PENSAR DIFERENTE, IMPACTOS HUMANITÁRIOS DA CRISE ECONÓMICA NA EUROPA – UM RELATÓRIO DA CRUZ VERMELHA INTERNACIONAL (EXCERTOS).

Selecção, tradução, organização e introdução por Júlio Marques Mota

Introdução ao relatório da Cruz Vermelha

Pensar diferente, impactos humanitários da crise económica na Europa  é  um texto que não pode deixar ninguém indiferente. A versão  aqui pulicada reproduz longos excertos do relatório da Cruz Vermelha editado em Outubro de 2013. Apesar da dimensão do texto, a exigir uma introdução ao leitor que por este blog se passeie, pessoalmente não a faço, dada a tão alta qualidade do texto em presença. Sugiro, em alternativa, a cada um que o leia que vá pensando no que lê e à medida que o lê, procure analogias com casos que conhece e ocorridos em Portugal. Por exemplo no texto que publico em paralelo a este relatório, relato a história de um amigo meu e esta é tão idêntica a tantas outras que atravessam este relatório, que tudo isto me deixou extremamente incomodado.

A forma como o texto se vai desenvolvendo e o que nos vai mostrando constitui, do meu ponto de vista, o mais forte libelo que conheço contra as políticas seguidas nesta Europa martirizada publicado por uma Organização institucionalizada como é o caso da Cruz Vermelha. E os avisos no relatório publicados são bem sérios de que a situação de crise pior ainda está para acontecer à medida que muitos dos danos sociais já feitos vão aparecendo à luz do dia. Pensar diferente, actuar diferente é pois o apelo desta Organização Internacional, apelo que aqui deixamos.

Júlio Marques Mota

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IFRC-logo

Pensar diferente, impactos humanitários da crise económica na Europa

Um relatório da Cruz Vermelha Internacional (excertos)

Parte I

A criação de uma sensação de segurança e de previsibilidade tem sido uma função tradicionalmente atribuída à sociedade e como sendo característico do que esta oferece aos seus cidadãos.

Hoje, como a crise económica aprofundou as suas raízes, milhões de europeus vivem com insegurança, com grande incerteza sobre o que o futuro reserva.

Este é um dos piores estados psicológicos da nossa mente e agora assiste-se a um desespero silencioso a difundir-se entre os europeus, resultando daí depressão, resignação e perda de esperança quanto ao seu próprio futuro.

Também estamos a ver sinais deste desespero silencioso a tornar-se cada vez mais evidente, cada vez mais ruidoso e violento até, através de manifestações e da agitação social, por vezes até à violência. Tememos mesmo que o aumento da xenofobia e da falta de confiança na sociedade, em vez de ser capaz de proporcionar empregos e segurança, podem levar a pontos de vista mais extremos e a posições mais radicais tendo como consequência perturbações sociais.

Em Outubro de 2009, a Federação Internacional da Cruz Vermelha e as Sociedades do Crescente Vermelho (IFRC) publicaram o seu primeiro relatório sobre o impacto humanitário da crise económica na Europa. Nessa fase inicial nós salientámos que, enquanto uma forte atenção estava a ser dada e dirigida no sentido de estabilizar a situação macroeconómica do continente, muito pouca atenção estava a ser dada para as consequências humanitárias ou para as causas da crise.

Naquela época, nenhum de nós imaginava que quatro anos mais tarde nós estaríamos ainda a falar sobre uma crise económica. Nem nós esperávamos que esta crise tomaria como seu rumo o passar transformar-se numa crise ainda pior, atingindo, desproporcionalmente, aqueles que já estavam numa situação de vulnerabilidade e também afectando duramente novos grupos de pessoas que nunca tinham sido até aí afectados.

No início de 2013 foi novamente realizado um levantamento sobre a forma como as 52 organizações nacionais da Cruz Vermelha e Sociedades do Crescente Vermelho na Europa têm respondido à crise. Também as questionámos sobre as suas observações ao mesmo tempo que ajudavam as pessoas que estão por detrás dos números, sobre as pessoas mais afectadas.

Através da nossa rede, já sabíamos que a situação estava só a degradar-se de dia para dia em muitos países, mas mesmo assim, algumas das respostas ainda nos surpreenderam e nos chocaram, tanto quanto salientam preocupantes tendências e graves desafios face ao futuro.

O aumento de auxílio alimentar quando comparado com o que foi distribuído em 2009, foi tal que se traduziu em que mais milhões acabaram por se encontrar nas filas de espera para a comida, incapazes de poderem comprar medicamentos nem de ter acesso aos cuidados de saúde. Há milhões que estão sem emprego e muitos daqueles que ainda têm trabalho enfrentam graves dificuldades para poderem sustentar as suas famílias devido aos insuficientes salários e aos preços a subirem rapidamente. Muitas pessoas da classe média têm estado a caminhar e a descer ao longo de uma espiral recessiva a caminho da pobreza. A quantidade de pessoas que dependem de distribuições de alimentos de Cruz Vermelha em 22 dos países analisados aumentou em 75% entre 2009 e 2012.

O referido levantamento mostrou-nos que há mais pessoas a ficar pobres, que os pobres estão a ficar mais pobres ainda e que a distância’ social’ entre a posição de partida e a situação de chegada à pobreza está a ser cada vez maior.

