Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Porque é a relação China-Alemanha tão importante para a Europa?
Le Monde, Financial Times,
Hans Kundnani, director de redacção e Jonas Parello-Plesner, membro eminente do Conselho Europeu das Relações Estrangeiras
Desde há um ano, a questão de se saber se surgiu uma “Europa alemã” a partir da crise Europeia tem sido objecto de muitos debates. Exacta ou não, a ideia de que a Alemanha é agora o país mais poderoso na Europa tem um impacto sobre as relações com os parceiros não-europeus e com a China particularmente.
Nesta paisagem de crise, os analistas e os altos quadros chineses vêem uma Alemanha cada vez mais poderosa, uma França enfraquecida e uma Inglaterra marginalizada. E é assim que eles observam a Alemanha a desempenhar um papel cada vez mais decisivo na União Europeia e sentem que não têm assim nenhuma outra alternativa para abordar a Europa que não seja utilizá-la. Durante uma recente visita a Pequim, um alto funcionário chinês fez-nos esta observação: “Se quer conseguir qualquer coisa de Bruxelas, contacte então Berlim”.
As relações que a Europa irá desenvolver com a China – um dos seus mais importantes parceiros estratégicos – serão, em grande medida, determinadas pelo surgimento desta relação especial entre a China e a Alemanha. Relação que acaba de passar a um estágio superior em Junho passado, quando o primeiro-ministro Wen Jiabao veio em visita oficial a Berlim com treze ministros e realizou nessa cidade um Conselho interministerial – uma grande primeira vez para a China, que assim estabeleceu um mecanismo de negociação de alto nível com um Estado-membro da UE.
As bases desta relação política apoiam-se sobre o aumento das relações comerciais entre a Alemanha e a China – e em particular as exportações da Alemanha para a China – durante esta última década, e estas superaram todas as expectativas. Quase metade das exportações da UE para a China vêm da Alemanha e quase um quarto de todas as importações feitas pela Europa vindas da China são feitas com a Alemanha. Na China, a procura de automóveis para os particulares e as necessidades em máquinas para as fábricas chinesas foram de suma importância na capacidade da Alemanha em sair tão rapidamente da crise económica.
Há actualmente uma espécie de simbiose entre as economias alemã e chinesa; enquanto a China tem necessidades de novas tecnologias, a Alemanha deve encontrar novos mercados. Os chineses têm a sensação de que podem negociar com a Alemanha: as autoridades chinesas gostam de falar dessa relação como sendo uma relação “mutuamente benéfica”. As discussões em curso são agora sobre uma futura cooperação mais estreita em torno de tecnologias ambientalmente amigáveis, como carros eléctricos.
Desde 2008, a China e a Alemanha – dois grandes exportadores com níveis significativos de poupança e excedentes comerciais – encontraram-se do mesmo lado na mesa de discussões sobre a economia global. Na verdade, os analistas chineses observam paralelos entre a liderança alemã ao nível regional e a liderança chinesa a nível global; a crise aumentou as expectativas internacionais para com estes dois países.
De um lado, a grandeza do investimento alemão poderia oferecer à Europa um meio de pressão mais importante para com a China; por outro lado, existe o perigo de que a Alemanha se sirva desta estreita relação bilateral para defender os seus próprios interesses económicos, em vez de defender os interesses estratégicos Europeia.
Os chineses acolheram favoravelmente a abstenção da Alemanha sobre a utilização das forças armadas na Líbia, aquando da votação no Conselho de Segurança das Nações Unidas em Março último. Eles vêem essa posição como o sinal de um ponto de acordo entre a relutância da Alemanha para usar a força militar e o seu próprio princípio da não-intervenção. Eles querem uma Europa pronta para ser um contrapeso importante aos Estados Unidos e podem vislumbrar a Alemanha como uma maneira de o obterem – por outras palavras, uma maneira de dividir o Ocidente (para melhor reinar).
Por agora, as necessidades em tecnologias pela China são tais que elas revelam que a Alemanha tem ainda têm algumas alavancas. No entanto, as autoridades alemãs sabem que a longo prazo elas não terão suficientemente peso para ser capaz de influenciar um grande poder que tem uma população de 1,35 mil milhões. Como o disse um alto-quadro da Administração alemã : “simplesmente, nós somos apenas 80 milhões e somos cada vez menos numerosos”.
Não é só por causa dos seus interesses económicos na China que a Alemanha tem feito mais esforços do que qualquer outro Estado-membro para desenvolver laços mais estreitos para a China. Essa abordagem também é motivada por questões como as trocas comerciais, as alterações climáticas, os direitos do homem, a governança global, o desenvolvimento e a política externa, mas tudo isto até agora resultou em nada. Pode-se facilmente compreender que altos quadros da Administração alemã estejam agora naturalmente frustrados e cépticos sobre a possibilidade de trabalhar com os seus homólogos europeus face à China. É uma situação perigosa para a Alemanha e para a Europa como um todo. A visita da Chanceler Angela Merkel à China este ano – entre a Cimeira Europeia e a Cimeira Sino-Europeia, cimeira durante a qual ela falou em nome da Europa – levou alguns a pensar sobre o facto de que Berlim tem pura e simplesmente substituído Bruxelas por Pequim.
A Alemanha não deve abandonar uma abordagem europeia para com a China. Mas o resto da Europa deve, e com urgência, encontrar formas de apoiar a Alemanha a ser um membro europeu leal nas suas relações com a China – ou então ela corre o risco de não poder continuar a estar no circuito porque a relação bilateral que a Alemanha, mantém com a China substitui ‘a relação estratégica” embrionário da Europa com a China.
O seu relatório “Chine – Allemagne : en quoi l’émergence de cette relation est-elle si importante pour l’Europe ?”, foi publicado em 14 de maio.
Traduit de l’anglais par Delphine Colin
