Versão portuguesa do texto 1 – B “National Self-Sufficiency” de J. M. Keynes
Parte I
Fui ensinado, como a maioria dos ingleses, a respeitar o livre-comércio, não apenas como uma doutrina económica sobre a qual nenhum ser racional e instruído possa levantar qualquer dúvida, mas quase como uma parte da lei moral. Eu olhava mesmo para os desvios sobre as moralidades dessa doutrina como sendo simultaneamente uma imbecilidade e um ultraje. Passou-me pela mente as inabaláveis convicções da Inglaterra sobre o livre-comércio, enraizadas por quase 100 anos, em que simultaneamente gozava de uma supremacia económica, e que seria a primeira explicação a dar a alguém e a justificação face ao Céu. Recentemente, em 1923, escrevi que o livre-comércio se baseia em “verdades” fundamentais e que são reconhecidas as suas devidas qualificações, de que ninguém que é capaz de compreender o significado das palavras pode contestar.
Reflectindo novamente sobre detalhes à volta destas “verdades” fundamentais, apercebo-me que não me vejo a confrontá-las. No entanto, a orientação do meu pensamento tomou um outro rumo, partilhando-o com muitos outros. Em parte, na verdade, a minha experiência da teoria económica alterou-se. Não deveria incomodar o Sr. Baldwin, como o fiz, “pois era apenas uma vítima da falácia proteccionista na sua forma mais crua e pura”, pois este acreditava que, nas condições actuais, uma tarifa pode contribuir para a diminuição do desemprego britânico. Contudo, a minha mudança de perspectiva prende-se principalmente pelas minhas esperanças, medos e preocupações, juntamente com os de muitos ou mesmo da maioria, creio, desta geração em todo o mundo, que são hoje diferentes do que eram antes. É uma súmula longa a discutir fora dos hábitos mentais do mundo do pré-guerra do séc. XIX. É espantoso que um pacote de roupagens obsoletas nos impressione intelectualmente, mesmo depois de o centro da consciência já ter sido deslocado. Mas hoje, finalmente, com um terço do séc. XX, já caminhado, a maioria terá, portanto, escapado ao séc. XIX, e partir do momento em que seja atingido o ponto médio, pode ser que os nossos hábitos intelectuais se livrem da herança dos métodos e valores do séc. XIX.
Deste modo, pode ser útil, que ao tentar uma análise, um novo diagnostico, se encontre algo com a nova orientação do pensamento e, finalmente, questionando-nos se, na interrogação mental à volta de novas análises se encontre entusiasmo de mudança, que não coloque desnecessariamente em risco uma perda de algumas pérolas da sabedoria oriunda do séc. XIX.
O que é que os defensores do livre-comércio do séc. XIX, que se encontravam entre os mais idealistas e desinteressados dos homens, acreditavam que estavam a criar?
Estes acreditavam e, talvez seja justo colocar isto em primeiro lugar, que eram homens de extrema lucidez e que estavam a ser perfeitamente sensatos ao considerarem que as políticas que procuravam inferir com a divisão internacional do trabalho eram sempre o resultado da ignorância ou de interesses próprios.
Em segundo lugar, acreditavam também que estavam a resolver o problema da pobreza, resolvendo-o analogamente para o mundo como um todo, colocando os recursos e as competências do mundo, tal como uma boa dona de casa, nas suas mais adequadas utilizações. Mais ainda, eles acreditavam que serviam não apenas a sobrevivência do mais forte economicamente, mas a grande causa da liberdade, da liberdade de iniciativa e capacidade, a causa da arte inventiva e da gloriosa fertilidade da mente desenfreada contra as forças de privilégio, dos monopólio e da obsolescência. Por fim julgavam-se, amigos, defensores e protectores da paz, dos acordos internacionais e da justiça económica entre as nações e os difusores dos benefícios do progresso.
E se ao poeta dessa idade, desses tempos, viessem, por vezes, desejos estranhos, a vaguear desde longe e até onde o negociante nunca alcança, de pegar o gado selvagem pelos cabelos, ele também tinha com isso a plena certeza de uma confortável reacção
I, to herd with narrow foreheads, vacant of our glorious gains,
Like a beast with lower pleasures, like a beast with lower pains!
