OS MEUS DOMINGOS – A FELICIDADE – por ANDRÉ BRUN

Um Café na Internet
(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

II

(continuação)

Um vizir da corte do príncipe, querendo a todo o transe curar o seu amo, cismou e muito bem que, se o remédio estava em vestir a camisa do homem feliz e este não usava tal peça de roupa, nada mais fácil que comprar-lhe uma, deixar-lha trazer uns dois meses e meio – não sei se notaram pelo olfacto que os orientais não mudam de camisa como nós de opinião como nós de opinião – e vesti-la ao príncipe depois. E, assim, foi em segredo buscar o zagal ao monte e vestiu-lhe uma esplêndida camisa das de Oxford, que nessa era custavam macuta e meia. O mal foi que, quando o ditoso homem se apanhou de camisa, apeteceu-lhe logo um par de ceroulas e, como tardassem em lho dar, o seu humor tornou-se sombrio a tal ponto que, não fosse ele sentir-se infeliz, não houve senão vestir-lhe as ceroulas a correr. Atrás das ceroulas o homem quis peúgas às riscas, colarinhos de ida e volta, um fato de bom cheviote, botas amarelas e uma gravata Lavalliére. Supunham-no contente e iam tirar-lhe a camisa, quando ele explicou que não dormia pelo desejo de ter uma bengala de unicórnio, uma amante de olhos azuis e uma motocicleta side-car. Deram-lhe ainda esses três objectos de primeira necessidade; mas as suas ambições puseram-se a crescer à vontade como as ervas loucas entre as pedras das ruínas.

O homem queria agora a edição completa do Larousse, um gramofone e aprender a tocar guitarra. Dizia Manuel Bernardes, pregador da minha estima, que “é o coração do homem como a menina do olho: tudo lhe cabe e nada o satisfaz.” Já nada satisfazia o desgraçado homem feliz. Queria tudo: a mulher do próximo, o dinheiro dos outros, glória, fama, ascensor e todos os confortos modernos. Viram-se forçados a mandá-lo embora para a sua choupana e tal como o foram lá buscar: sem camisa de Oxford, sem gramofone, sem botas amarelas e sem gravata Lavalliére.

O pior de tudo é que, se o vizir não conseguiu curar a maleita do seu príncipe, o zagal ficou dali por diante infelicíssimo. Já não apascentava o gado tocando modinhas populares numa flauta de caniço. Passava o tempo com a cabeça entre as mãos, a cismar, não tanto em tudo que tivera, mas principalmente no que poderia ter tido. Quando, tempos passados, apareceram à porta da choupana uns touristes ingleses encaminhados pela Cook e um deles, empunhando um Kodak de tiro rápido, lhe perguntou: “- O senhor é que ser o homem feliz?”, o pobre pastor respondeu, tendo nos olhos a tristeza de toda a humanidade: “ – Não, meu caro amigo. Fui! Hoje eu ser e para todo o sempre, o homem mais infeliz do globo,”

(continua)

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