RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

UMA HISTÓRIA SOBRE LONDRES, SOBRE A GENTE NORMAL, SOBRE A GENTE BEM ESPECIAL

Nicholas Shaxson

Vanity Fair

Abril de 2013

Disponível em http://www.vanityfair.com/society/2013/04/mysterious-residents-one-hyde-park-london

PARTE IV
(CONTINUAÇÃO)

James Henry, um antigo economista-chefe da McKinsey, assistiu de perto à reciclagem da riqueza em petrodólares em empréstimos ao Terceiro Mundo através dos euro-mercados não regulamentados de Londres, o que, entre outras coisas, permitiu a Wall Street evitar as regulamentações bancárias que vinham ainda da era do New Deal. Henry viu emergir uma rede bancária privada e global a acompanhar o dinheiro, “ajudando as elites do terceiro mundo a fugirem com centenas de milhares de milhões de dólares de empréstimos desviados, em comissões ilícitas e em privatizações corruptas e a virem colocar todo este dinheiro em Londres e em outros paraísos fiscais.” O número ao lado de cada localização fornece o seu ranking no índice de sigilo financeiro, que é calculado com base na análise do papel da área nos mercados financeiros globais e no rating das suas leis e regulamentos que facilitam as actividades criminais realizadas não dentro dessa área mas sim em qualquer outra parte.

Isto pode aparecer como uma surpresa para a maioria das pessoas que o actor mais importante no sistema offshore global dos paraísos fiscais não seja a Suíça ou as Ilhas Cayman, mas a Grã-Bretanha, sentada no centro de uma teia de paraísos fiscais britânicos ligados entre si, os últimos remanescentes do Império. Consiste num anel interno que são as dependências da coroa britânica — Jersey, Guernsey e a ilha de Man. Depois, mais afastados estão 14 territórios ultramarinos da Grã-Bretanha, metade deles paraísos fiscais, incluindo offshore gigantes tais como as Ilhas Cayman, Ilhas Virgens Britânicas (B.V.I.) e as Bermudas. Ainda mais, numerosos países da comunidade britânica e ex-colónias como Hong Kong, com ligações profundas e antigas a Londres, continuam a alimentar com grandes fluxos financeiros — fluxos limpos, fluxos questionáveis ou fluxos sujos — a City. A parte do meio e já com metade fora fornece o sólido e tranquilizador alicerce jurídico britânico, a proporcionar uma distância suficiente de modo a que o Reino Unido possa dizer que “Não há nada que nós possamos fazer” quando se atinge o escândalo.

Os dados são escassos, mas no segundo trimestre de 2009, as três dependências da coroa sozinhas forneceram cerca de $332.5 mil milhões em financiamento líquido para a City de Londres, muito do qual era dinheiro estrangeiro a fugir ao pagamento de impostos. As questões financeiras estão de tal modo fora de qualquer controlo que em 2001 a própria Administração fiscal da Grã-Bretanha vendeu 600 edifícios a uma empresa, Mapeley Steps, Ltd., que se tinha registado no paraíso fiscal das Bermudas para evitar o pagamento de impostos.

A Grã-Bretanha poderia acabar com o secretismo destes paraísos fiscais de uma noite para o dia, se ela o quisesse fazer, mas a City de Londres não a deixa fazer. “Temos pois, colocando as coisas de forma provocadora, um segundo Império britânico e que é o centro dos mercados financeiros globais hoje,” explica Ronen Palan, professor de economia política internacional na City University em Londres. “E a Grã-Bretanha está muito bem para não fazer nenhuma publicidade à volta da sua posição.”

Apesar da paixão britânica pela preservação histórica, o recente e enorme afluxo de dinheiro estrangeiro está a mudar a capital, tanto física como socialmente. “O nosso stock georgiano e vitoriano é tão inflexível, é como estando congelado no tempo,” disse Ademir Volic, do Volume 3 Architects. “Estamos a vender esta cidade como uma metrópole toda ela virada para o futuro, enquanto nós ainda não podemos mudar uma simples janela situada numa área a necessitar de conservação. Tudo tem que ser escondido no subsolo.”

É isto o que estão a fazer os plutocratas: a escavar cada vez mais fundo. Maggie Smith, da empresa London Basement, especializada em obras de renovação do subsolo de Londres data esta loucura desde os meados dos anos 90, quando ela notou que havia um número crescente de pessoas que querem renovar as suas velhas e bafientas caves. “Começou-se muito lentamente, com as pessoas a fazerem caves de 30 a 40 metros quadrados, geralmente sob a frente de uma casa normal da época vitoriana em Londres,” disse-nos ela. ” Depois começaram a escavar sob partes de jardins e, em seguida, em toda a área dos jardins, instalando aí poços de luz e pontes em vidro para se ter luz natural.”

Rapidamente construíram centros de recreio no subsolo, salas de simulação de golfe, courts de squash, pistas de bowling, salões de beleza, salões de baile e elevadores de carros para as garagens subterrâneas destinadas a guardar os seus Bentleys vintage. Os mais aventureiros instalavam paredes de escalada e cascatas interiores.