Vemos surgir grupos vulneráveis de trabalhadores pobres a entrar em contacto com a Cruz Vermelha ou com o Crescente Vermelho a solicitarem apoio para aguentarem o final do mês , enfrentando mesmo o dilema de comprar comida ou então de pagar as suas contas de serviços públicos – com o risco de os verem cortados, se não mesmo, despejados porque incapazes de pagar as hipotecas das suas casas.

Muitas sociedades nacionais relataram-nos a expansão dos seus programas nacionais, tais como a Cruz Vermelha espanhola, que pela primeira vez desde sempre , lançou um apelo nacional em 2012 para uma recolha de fundos destinados a socorrer as pessoas do seu próprio país. Outras sociedades nacionais relataram-nos que, embora estejam a tentar fazer o seu melhor, elas estão seriamente preocupadas pelo facto de não poderem ajudar mais, face a tanta gente atingida e em garnde necessidade.

Levará décadas a aparecerem à superfície, a tornarem-se visíveis, as consequências a longo prazo desta crise. Este relatório mostra que os problemas provocados serão sentidos durante décadas mesmo se a economia mudar de rumo para melhor num futuro próximo.

O desemprego por si-só é uma bomba relógio. Um quarto dos 52 países da zona Europa onde trabalha a IFRC está a mostrar estatísticas de desemprego juvenil verdadeiramente catastróficas, desde de um terço da força de trabalho jovem até mais de 60 por cento da população jovem na situação de desempregada .

No outro extremo da escala de idades, de acordo com o Eurostat, o número de pessoas desempregadas na União Europeia, entre os 50 e os 64 anos de idade aumentou de 2,8 milhões em 2008 para 4,6 milhões em 2012.

Embora a Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho não tenham estado até agora extensivamente envolvidas em questões de emprego, as potenciais consequências pessoais e sociais de elevadas taxas de desemprego são uma preocupação extremamente importante para nós.

O levantamento mostrou que algumas das instituições nacionais da Cruz Vermelha e das Sociedades do Crescente Vermelho estão agora envolvidas na ajuda aos desempregados e de várias maneiras diferentes, desde o apoio psicossocial até aos aspectos práticos de preenchimento de formulários para benefícios sociais e de formação e aconselhamento para os ajudar a regressar ao mercado de trabalho.

O que é que nos atingiu?

A crise económica pode atingir situações de pico em momentos diferentes e em diferentes cantos da Europa e alguns países podem estar mais afectados do que outros, mas perguntamo-nos se nós, como um continente, somos realmente capazes de conseguir compreender o que é que nos atingiu e se estamos preparados para lidar com a situação em que nós próprios nos encontramos já hoje. Uma pergunta em aberto, portanto.

Perguntamo-nos isso porque enquanto estamos a ver algumas iniciativas novas e encorajadoras, só cinco anos depois de estarmos abaixo da linha de água, em situação de sufoco, começamos a perceber que talvez isto ainda não tenha acabado e que, embora alguns países parecem ser capazes de melhorar a sua situação financeira, os impactos humanitários da crise serão ainda sentidos durante muitos anos no futuro.

Como uma organização, estamos empenhados em ajudar as pessoas quer nas situações imediatas, as de curto prazo, quer nas situações de longo prazo, e estamos continuamente a rever como é que nos podemos ajustar e adaptar a nossa assistência às necessidades novas e emergentes, continuando ainda a ajudar aqueles que já estavam em necessidade antes da crise.

Ao mesmo tempo, vemos o perigo de se transformarem milhões de pessoas em destinatários passivos da ajuda; estamos empenhados em desempenhar um papel na prevenção desse fenómeno e estamos a envolver pessoas mais activamente na procura de soluções para esta situação.

Para fazer isso, em primeiro lugar precisamos de pensar de forma diferente – e então devemos actuar de forma diferente. Há uma necessidade para todos nós em examinarmos se as nossas sociedades estão adaptadas para resolver a situação presente ou então como é que nos podemos ajustar face à necessidade de implementar novas iniciativas, para implementar novas intervenções preventivas ou ainda para alcançar uma melhor cooperação assim como para criar novas abordagens, mais flexíveis e holísticas.

Naturalmente, a Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho não têm todas as respostas. Iniciámos o processo de pensar de forma diferente e nos próximos meses, iremos explorar como é que certos modelos desenvolvidos em alguns países da Europa e noutras partes do mundo se podem revelar-se pertinentes face à crise económica, especialmente para criar e aumentar a resistência das pessoas à situação presente.

Acreditamos que seja urgentemente necessário um firme e sustentado empenhamento para criar efectivas estratégias de resiliência em toda a Europa a fim de tratar as consequências desta crise, se quisermos colectivamente impedir que esta se transforme numa crise social e moral, com terríveis e largas consequências a partir de um futuro já próximo.

Apelamos, por isso, a todas as partes interessadas a trabalhar em conjunto connosco para melhor capturar o vendaval da crise e para encontrar soluções novas e inovadoras para esses mesmos desafios. Ainda há esperança, mas vai ser necessário muito mais tempo e fazer muito mais do que o que foi necessário para resgatar os bancos e para a distribuição de ajuda alimentar, para se poder mudar as coisas.

(continua)

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