CRÓNICA DE DOMINGO – As mulheres, a Igreja e Hildegard de Bingen – por Rachel Gutiérrez

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O novo papa Francisco declarou que a Igreja precisa valorizar as mulheres. Terá ele querido dizer que a voz das mulheres poderá ser ouvida? A Igreja possui muitas santas, mas apenas 3 doutoras: além de Teresa d’Ávila (1515-1582) e de Therèse de Lisieux (1873-1897),a conhecida Santa Terezinha de Jesus, Catarina de Siena (1347-1380), que só foi declarada Doutora da Igreja 590 anos após sua morte, em 1970, no século passado.

A famosa Joana D’Arc, heroína da França, cuja imagem o Front National utiliza para legitimar uma execrável xenofobia, não é doutora, pois era analfabeta e sequer soube assinar o nome no Ato de sua condenação à fogueira, aos 19 anos, em 1431. Essa foi beatificada em 1909 e canonizada em 1920, 500 anos após ter sido queimada como bruxa.

E a fundadora do Centro de Estudos sobre Joana D’Arc, em Orléans, Régine Pernoud, foi uma historiadora francesa mundialmente conhecida como medievalista chartiste (especializada em documentos antigos) e foi doutora honoris causa ,entre outras, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua vasta obra inclui um famoso estudo sobre Abelardo e Heloísa e uma história das mulheres no tempo das catedrais.

Seu ensaio sobre Hildegard de Bingen tem como subtítulo, na edição brasileira traduzida por Eloá Jacobina, A consciência inspirada do século XII. Esse ensaio foi publicado pela editora Rocco, na Coleção Gênero Plural, projetada por Vivian Wyler e coordenada por Rachel Gutiérrez.

Eis a orelha, ou badana:

Hildegard de Bingen, a “sibila do Reno”, figura como Heloísa, Eleonor de Aquitânia e Herrade de Landsberg, entre as personagens mais importantes do século XII, quando as mulheres de origem nobre desfrutavam de considerável liberdade. Hildegard pregou em igrejas e conventos, manteve assídua correspondência com papas e cardeais, príncipes e reis, dos quais foi guia espiritual. Isso teria sido impossível a partir do final do século XIII, quando o papa Bonifácio VIII , pela constituição Periculoso, instituiu a clausura e o silêncio para as mulheres.

Superdotada e habitada por visões desde a infância, só aos 43 anos Hildegard teve a coragem de registrar e divulgar sua concepção de um universo em expansão, cujas infinitas minúcias também descreveu. A abadessa, que se definia modestamente como “uma folha na respiração de Deus”, escreveu mais de 70 sinfonias, inúmeros textos poéticos, dezenas de obras de teologia cósmica, uma enciclopédia dos conhecimentos da Alemanha de seu tempo, os dois únicos tratados de Ciência Natural e Médica do século XII e ainda inventou um alfabeto e uma nova língua. Conhecia Botânica, o poder medicinal das plantas, o curso dos rios e a qualidade das águas. Seus métodos de cura estavam sendo aplicados com sucesso no final do século XX, em clínicas que começaram a se espalhar pelo mundo europeu.

 Mais do que uma biografia, o livro de Régine Pernoud é o brilhante relato de uma trajetória surpreendente e da evolução do pensamento de uma mulher de gênio. Como concluiu a medievalista francesa, temos necessidade hoje de personalidades como a de Hildegard, que soube olhar para as plantas mais humildes e para os espaços infinitos. Espírito capaz de influenciar no plano político e cultural e de reconciliar as várias ordens do pensamento e da vida.

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