainda que mais fiel às palavras exactas do autor.

A Alma dos Poetas

Poema: Florbela Espanca (poema “Poetas”, caderno “Trocando Olhares”, in “Obras Completas de Florbela Espanca”, vol. I, recolha, leitura e notas por Rui Guedes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987 – pág. 88; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000 – pág. 94)

Música: Adão Carvalho

Intérprete: Chamaste-m’ó?* (in CD “A Inocência da Noite”, Açor/Emiliano Toste, 2002)

[instrumental]

Ai as almas dos poetas

Não as entende ninguém;

São almas de violetas

Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,

Como as estrelas no mar;

Sentem o vento gemer

Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala ao peito

Dores amargas e secretas

É que em noites de luar

Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras

Que nunca entendeu ninguém

Tenho alma p’ra sentir

A dos poetas também!

08-01-1916

1 Comment

  1. A interpretação de Villaret é genial (tal como a da “Balada de Portalegre”, do mesmo Régio), mas a(s) de Maria Bethânia, na minha opinião claro, também: e creio que respeitam as palavras do autor.
    A questão que sempre pus, em relação a algumas destas “intensas” interpretações de Villaret, é que – sem pôr em causa a enorme qualidade do resultado final das suas opções – nelas, por vezes, se perde a intensidade intrínseca das palavras (que o poeta aproxima e confronta para obter um conteúdo e um significado outros) que é, de certo modo, atropelada pela “dramatização” do texto.
    Villaret teve o inegável mérito de levar a poesia a um público bem mais vasto, mas nem sempre o mesmo terá sucedido com o “texto poético”, eventualmente indissociável, para uma boa parte desse público, da sua declamação pelo grande actor, em desfavor de uma interpretação mais rigorosa e enriquecedora dos conteúdos do poema.
    Tudo indica que o próprio Villaret tinha noção disso, de tal se encontrando evidentes indícios nos seus programas televisivos e em algumas gravações privadas a que pude ter acesso e onde a sua abordagem dos poemas é diversa. Isto é, as opções de Villaret radicar-se-iam na necessidade de encontrar um registo que seduzisse o público e, também, no objectivo de, partindo do texto como matéria-prima, transformá-lo num objecto artístico diferente, cujo valor residia em si mesmo, sendo já outra coisa, que não a pura comunicação da obra escrita.
    A um leitor de poesia com uma aproximação ao texto mais exigente, como é o meu caso, nem sempre as declamações de Villaret surgem como as mais interessantes, mesmo quando, como no caso dos bem conhecidos poemas de Régio, o novo objecto artístico, por ele criado, atinge essa dimensão de genialidade que o torna inesquecível, insubstituível e – sobretudo (atenção às tentações, navegantes da palavra dita!) – inimitável: quando leio um destes poemas é de forma bem diversa, de modo a que quem me ouve possa afastar-se do fortíssimo “paradigma villaretiano”… O que não é tarefa fácil, naturalmente: mas está aí uma Bethânia (entre outros raros exemplos) para mostrar que é possível.

Leave a Reply