UM PINTOR NAS “TRINCHAS”*, por ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

III

Sousa Lopes desenhou na primeira linha dum sector nessa altura sofrivelmente agitado como se estivesse no seu atelier da Rua  Mallebranche. Apenas, de quando em quando, perguntava muito delicadamente a um faxina, que passava com uma panela de rancho, se porventura estava ali perturbando o serviço… À sua presença na trincha deve-se um acréscimo de trabalho verdadeiramente apreciável. Apenas ele se instalava a cavalo sobre uma cadeira para desenhar um canto do Pátio das Osgas, logo a um sinaleiro lhe apetecia fixar um fio solto, uma estafeta lembrava-se de limpar as passadeiras, o cozinheiro vinha rachar lenha para a porta do seu cubículo, os impedidos engraxavam com furor as botas dos patrões. E viu-se este caso estupendo do Menino dos Holofotes, criado de quarto do tenente sinaleiro, marau que na sua vida nunca fizera coisa nenhuma senão andar enrodilhado num cache-col de estimação, pegar numa picareta e agitar-se numa actividade febril. É que todos queriam «ficar no retrato».

E, com o seu sorrido fino, piscando os seus olhos míopes, procurando a linha e o tom, Sousa Lopes ia recolhendo para a Posteridade os telhales daquela ruína tão pitoresca onde viera acolher-se. À noite, enquanto à luz de algumas velas traçava o fusain do meu retrato, conversámos e ele dizia-me o seu desgosto de ter perdido tanto tempo e de não ter encontrado até então verdadeiras características que o inspirassem. Fora necessário vir à trincha para topar algumas. Nas zonas da retaguarda os tipos eram pálidos, esquivos, sem linhas que os vincassem, e arrastavam nos seus aspectos físicos a inconsistência da sua presença moral.

Contava-me também anedotas curiosas. Aquele paisano de nascença, que sentira acordar a sua vocação artística no canto de uma farmácia de província, aquele português lavado pelo espírito francês, observando tão de perto a vida de um exército em campanha, vendo a guerra sob as granadas sem tomar parte nela, tinha uma facilidade de observação e uma presteza de reflexão que nunca encontrei em falso. Já então tinha reunidos todos os elementos para a sua água-forte, A rendição, que há de ser o elemento capital do nosso museu de guerra e que altos galões lhe tinham aconselhado a que pusesse de parte, pois o movimento da malta, voltando á tona da vida, não era feito em formatura regulamentar!

Das minhas melhores recordações da guerra, uma das que mais profundamente me impressionaram e me sensibilizaram mesmo foi a convivência com Sousa Lopes, ali nas linhas, nas barbas de Fritz. O corpo expedicionário foi infeliz e mal servido em muitos dos seus aspectos. Foi felicíssimo no seu pintor. De toda a documentação artística, a dele ficará, porque foi sinceramente vivida e inteligentemente raciocinada. Depois digamo-lo sem rebuço: Sousa Lopes foi um óptimo soldado. Todos o pudemos verificar, e foi assim que ele entrou nos nossos corações. Os lãzudos, ao vê-lo trabalhar à beira da terra de ninguém, miravam para os lados do boche e Folgadinho murmurava: – « E se vem um morteiro?…» Todos pensávamos o mesmo, juntávamo-nos em sua volta como para o proteger, e de nós todos o mais sereno era ele. Se alguma vez interrompia o trabalho, era apenas para dizer com a sua voz de pessoa muito bem educada:

– Eu não sei se estou incomodando…

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

Leave a Reply