Que falha devemos nós encontrar com isto? Encarando-o superficialmente não vemos nenhum valor. No entanto nós não estamos, em número significativo, contentes com o trabalho da teoria política. O que é que está errado? Iremos descobrir nós a origem das nossas próprias dúvidas, não através de um ataque frontal, mas sim através da deambulação em volta de várias formas diferentes até encontrar o lugar da satisfação do nosso desejo político.
Comecemos com a questão da paz. Somos hoje pacifistas, com tanta força de convicção de que se o internacionalismo económico obtivesse sucesso, nos tornar-nos-íamos imediatamente os seus apologistas. Contudo, neste momento não me parece evidente que uma grande concentração de esforço nacional sobre a captura do comércio externo, que a penetração da estrutura económica de um país pelos recursos e pela influência de capitais estrangeiros e que uma estreita dependência da nossa própria vida económica das flutuações políticas económicas dos países estrangeiros sejam salvaguardas e garantias de uma paz internacional. É mais fácil, à luz da experiência e da previsão argumentar completamente o contrário. A protecção dos interesses externos de um país, a captação de novos mercados, o progresso da economia imperialista, são questões dificilmente evitáveis no quadro de um conjunto de práticas que visam o máximo de especialização internacional e de difusão geográfica dos capitais, onde se encontram os direitos de propriedade.
No que respeita às aconselháveis políticas internas, estas podem muitas vezes ser mais fáceis de aplicar, caso o fenómeno conhecido como “a fuga de capitais” pudesse ser eliminado. O divórcio entre a propriedade e a responsabilidade real da gestão é séria dentro de um país, quando, como resultado da articulação do stock de uma empresa, a propriedade é dividida entre inúmeros indivíduos que compram o seu interesse hoje e vão vendê-lo amanhã, vigorando entretanto uma completa ausência de conhecimento e de responsabilidade tanto para estes como para com os que momentaneamente o venham a possuir. Todavia, quando o mesmo princípio é aplicado internacionalmente, este é, em tempos de stress intolerável, ou seja, eu sou irresponsável para com aqueles que são proprietários daquilo com que eu opero e, aqueles que operam com o que eu possuo são irresponsáveis em relação a mim. Não obstante, pode haver algum cálculo financeiro que prove que é vantajoso investir a minha poupança em qualquer parte do globo habitável com uma maior eficiência marginal do capital ou a uma maior taxa de juro. Mas, de acordo com factos empíricos e experiências, é comprovado que a distância entre a propriedade e a realização da operação prejudicam muito provavelmente no longo prazo as relações entre os homens, a criação de linhagens e as inimizades irão reduzir a nada o cálculo financeiro.
Portanto, honestamente simpatizo com aqueles que desejam minimizar e não com aqueles que querem maximizar o entrelaçamento económico entre as nações. Opiniões, conhecimento, ciência, hospitalidade, turismo, etc. estes são factores que devem ser de natureza internacional. Logo, sempre que for razoável e convenientemente possível, deixe-se acima de tudo, que o financiamento seja essencialmente nacional no que respeita aos bens básicos. No entanto, ao mesmo tempo, aqueles que procuram desembaraçar um país dos seus envolvimentos devem ser muito cautelosos e devem procurar ir devagar. Não deverá, pois, ser uma questão de rasgar raízes, mas sim de uma lenta formação de uma planta a crescer direccionando-a numa diferente direcção. Por estas sólidas razões, estou inclinado a acreditar que, depois da transição realizada, um maior grau de auto-suficiência nacional e de isolamento económico entre os países do que o que existia em 1914, tende a servir mais consistentemente a causa da paz, contrariamente à via daqueles que querem optar pelo caminho da rápida internacionalização económica. De qualquer forma, o período do internacionalismo económico não foi particularmente bem sucedido em evitar a guerra, e aos seus apologistas, em que a imperfeição do seu sucesso nunca lhes deu uma oportunidade justa, é razoável apontar que um maior sucesso é pouco provável nos anos vindouros.
(continua)


1 Comment