HIROXIMA E VIETNAME: MEMÓRIA POÉTICA E CONSCIÊNCIA ÉTICA* – 1 – por Manuel Simões

Foi há 68 anos, em 6 de Agosto de 1945 que um avião dos Estados Unidos, o “Enola Gay”, lançou uma primeira bomba nuclear sobre a cidade japonesa de Hiroxima; no dia 9 destruiria do mesmo modo outra populosa cidade do Japão, Nagasáqui. Calcula-se que o número de mortos nas duas cidades tenha ultrapassado os 200 mil. Assinalamos as datas com a publicação de um capítulo de um livro do argonauta Manuel Simões – Tempo com Espectador – Ensaios de Literatura Portuguesa, em que o autor nos fala da Nova Realidade, um projecto que, com Júlio Estudante e comigo, desenvolveu. Refere-se particularmente às antologias sobre Hiroxima e sobre o Vietname, nas quais publicámos vibrantes depoimentos de poetas portugueses.  A palavra a Manuel Simões. (CL)

Em meados da década de sessenta, o projecto da colecção “Nova Realidade” nasceu como exigência de dar voz ao pulsar alternativo que se pressentia na intellighenzia portuguesa que, por sua vez, já não se sentia representada pelo discurso literário do neo-realismo, mas sem que a alternância recaísse num pathos utópico, quer dizer, numa literatura de esperança abstracta. Embora fosse um desideratum implícito, sem qualquer manifesto de grupo, o projecto tendia para uma literatura que se devia ler como negação dum cronótopo estático e, por consequência, como movimento impedidor de entropias gnoseológicas, o que envolvia igualmente o imobilismo ideológico. De certo modo o grupo de “Nova Realidade” procurava reformular uma perspectiva crítico-histórica  da obra artística, à semelhança do que acontecia em Itália com Galvano della Volpe – e não obstante não existisse então qualquer ligação a não ser de carácter homológico – , o qual, já no prefácio à primeira edição de Critica del gusto, se propunha proceder à reparação da “negligência” do “lado formal” da “origem” das “representações ideológicas”. O estudioso não nega que a sua proposta de análise contempla o aspecto semântico (linguístico) da poesia e da arte em geral mas sem esquecer a “álgebra” linguística e o desenvolvimento crescente da teoria linguística, que utilizou prevalentemente (e na sua substância) para assegurar as bases semânticas do produto artístico em termos de Semiótica estética geral[1].

É claro que precedentemente ao aparecimento de “NR” (1966), houve nessa década sinais significativos de investigação em torno do discurso, como os anunciados pelo grupo de Poesia 61, cujos grandes animadores (Fiama Hasse Pais Brandão e Gastão Cruz) aparecem entre os organizadores de uma importante publicação como a Antologia de Poesia Universitária (1964), surgida no âmbito das Reuniões Inter-Culturais das Associações de Estudantes de Lisboa e que permitiu, no dizer dos subscritores da “nota prévia”, “um contacto relativamente extenso com algumas das vias mais representativas da nova poesia portuguesa”[2]. Segundo os mesmos organizadores, a antologia revela ainda “uma nítida predominância de concepções realistas de poesia”[3] e obedeceu a um critério selectivo que teve em conta somente a qualidade dos poemas sem considerar a respectiva orientação estética ou ideológica. E são peremptórios: a Antologia”é uma panorâmica, não um manifesto”[4], até porque não obedece ao novo cânone que considera a palavra como entidade “autónoma, produtora da realidade e não núcleo dela” (Gastão Cruz), ou às novas propostas em que a linguagem deixa de ser o reflexo de uma consciência que a precede mas sim a matéria primordial (Eduardo Prado Coelho). Basta pensar, por exemplo, no magnífico poema de Fiama Hasse Pais Brandão, “Barcas Novas” (depois incluído no seu livro com o mesmo título, Lisboa, Ulisseia, 1967), glosa de uma famosa cantiga d’amor do poeta medieval Joham Zorro, onde a poetisa, partindo da estrutura paralelística do texto de partida, ensaia com sucesso um novo discurso sem perder de vista a conotação ideológica: “Barcas novas são mandadas/ sobre o mar com suas armas// Não lavram terra com elas/ os homens que levam guerra/(…) Em Lisboa sobre o mar/ armas novas são mandadas” (p.72). “Barcas Novas” é um dos primeiros textos poéticos de denúncia da guerra colonial. E o próprio Gastão Cruz, que adere por inteiro à teorização de António Ramos Rosa (Poesia Liberdade Livre, de 1962) propugnadora da “aventura da pureza poética” ou do que no poema funciona como “especificamente poético”, publica na Antologia o poema “Não cantas ceifeira”, construção a partir de um segmento textual do romance Rumor Branco, de Almeida Faria, em que a linguagem procura organizar, em termos de criação poética, a matéria elaborada pela “consciência” a que atrás se aludiu: “Não cantas ceifeira/(…) roubaram-te o trigo/ que tinhas ceifado/ tu quem roubarás/ alentejo é doutros/ quem o gritará” (p. 90).

