A CANETA MÁGICA – DO QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DE SOCIAL-DEMOCRACIA

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Há um desfasamento evidente entre as designações de alguns dos partidos portugueses, as suas bases programáticas, a sua retórica e, sobretudo, a sua prática política. Como se cada uma destas coisas tivesse sido feita por pessoas diferentes. Havia um jogo, creio que da Majora, com uns cubos de madeira para as crianças escolherem a cabeça, o tronco e as pernas da figura certa – esses nossos partidos parecem esse jogo feito por uma criança estúpida ou maliciosa – a cabeça de um polícia, o tronco de um crocodilo e as pernas de uma bailarina – ou vice versa.

A propósito do pensamento de Alain Touraine, já aqui me referi à discrepância entre a filosofia política do socialismo e a prática política dos partidos europeus que usurparam esse nome. Falando da social-democracia, eu diria que esta (numa definição sintética) é uma ideologia política de esquerda surgida, como quase todas elas, no século XIX, como eco da grande revolução de 1789 e na sequência do socialismo utópico que afirmava o princípio da igualdade, da fraternidade e da liberdade, mas não encontrava o caminho para atingir tais objectivos.

A social-democracia surgiu da necessidade de encontrar uma transição pacífica da feroz sociedade capitalista da época, com crianças de cinco anos e mulheres grávidas a trabalhar nas fábricas, para uma sociedade socialista, igualitária, fraterna e livre. Era gente marxista, mas que lutava por uma evolução pacífica, democrática e sem traumas, para o socialismo. O berlinense Eduard Bernstein (1850 – 1932) foi o grande pensador revisionista do marxismo e talvez o principal teórico da social-democracia.

Façamos uma pausa e reconheçamos que este desiderato corresponde ao melhor do objectivo fundacional do PS. Mário Soares e companhia eram, pois, teoricamente, pelo menos, social-democratas. A praxis social-democrata diverge da marxista por defender o primado da luta política, sobrepondo-a à igualitarização social e à imposição de reformas económicas bruscas e traumáticas. Uma transição gradual do capitalismo para o socialismo, portanto. Tudo seria muito bonito, se o capitalismo não fosse um animal feroz, cioso dos seus interesses, ao ponto de destruir cidades com bombas nucleares para os defender. O reformismo gradual preconizado pela social-democracia, o tal socialismo de rosto humano, é uma coisa bonita como o milagre das rosas, mas impraticável. Porém, o que este partido soit disant social-democrático preconiza nem sequer é isso – defende pura e simplesmente o princípio neo-liberal do cada um que se amanhe, “nasces pobre, mas amanhã podes ser milionário” e por aí fora.

O PSD, diga-se, nada tem a ver com a social-democracia. Os social-democratas, os genuínos, queriam atingir o comunismo sem revolução, através de reformas sucessivas que iriam tornando o capitalismo cada vez menos malévolo. Os social-democratas portugueses não querem nada disso – talvez atingir um welfare state democrático, com um mínimo de perturbações sociais (isto para os mais revolucionários).

O PPD/PSD está na linha sucessória do partido único da fase marcelista da ditadura e, basicamente, os seus objectivos são os mesmos que a ala liberal afirmava. Por isso muito me surpreendeu Mário Soares numa entrevista recente ter afirmado que Francisco Sá-Carneiro era um «verdadeiro social-democrata». É um elogio e uma calúnia, consoante o ângulo em que nos situarmos.

 Ouvir o sumo pontífice da social-democracia portuguesa dizer uma coisa destas é como ouvir o papa Francisco a pregar o budismo. Artimanha de Soares, voltada para os militantes do PSD e chamando alguns à unidade com o PS? Talvez. Apelo às cabeças pensantes de cada partido para que digam de sua justiça – no PSD são poucas, mas existem; no PS são mais, mas também parecem estar silenciadas.

 

1 Comment

  1. Em boa verdade o tal Dr. Mário nunca fez outra coisa mais que tratar dos seus interesses e de satisfazer as suas vaidades.Nunca desiste.Para poder competir com o seu concorrente Cunhal, o “marcelismo” arranjou-lhe um desterro em São Tomé para que um dia – tudo previsto por quem tudo manda no mundo – também, pudesse considerar-se mal tratado pela noite negra. Pergunte-se-lhe por Olav Palm?CLV

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