OS MEUS DOMINGOS – A ARTE DE ANDAR A PÉ – por ANDRÉ BRUN

Um Café na Internet
 
 
 
 
 
(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

II

Andar a pé, para quem não for paralítico ou criança de colo, é uma coisa relativamente fácil. O que devemos é ter a máxima cautela com os veículos de toda a ordem que circulam pelas ruas. Cada dia os jornais nos dão notícia de desastres vários ocorridos em Lisboa e quase todos por falta de atenção dos transeuntes. Ora é um desses automóveis de lata fabricados em série por grandes casas estrangeiras, que se desfez em pó por ter esbarrado com um brutamontes ao virar de uma esquina; outra vez é um camião, cujos pneus rebentaram por terem passado por cima dos ossos demasiadamente pontiagudos de uma solteirona magra; outra vez é ainda um carro eléctrico, que tem de ser levantado ao ar com macacos e guindastes, a fim de se poder sacar de baixo um idiota qualquer que lá se encafuou sem se saber porquê e provavelmente só para arreliar quem tem pressa de chegar a casa.

Tudo isto provém, em última análise, de se ter descurado por completo a educação de peões e peoas que circulam livremente pelas artérias da capital. Ao passo que para guiar um simples “side-car” a polícia exige uma licença que nunca se obtém com menos de três dias de prática e quinze de solicitações, qualquer indivíduo, só porque tem duas pernas, entende que pode girar à vontade por essas calçadas.

Proponho, portanto, que de futuro os cidadãos pretendendo andar a pé sejam munidos de um cartão de habilitação análogo ao que se impõe aos motoristas de automóvel.

As pessoas que solicitarem esse cartão deverão satisfazer às condições seguintes;

1ª Serem de nacionalidade portuguesa ou mesmo estrangeira e terem mais de um ano de idade e menos de cento e dez;

2ª Serem reconhecidas por uma junta médica aptas à circulação na via pública;

3ª Sujeitarem-se a provas técnicas e práticas;

4ª Terem seguro de vida;

A junta médica verificará se os pretendentes são normalmente constituídos. Os órgãos da vista e do ouvido serão examinados com cuidado. Os cegos e os surdos, segundo as últimas estatísticas, arriscam-se muito a causar prejuízos e demoras de toda a espécie a qualquer veículo. O olfacto deverá também ser normal, pois é sabido que as tipóias de cavalinhos se anunciam muita vez, à falta de buzina, por os rocinantes que as rebocam trazerem o escape aberto e isto apesar das recomendações do governador civil. Quem sofrer de perturbações cardíacas será naturalmente rejeitado, pois ninguém ignora a importância do coração em questões de boa ou má circulação.

O exame técnico imposto aos candidatos será composto de um certo número de provas, entre as quais apontarei:

1ª Corrida a pé: cinquenta metros planos e com obstáculos sobre calçada molhada, com treinadores mecânicos, (automóveis, camiões, motocicletas) colocados atrás do corredor.

2ª Prova de sangue frio: atravessar às sete da tarde o largo do Camões, do teatro Nacional à estação do Rossio, levando dois embrulhos grandes, um debaixo de cada braço. Para as mulheres, os embrulhos podem ser substituídos por crianças de peito ou por uma tia hidrópica de setenta e cinco anos.

3ª Provas orais: saber explicar a um polícia onde ficam determinadas ruas e responder nos termos próprios às gentilezas e “piropos” que os “chauffeurs”, cocheiros e guarda-freios costumam dispensar a quem lhes passa a menos de um metro e meio das rodas.

4ª Provas de resistência: sujeitar-se a experiências de compressão de modo a garantir uma resistência de cento e trinta e dois quilos por centímetro quadrado.

As pessoas que hajam satisfeito a todas estas provas receberão, no prazo mínimo de quatro meses ou máximo de cinco anos, uma licença para andar a pé, assinada pelo ministro do interior, pelo governador civil e pelo presidente do Senado Municipal, cujo preço será de setecentos escudos anuais – o preço do “passe” dos eléctricos – não contando o selo. Terão também direito ao hábito de Santiago e à Cruz de Paz de terceira classe.

Ficarão assim habilitadas a passear, – por sua conta e risco, é claro – por toda a cidade e arredores, com a obrigação, porém, de andarem munidas, de noite, de dois faróis à frente e um lanternim atrás e de apresentarem sempre visivelmente uma chapa de esmalte azul com algarismos brancos indicativos do número da respectiva licença.

17 de Dezembro de 1922

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