AO REDOR DO LAROUCO – 6 – por Rui Rosado Vieira

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O MENINO E OS ANCIÃOS

Os habitantes do povoado encontravam-se isolados do mundo. O lugar estava encravado entre montanhas graníticas e não era espaço de passagem para povoações com algum significado. Não existiam estradas, mas caminhos. As pessoas, quando tinham de se deslocar a sede do concelho ou a terra da vizinha Galiza, para tratar de assunto do seu interesse ou consultarem médico, faziam no a pé ou transportavam-se em burro. Em finais da década de 1960, a aldeia continuava desprovida de electricidade. A rádio não se podia ouvir. Os jornais não circulavam, o que pouco importava, uma vez que se contavam por cerca de uma dezena os indivíduos que sabiam ler e escrever.

Por isso, habitualmente, os dias decorriam inalteráveis e sem novidades, vindas do exterior, capazes de animar as conversas dos idosos que, diariamente, se reuniam no Largo da Fonte.

Monotonia quebrada, certo dia, pelo regresso à aldeia de uma família que se deslocara a Lisboa de visita a parentes que aí residiam. Acontecimento raro, merecedor da curiosidade dos anciãos, ampliado por se saber que, entre os recém-chegados, se encontrava um rapaz de seis anos de idade, conhecido pelo seu irrequietismo, verbosidade e viveza de espírito.

Logo que puderam, os frequentadores da habitual tertúlia, fizeram chegar ao conhecimento do jovem viajante o seu interesse em ouvi-lo narrar as novidades que trazia da capital.

Não tardou muito que Quim, como todos lhe chamavam, morador em rua muito próxima do Largo da Fonte, se apresentasse desinibido perante a circunspecta assembleia, constituída pelos homens mais velhos do povoado que, apesar da sua longa vida, nunca haviam tido o privilégio de visitar a principal cidade do país.

Então, Quim, conta-nos lá o que viste em Lisboa? Inquiriu Ti Manecas.

O jovem que, desde que iniciara a viagem de regresso a casa, ansiava partilhar com os seus conterrâneos as coisas inacreditáveis que ali pudera observar, não hesitou e iniciou o relato.

As ruas estão cheias de gente e de automóveis, parece que é sempre dia de festa. Vi homens de cor preta. Também vi umas escaleiras muito altas em que, para se chegar ao cimo, não era preciso trepar, bastava por os pés no primeiro degrau. De seguida, sem que se fizesse mais nada, o degrau subia até chegar ao andar seguinte. (O jovem reportava-se às primeiras escadas rolantes existentes em estabelecimentos comerciais, montadas em 1959, nos Armazéns Grandella, na Rua do Carmo, em Lisboa).

Quim, que se preparava para continuar a narração das suas surpreendentes observações, viu-se, de súbito, interrompido pelo vozear da veterana assistência. Diziam-lhe, com a autoridade que a idade lhe outorgava, que se calasse, porque não queriam ouvir mentira tão grande como aquela de haver uma escada que se subia sem necessidade das pessoas fazerem qualquer esforço.

Foi em vão que o juvenil mensageiro tentou convencer os seus interlocutores da veracidade do que vira.

Não obstante a reprovação da assistência às suas palavras, Quim não queria deixar de contar outra das coisas que mais espanto lhe causara no decurso da deslocação à capital do país.

Num dos sítios de maior movimento da cidade, vi, lá no alto, por cima dos telhados, um carro de bois, cheio de pipas de vinho a subir para o céu. (Quim referia-se, sem o saber, às lâmpadas de néon que publicitavam a conhecida marca vinho do Porto Sandman, instaladas, naquele tempo, sobre o telhado de um edifício da Praça dos Restauradores).

Váde retro Satanás! Este rapaz é o Diabo em figura de gente! Gritavam os velhos de varapau em riste, em jeito de ameaça. Quim mais não fez que desaparecer a toda a velocidade em direcção à casa de seus pais.

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