“Eles cavavam fundo, teriam assim uma sala média e uma espécie engraçada de garagem accionada por comando ou até uma piscina”, diz Peter York. “E com isto perturbar-se-ia o lençol freático. Pode-se imaginar o que pensaria disto um velho e antiquado inglês.” Um residente de Knightsbridge — e a tensão é tal que ele se recusa a identificar-se a si própria ou à sua rua — diz que, na sua rua curta de 15 ou 20 prédios ele já sofreu recentemente o impacto de nove renovações em simultâneo.

O magnata da TV por cabo, David Graham, indignou os seus vizinhos, perto de Lennox Mews Gardens, no sul de One Hyde Park, ao querer a autorização para obras para escavar mais profundo do que a altura das casas vizinhas, e isto em toda a extensão por baixo da sua casa e jardim. A Duquesa de St. Albans, uma vizinha, considera estes planos “absolutamente monstruosos e desnecessários.” Até agora, não lhe foi concedida permissão.

Tal como cresceram as renovações, assim cresceram igualmente os conflitos. “Pode parecer que vivemos numa vivenda mas vivemos como sardinhas em latas,” diz Terence Bendixson, da Chelsea Society, uma associação dos moradores do bairro. “Muita gente viveu aqui durante muito tempo, pessoas que não são ricas, que não são banqueiros, que são pessoas de uma sólida classe média e classe alta.” Se dermos um passeio hoje por Knightsbridge (ou se utilizarmos o Google Street View) veremos tantas correias transportadoras a transportarem terra tirada por debaixo das casas que podemos ser perdoados por pensarmos imediatamente a seguir que estamos perante um novo boom mineiro em Londres.

“Economica, cultural e socialmente, Londres deixou agora para trás a Grã-Bretanha, descolando Londres do resto da nação como sendo um enorme OVNI”, diz Neil O’Brien, director do think tank Policy Exchange. “Os políticos, os funcionários públicos e os jornalistas que compõem a classe que governa, molda e faz funcionar o país, a Grã-Bretanha, vivem num outro mundo.” Como diz Abrahmsohn, Londres poderia “facilmente declarar a sua independência. Muitas dessas pessoas muito ricas nem sabem sequer que estas regiões periféricas existem. Não se importam, sequer.”

Na verdade, o abismo é nítido dentro da própria cidade de Londres: um relatório do governo britânico publicado em Janeiro de 2010 estima que 10% dos londrinos mais ricos possuem como riqueza um valor de mais de 270 vezes a riqueza dos 10% mais pobres.

onehydepark - VLegenda: “An electric sliding door (left) effectively seals off the bothersome chatter from Knightsbridge’s hoi polloi. The glass is triple-glazed but not, perhaps disappointingly for some buyers, bulletproof… The curtains (silk, of course) will automatically close if the sun’s glare becomes too much. Entertaining Guests: Never mention the air-con (right). In One Hyde Park’s apartments it’s cunningly concealed and linked to geothermal boreholes that run 140m below street level. See? Tread softly: The two seating areas in the living room are carpeted with Chinese silk rugs, embossed with a geometric pattern designed by Candy & Candy”

“Knightsbridge é uma actividade não-inglesa,” diz-nos York. “O gratinado [a gente de rendimentos mais altos] é uma combinação de velhos milionários, americanos de Knightsbridge que queriam ser como os antigos ingleses muito ricos, plutocratas que queriam conhecer A Forma, as pessoas que não estão aqui por razões que possam ser consideradas engraçadas quanto à origem do dinheiro: todas essas coisas foram completamente apagadas por um género louco de muito, muito dinheiro vindo de além-mar, do exterior. É o dinheiro que está ausente, é o tipo de dinheiro que tem guarda-costas. É o mundo absurdo dos Maybachs e dos Ferraris com as suas características absurdas, é o mundo absurdo dos multimilionários que se comportam como crianças face aos carros expostos no stand e que os compram ao primeiro impulso, ao primeiro olhar, como o faria uma criança face ao objecto que o quer apenas porque o vê. Estas pessoas não têm nenhuma relação substantiva com coisa nenhuma que seja britânica. E é assim em toda a parte: Eu não sou capaz de sublinhar devidamente o que isto representa face ao que nós somos. “

Um Ferrari

onehydepark - VI

Muitos em Londres estão desconfortáveis, não só face ao flagrante exibicionismo da super riqueza, mas também com o aumento do número de moradores ausentes e que são residentes em países estrangeiros. “Aquelas pessoas que compram estas casas, especialmente as maiores, em muitos casos não as compram para viverem cá permanentemente: estas casas são apenas parte de um portfólio, de uma carteira de activos,” disse Bendixson. “Isso não adiciona muita alegria à nossa rua: casas com as persianas corridas para baixo e ninguém a viver lá” diz-nos Edward Davies-Gilbert, da Associação de Knightsbridge, que vê a área deste bairro a ganhar a forma e o sentir de “uma cidade fantasma, povoada por blocos fantasmas.”

Assim é One Hyde Park, onde apenas 17 apartamentos dos 76 vendidos estão registados como sendo moradia principal, assim se tornou-se um totem para o abismo cada vez maior entre os poderosos plutocratas sem raízes em Londres e a restante população.

(continua)

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Para ler a Parte III deste texto de Nicholas Shaxson, publicada ante-ontem, dia 30 de Janeiro, em A Viagem dos Argonautas, vá a:

RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

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