ONTEM E AMANHÃ – por Fernando Correia da Silva

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Ao morrer, D. Duarte deixou um filho com 6 anos, D. Afonso V, futuro monarca, garoto irrequieto. O Infante D. Pedro, tio paterno, é o primeiro a prestar vassalagem ao garoto. No testamento D. Duarte também indica a sua esposa, D. Leonor de Aragão, para regente durante a menoridade de D. Afonso V. Mas a burguesia adivinha que os interesses da nobreza já controlam a rainha. Reage e eis os burgueses e o povo de quase todas as cidades e vilas do Reino a clamar que o testamento do falecido monarca não tem valor, pois as Cortes é que devem indicar o regente. Um nome vem à baila: Infante D. Pedro. Os nobres, liderados pelo conde de Barcelos, opõem-se à sugestão, resmungam: senhor é senhor, servo é servo, e acabou-se…

 Agitação popular fomentada pelo Infante D. João (irmão de D. Duarte) e nas Cortes de 1439 votação maciça no Infante D. Pedro para tutor do príncipe herdeiro e também para regente de Portugal. Extremam-se posições e paira a ameaça de guerra civil. A rainha segue para Almeirim e daqui para o castelo do Crato, no Alentejo, perto da fronteira, onde fica à espera da prometida intervenção castelhana a seu favor, a qual acabará por não se concretizar. Assustada, D. Leonor fugirá para Espanha.

 Ao tomar posse como regente de Portugal e tutor do príncipe herdeiro, o Infante D. Pedro declara não ter intenção de prejudicar os privilégios da nobreza e do clero. Tenta assim firmar a paz entre as facções adversas. Chegará mesmo a doar o ducado de Bragança ao conde de Barcelos. Tentativa de conciliação que não resulta; antes pelo contrário, irá acirrar o conflito.

 Em contrapartida o Infante suspende o direito de aposentadoria, que é a obrigação que os povos têm de dar pousada gratuita aos séquitos dos nobres em jornada pelo Reino. Em alternativa, mandará construir uma rede de estalagens, nas quais a pousada será paga por quem a utilizar.

 O Infante afirma-se como homem de Estado, isento, que não cede a pressões deste ou daquele grupo, pois apenas lhe interessa o bem comum. Discurso que tenta disfarçar a sua vacilação entre o ontem que perdura e o amanhã que tarda…   

Planeia devolver aos mouros a praça de Ceuta para livrar do cativeiro o seu irmão Infante D. Fernando, aprisionado durante a falhada tentativa da conquista de Tânger. Mas os conselhos das cidades de Lisboa, Porto e Lagos opõem-se à medida e D. Pedro tem que renunciar a ela. D. Fernando, o já chamado Infante Santo, irá morrer em 1443 num calabouço da cidade de Fez. D. Pedro verifica que uma coisa é opinar sobre o exercício do poder, outra é exercê-lo realmente.

1 Comment

  1. Que beleza! Fernando Correia da Silva é uma fonte inesgotável de preciosas informações históricas..que enriquece com seu invejável domínio da língua portuguesa.
    abraço da
    Rachel Gutiérrez

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