Saltam as rolhas do caro champagne em Lisboa porque a crise acabou, disparam-se os primeiros tiros de bazuca a partir dos mercados financeiros porque a crise se intensificou
Júlio Marques Mota
PARTE XII
(CONTINUAÇÃO)
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Para que um texto destes então? Não o desprezemos pois é um texto de qualidade informativa, fixemos apenas uma hipótese: trata-se de um texto publicado por um Hedge fund com fortes posições a descoberto, supõe-se, sobre a dívida portuguesa e dispara analiticamente um tiro de morteiro sobre o nosso país. Para quê? Para instalar o rumor de que a divida não é sustentável e com isso ganhar alguns milhões. Imaginemos que tenha vendido 50 milhões da dívida portuguesa a descoberto. Terá então vendido títulos de que não dispõe. O que ele tenta fazer é então lançar disparos nos mercados financeiros sobre a economia portuguesa à espera que o rumor se instale e se transforme em verdade, ou seja, que haja investidores que com o medo os vendam apressadamente num voo para a qualidade, para países mais seguros. Imaginemos ainda que o mesmo operador comprou CDS para aquele montante. O boato pega, a venda de títulos aumenta, o seu preço baixa e aumenta a procura dos CDS. Ele então vende os CDS comprados, a um spread mais alto, ou seja ganha também por aqui ao transferir para outro, mas com ganho, a segurança que tinha comprado antes. Ao mesmo tempo que vende os CDS compra os títulos em baixa e vai entrega-los a seguir a quem os vendeu. Ganha de novo.
Mas mais ainda na dinâmica anterior. Os CDS sobem e com isso automaticamente quase os títulos da dívida pública nas próximas emissões descem e a a espiral do ataque especulativo continua. Dir-me-ão que um só operador não chega. Talvez seja assim. Mas falamos de um boato solidamente sustentado. E o texto é sustentado. A seguir é deixar que os outros operadores sejam bons difusores do boato instalado. Mas porquê Portugal?
Bom, há três anos sobre a dinâmica da crise escrevía em conjunto com Luis Lopes e Margarida Antunes um artigo sob o título A economia global e a crise da dívida soberana na União Europeia: a situação de Portugal e Espanha e aí se dizia:
“Se há um ano se discutia e se mostravam sinais mais ou menos evidentes de que o modelo económico neoliberal — o modelo da economia global — estava a chegar ao seu fim, afinal, os dias de hoje têm revelado antes uma nova faceta do próprio modelo. Os dias de hoje mostram de forma mais explícita e brutal que são os mercados financeiros que têm determinado a política governativa. Depois das moedas, matérias-primas, bens alimentares, créditos malparados, escolheu-se como alvo de ataques especulativos as dívidas soberanas de diversos estados, um a um, resultando aquilo que é chamada de crise da dívida soberana. A União Europeia serve de exemplo e com mais acuidade ainda os países do Sul como Portugal e Espanha, de que se irá falar com algum detalhe.”
Ataques país a país, um a um, eis pois o que se pretende retomar de novo e é assim que se deve compreender a publicação do texto em análise.
É assim o mundo da finança e é desse mundo que a Comissão Europeia entende que todos nós devemos depender. E é assim que se quer que viva todo um continente: ao sabor do humor dos mercados!
Curiosamente ao fazer uma síntese do processo de integração europeu escreveu Christophe Beaudouin, ao considerar que “a União Europeia se tornou uma empresa encarregada da liquidação da Europa enquanto projecto, enquanto civilização” diz-nos:
“Com efeito, a passagem da Europa das Nações à Europa da integração, da passagem da do Mercado Comum à globalização mercantil é a assinatura de uma grande renúncia. Uma renúncia à Europa como vontade e como civilização. Uma renuncia à democracia entendida esta como soberania colectiva e mais geralmente entendida como “governo dos homens”. Esta renúncia egoísta das novas elites – aquelas que controlam o fluxo de dinheiro e das informações do mundo – conhece grandes precedentes históricos bem conhecidos: no século IV, a decadência do espírito público que atingiu a classe dominante romana provocou a desordem que está na origem da implosão de Roma, assim oferecida aos invasores. Da mesma forma, o colapso moral das elites francesas preparou o colapso militar e “a derrota estranha”, de maio – junho de 1940 segundo a famosa fórmula de Marc Bloch. Mas como podemos ainda justificar ainda os seus privilégios se as elites estão a virar as costas para o bem comum? Chateaubriand via nesta traição das elites uma espécie de fatalidade: “uma classe dominante passa por três idades sucessivas: a idade das superioridades, a idade dos privilégios, a idade das Vaidades: a saída da primeira degenera na segunda e extingue-se na terceira.» Assim, na sequência da queda do muro de Berlim em 1989, os dirigentes das democracias da Europa Ocidental, onde o individualismo egoísta minava novamente o espírito público, entraram numa situação de pânico face às novas responsabilidades que as suas democracias herdavam enquanto nações soberanas num mundo finalmente livre. Em contra-corrente desta libertação histórica de que todo o continente e o mundo inteiro deveria estar satisfeito, lançaram-se sobre um conceito de fusão da Europa, uma ideia já velha desde os anos 50 . Sentindo o vazio estar a corroer a nação por dentro, a elite francesa tinha deixado de imaginar e desde há muito tempo um destino próprio para a nação. Ao invés de se pensar uma arquitectura europeia flexível e que conjugasse com o respeito pelas democracias com a necessidade de fronteiras e com a economia de mercado, os Estados europeus colaram-se uns aos outros sob a égide da administração de Bruxelas como galinhas doentes juntinhas a no canto do galinheiro. Deixou de ser a paz ou a fraternidade europeia que os levava agora mas sim a angústia do mundo que estava em clara mudança. A integração supranacional é a última viagem da democracia fatigada, quase aliviada por terminar, sem sequer má-consciência, com as responsabilidades decididamente exigentes da soberania.”
(continua)
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Para ler a Parte XI deste texto de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

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