RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Saltam as rolhas do caro champagne em Lisboa porque a crise acabou, disparam-se os primeiros tiros de bazuca a partir dos mercados financeiros porque a crise se intensificou

Júlio Marques Mota

PARTE XIII
(CONCLUSÃO)

É a essa espectáculo degradante de passo a passo se estar a dar cabo da democracia que estamos agora a assistir. E isso é tão evidente quando se quer que todos os países se submetam aos mercados financeiros que pelos seus humores marcam pois o ritmo das políticas públicas de cada estado-nação. E a loucura à volta desta transmissão de poderes é tal que os mesmos que a fazem, sob a batuta do BCE, que fazem a entrega dos símbolos do poder que é a Democracia aos mercados financeiros, fazem-na no mesmo momento em que consideram que estes estão brutalmente podres, a acreditar na citação de Mario Draghi acima reproduzida.

Pois bem, neste plano estamos a milhas da ideia do texto do Hedge fund acima sucessivamente citado que não coloca nunca a União Europeia como sistema em causa, quando é este mesmo sistema que deve ser colocado em causa. E a crise financeira vista a esta luz é apenas a superfície da crise civilizacional que atravessamos na Europa. Nesta crise civilizacional confere então sentido a ida de Gaspar para o FMI, de Álvaro Santos Pereira para a OCDE, de José Luís Arnaut para o GS – num modelo de sociedade sem princípios, porque exigir que aqueles que a dominam tenham eles princípios? Se Deus não existe tudo é permitido, ter-nos-á dito em síntese Dostoiévski, e, então, como tudo é actualmente permitido, a conclusão surge pois imediata.

A principal responsabilidade desta situação deve-se aos governos de Merkel e Sarkozy que passaram a dominar o Conselho e deve-se também à própria Comissão que sucessivamente parecia querer andar a frente destes dois governos na imposição da austeridade. Todos eles interpretaram a crise do euro como sendo uma crise da dívida soberana e desta forma confundiram causa com efeito e nunca como efeito do modelo neoliberal desde há décadas seguido e mais que ultra-reforçado pós-Maastricht. O acentuado aumento da dívida soberana desde 2009 não terá sido provocado por excesso de despesas sociais mas pelo aumento de empréstimos necessários para financiar o resgate dos bancos, enquanto até aí tinha-se assistido a um degradar sucessivo da balança comercial de vários países a significar os profundos desequilíbrios na estrutura produtiva. A este degradar também não é estranha a ausência de política comercial na Europa, que submetida e amarrada à OMC, levou a que a Europa seja a principal vítima dos novos mercantilismos sem rei nem roque: o da Alemanha e o da China, para quem o relevante era o mercado mundial, sem nenhuma regulação. A partir de 2010, que toda esta análise errada levou á criação de uma estratégia ainda mais errada para resolver os problemas: os unilaterais cortes nos gastos públicos, o reforço das políticas de austeridade, o ataque pelos mercados financeiros à divida soberana, ataques estes consentidos pelo BCE, tudo isto a fazer disparar a dívida pública . Isto tem levado a Europa para a situação de recessão. A economia está em contracção e estão a disparar os níveis de desemprego e da dívida. A força de procurar estabilizar a zona euro pelos meios errados está-se a destruir a própria estabilidade interna da zona euro. De nada disto nos fala o texto de Tortus Capital que temos vindo a criticar, a este só lhes interessa os lucros especulativos que a partir do mesmo se possam desencadear. É assim que funcionam os mercados financeiros, é assim que funciona quem os apoia.

E ficamo-nos por aqui.

Referências principais:

–          Audrey Duperron, « Draghi: ‘Trop en savoir sur nos grandes banques pourrait provoquer la panique » », Outubro de 2013, Express.be, disponível em :

http://www.express.be/business/fr/economy/draghi-trop-en-savoir-sur-nos-grandes-banques-pourrait-provoquer-la-panique/197373.htm

–          Bloomberg, Jana Randow, Draghi Says Effectiveness of Banks’ Review Depends on Backstops, 11 de Outubro, disponível em :

http://www.bloomberg.com/news/2013-10-11/draghi-says-effectiveness-of-banks-review-depends-on-backstops.html

–          Christophe Beaudouin, Agora Vox, L’Union est devenue une entreprise de liquidation de l’Europe comme civilisation et comme projet », disponível em :

http://www.agoravox.fr/actualites/societe/article/l-union-est-devenue-une-entreprise-145007

–          Dan McCrum, The Tortus sell is Portugal, 9 de Janeiro de 2014

–          Enrique Dussel Peters e  Kevin P. Gallagher,  nafta’s uninvited guest: China and the disintegration of North American trade, Cepal, , Agosto de 2013.

–          Eurostat, Press Release, Euro area annual inflation down to 0.8%, 7 de Janeiro de 2014

–          John O’DonnelL e  Robin Emmott, Europe prepares to come clean on hidden bank losses, 13 de Outubro de 2013. Texto disponível em:

http://www.reuters.com/article/2013/10/13/us-eurozone-banks-idUSBRE99C03Y20131013

–          Júlio Mota, Luis Peres e Margarida Antunes), “Portuguese Economic Growth at the Crossroads of the Euro and Globalization”, From Crisis to Growth? The Challenge of Imbalances, Debt, and Limited Resources, 15ª conferência do Research Network Macroeconomics and Macroeconomic Policies (FMM), Berlin, 28-29 de outubro de 2011.

disponível em : http://www.boeckler.de/pdf/v_2011_10_27_mota_et_al.pdf)

–          Testerona Pit, ECB’s Draghi: Knowing Too Much About Our Big Banks Could Set Off A Panic, disponível em:

http://www.testosteronepit.com/home/2013/10/14/ecbs-draghi-knowing-too-much-about-our-big-banks-could-set-o.html

–          Tortus Capital, Rehabilitating Portugal, 9 de Janeiro de 2013.

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Para ler a Parte XII deste texto de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

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