
III
Sousa Lopes desenhou na primeira linha dum sector nessa altura sofrivelmente agitado como se estivesse no seu atelier da Rua Mallebranche. Apenas, de quando em quando, perguntava muito delicadamente a um faxina, que passava com uma panela de rancho, se porventura estava ali perturbando o serviço… À sua presença na trincha deve-se um acréscimo de trabalho verdadeiramente apreciável. Apenas ele se instalava a cavalo sobre uma cadeira para desenhar um canto do Pátio das Osgas, logo a um sinaleiro lhe apetecia fixar um fio solto, uma estafeta lembrava-se de limpar as passadeiras, o cozinheiro vinha rachar lenha para a porta do seu cubículo, os impedidos engraxavam com furor as botas dos patrões. E viu-se este caso estupendo do Menino dos Holofotes, criado de quarto do tenente sinaleiro, marau que na sua vida nunca fizera coisa nenhuma senão andar enrodilhado num cache-col de estimação, pegar numa picareta e agitar-se numa actividade febril. É que todos queriam «ficar no retrato».
E, com o seu sorrido fino, piscando os seus olhos míopes, procurando a linha e o tom, Sousa Lopes ia recolhendo para a Posteridade os telhales daquela ruína tão pitoresca onde viera acolher-se. À noite, enquanto à luz de algumas velas traçava o fusain do meu retrato, conversámos e ele dizia-me o seu desgosto de ter perdido tanto tempo e de não ter encontrado até então verdadeiras características que o inspirassem. Fora necessário vir à trincha para topar algumas. Nas zonas da retaguarda os tipos eram pálidos, esquivos, sem linhas que os vincassem, e arrastavam nos seus aspectos físicos a inconsistência da sua presença moral.
Contava-me também anedotas curiosas. Aquele paisano de nascença, que sentira acordar a sua vocação artística no canto de uma farmácia de província, aquele português lavado pelo espírito francês, observando tão de perto a vida de um exército em campanha, vendo a guerra sob as granadas sem tomar parte nela, tinha uma facilidade de observação e uma presteza de reflexão que nunca encontrei em falso. Já então tinha reunidos todos os elementos para a sua água-forte, A rendição, que há de ser o elemento capital do nosso museu de guerra e que altos galões lhe tinham aconselhado a que pusesse de parte, pois o movimento da malta, voltando á tona da vida, não era feito em formatura regulamentar!
Das minhas melhores recordações da guerra, uma das que mais profundamente me impressionaram e me sensibilizaram mesmo foi a convivência com Sousa Lopes, ali nas linhas, nas barbas de Fritz. O corpo expedicionário foi infeliz e mal servido em muitos dos seus aspectos. Foi felicíssimo no seu pintor. De toda a documentação artística, a dele ficará, porque foi sinceramente vivida e inteligentemente raciocinada. Depois digamo-lo sem rebuço: Sousa Lopes foi um óptimo soldado. Todos o pudemos verificar, e foi assim que ele entrou nos nossos corações. Os lãzudos, ao vê-lo trabalhar à beira da terra de ninguém, miravam para os lados do boche e Folgadinho murmurava: – « E se vem um morteiro?…» Todos pensávamos o mesmo, juntávamo-nos em sua volta como para o proteger, e de nós todos o mais sereno era ele. Se alguma vez interrompia o trabalho, era apenas para dizer com a sua voz de pessoa muito bem educada:
– Eu não sei se estou incomodando…
*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.