Tentando superar esta dicotomia, “Nova Realidade” propôs-se fazer interagir, desde o início – a primeira recolha das canções de José Afonso, o que significava o reconhecimento da autonomia poética dos textos – a consciência ética com a exigência estética. E é neste sentido que emerge o projecto da antologia de poemas Hiroxima, “depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 20°. aniversário da destruição de Hiroxima e de Nagasáqui” (Tomar, 1967), com coordenação e prefácio de Carlos Loures e Manuel Simões. Globalmente, a colectânea revela a poesia de uma memória preenchida e humilhada por imagens de inaudito espanto; que tenta salvaguardar das cinzas atómicas o protesto contra o horror, o massacre, o genocídio a que o mundo assistira impotente; e que com a arma da palavra assume a memória da humanidade que perplexamente se interroga: “Porque fez tanto escuro, em Hiroxima, no dia 6 de Agosto de 1945? Porquê?”.

Diz-se no “Prefácio” à antologia: “Numa altura (…) em que as hiroximas se estendem da África à Ásia (…) o nosso silêncio responsabilizar-nos-ia perante o julgamento futuro das épocas de crise e sua explicação histórica”[5]. E convém referir ainda, como também se sublinha no mesmo texto, que os poetas incluídos “transcendem a posição de passivos antologiados; muito ao contrário, pela sua aquiescência a figurarem na presente antologia, eles interferem e depõem activamente neste julgamento implacável”[6]. E que o critério de coordenação se baseou no valor global da palavra enquanto signo linguístico, subscrevendo a posição de Jorge Semprun quando este defende que a investigação diz respeito, antes de mais, aos aspectos formais: “O conteúdo, em si, não é objecto de investigação: é-nos imposto – ou pelo mundo, ou pelas nossas ideias, nossas obsessões pessoais a propósito do mundo”[7].


               *Publicado anteriormente in Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani,  Pisa-Roma, Istituti Editoriali e Poligrafici Internazionali, III – 2001, pp.87-91.

[1] Cf. G. Della Volpe, Critica del gusto, terza ed. riveduta e accresciuta, Milano, Feltrinelli, 1972 (1ª. ed.1960), pp. IX-XI. E ainda o estudo fundamental de Ignazio Ambrogio, Ideologie e terniche letterarie, 2ª. ed., Roma, Ed. Riuniti, 1974, pp. 183-208.

            [2] Da “Nota Prévia’ a Antologia de Poesia Universitária, Lisboa, Portugália, 1964, p. 9. Por nova os coordenadores.entendiam a poesia.produzida depois de 1953, ano em que terminou a publicação da revista Árvore, marco significativo da poesia portuguesa contemporânea (Cf. IbIdem, p. 9)

            [3] Ibidem, p. 10.

            [4] Ibidem, p .11.

                [5] Hiroxima, antologia de poemas, Tomar, Nova Realidade, 1967, pp. 15-16.

                [6] Ibidem, p. 17.

                [7] Ibidem, p. 16.

(Continua)

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