“AS AVENTURAS DE HUCKLEBERRY FINN” DE MARK TWAIN – por João Machado

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Com as tiradas filosóficas, hedonistas, de Hucklberry Finn e com as teses pragmáticas de Tom Sawyer, pode definir-se toda uma ética e toda uma praxis assertiva. Mark Twain, instalado no seu século XIX definia as linhas de força do american way of life, fazendo-nos rir. João Machado fala-nos hoje de uma obra-prima da literatura universal.

Li este livro numa tradução de Maria João Freire de Andrade. Trata-se da edição comemorativa do centenário da morte do autor (EdiçõesImagem1 Nelson de Matos – Biblioteca Juvenil. 2010). Mark Twain (1835 – 1910) escreveu este livro usando obviamente a sua experiência de vida na zona onde se desenrola a acção.

Na dobra da capa desta edição do Huckleberry Finn vem uma citação a Ernest Hemingway, que diz: “Toda a moderna literatura norte-americana foi iniciada com um livro chamado Huckleberry Finn, escrito por Mark Twain. Não existiu nada antes. E desde aí nunca mais voltou a existir nada de tanta qualidade.”

Exagerada, sem dúvida, esta afirmação de Ernest Hemingway. Antes e depois de Huckleberry Finn, na literatura norte-americana houve obras de enorme valor, que marcaram a literatura mundial. O próprio Hemingway produziu algumas. The Old Man and the Sea…

Discordando de Hemingway até certo grau, temos que reconhecer que Huckleberry Finn é perfeitamente excepcional. Esta obra saiu a público em 1884, e seria como que uma continuação de Tom Sawyer, saído em 1876. Estas aventuras de jovens fazem parte do início da literatura realista norte-americana. Mark Twain marcou assim uma etapa fundamental. Anteriormente já tinha publicado The Gilded Age (1874), uma sátira à vida nos EUA, em colaboração com Charles Dudley Warner.

Huckleberry Finn é a história de um rapazinho pobre, que resolve fugir a um pai alcoólico e violento, e a uma família que ele acha que não o compreende, e vai pelo Mississippi, na companhia de um escravo negro fugido, Jim. Vai-se vendo envolvido em diversas aventuras, inclusive caindo sob a alçada de vigaristas, mas procura sempre manter a sua liberdade e defender o seu grande amigo Jim. Também a partir de certa altura reaparece Tom Sawyer. Acaba tudo em bem, com a reconciliação com a família (após a morte do pai). Para o tempo, foi sem dúvida audacioso descrever a amizade entre Huck e Jim, um menino branco e um negro fugido. E os esforços de Huck e dos seus amigos para safar Jim das perseguições. Entretanto, o original inglês inclui formas de falar dos negros, e não só, que a tradução não nos transmite.

Leiam este livro, se possível no original. Eu só li a tradução.

1 Comment

  1. De facto, espantosa a ousadia em abordar estes temas nesta altura. Mas a aceitação dos leitores também prova que socialmente haveria espaço para estas reflexões e críticas. E como a leitura nos fazia sonhar, sentir inveja por uma certa liberdade de movimentos e olhar para os nossos pais e nossa vida com outros olhos, os do privilegiado…

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