ENDIVIDADA, A EUROPA VENDE AS SUAS EMPRESAS, VENDE A SUA NACIONALIDADE, VENDE ATÉ A SUA ALMA, por ALEXIS TOULON, com adaptação de JÚLIO MARQUES MOTA

Nota de A Viagem dos Argonautas – por lapso nosso, este texto não foi publicado na altura devida, antes do discurso de Obama, que se começou a publicar hoje, 4 de Fevereiro, às 13 horas. Apresentamos as nossas desculpas a Júlio Marques Mota,  a Alexis Toulon, Olivier Passet e Olivier Demeulanaere. Pede-se aos leitores que vejam a nota no fim deste post.

Selecção, tradução, adaptação e introdução por Júlio Marques Mota

A terminar a série de três posts, a viagem ao mundo da dívida sobre Portugal, a viagem que julgo inesquecível ao mundo da gente bem especial em Londres , sobre paraísos fiscais, rematamos esta série com a conferência de Obama sobre a desigualdade. Um outro ar, um ar fresco, contrariamente ao ar fétido com que a Comissão Europeia infesta todo o nosso continente, um discurso que expressa um projecto de vida, de sociedade, de país, de continente, nas antípodas da destruição que Barroso, Presidente da Comissão Europeia, Schauble, ministro das Finanças da Alemanha, Jens Weidmann , Presidente do Bundesbank, Mário Draghi, Presidente do BCE, eventualmente acompanhado por esse ignorante que tem como função ser Presidente do Eurogrupo e cujo nome quero ignorar, estão sistematicamente a organizar.

A lembrar esta destruição antes de apresentarmos o texto de Obama veja-se o texto que se segue, para refrescar a memória.

Endividada, a Europa vende as suas empresas, vende a sua nacionalidade, vende até  a sua alma  

Olivier Passet, Xerfi, Júlio Mota, A Viagem dos Argonautas

ante-ObamaPublié le 27 janvier 2014 par Olivier Demeulenaere

 http://olivierdemeulenaere.wordpress.com/2014/01/27/endettee-leurope-vend-ses-entreprises/

As privatizações multiplicam-se na União Europeia. Agarrados pelo pescoço, os governos sacrificam as suas indústrias nacionais.

A crise da dívida assusta os governos europeus. Forçados ao rigor, os países estão–se a esforçar por encher os seus cofres e até porque devem limitar os seus recursos aos mercados financeiros para levantarem fundos. Então, para encontrar dinheiro fresco, eles vendem as suas participações em empresas totalmente ou parcialmente públicas. Uma onda de privatizações que afecta tanto a Inglaterra como os países do Mediterrâneo, como a Itália, a Grécia, Portugal, Espanha, e em  sectores tão variados como os Correios, os portos, os aeroportos, as redes de distribuição de energia, a empresas nacionais de electricidade,  ou até  mesmo as funções da polícia . O exemplo português está bem presente na memória de todos nós para valer a pena falarmos dele. Ficamos sem nada, delapidámos e continuamos a delapidar o que ainda resta, as jóias da coroa como se diz, depauperados, com muito menos meios económicos para sair  da crise e ainda por cima  com o peso da dívida a disparar.

A Itália delapida as suas empresas estatais. Com uma dívida de mais de 133% do PIB (mais de 2.100 mil milhões de euros), a Itália decidiu no final de Outubro passar a vender as suas participações em empresas, em que algumas delas têm missões de serviço público. O ministro italiano da Economia, Fabrizio Saccomanni, anunciou durante o Fórum Económico Mundial, em Davos, a intenção do governo de privatizar os correios italianos. ” Espera-se começar com 40%, e depois vamos ver”, disse o ministro. O Estado espera recuperar “6,7 ou 6,8 milhares de milhões de euros sobre os 12 milhares de milhões anunciados no final de Outubro.

A França rola sobre alcatrão privado. Se o Estado financiou a construção de auto-estradas francesas, desde 2006 vendeu todas as suas participações nas principais redes de auto-estradas agora que estas começavam a ficar altamente rentáveis. Desde então, os utilizadores vêem o preço das suas viagens a aumentar de forma regular. Outras empresas, como a Electricité de France, a Gaz de France e os Aeroportos de Paris (ADP) foram parcialmente privatizadas entre 2005 e 2007. Regularmente, como em Abril de 2013 com a EADS, o Estado cede uma parte de seus activos aos grandes grupos.

A Inglaterra não tem limites. A situação britânica é menos severa do que a de muitos dos seus vizinhos europeus. Isso não impediu David Cameron de aplicar uma severa austeridade e de cortes nos orçamentos públicos. No entanto, não havia muito a ser privatizada na Grã-Bretanha depois do período de Thatcher. Então, o governo voltou-se para a polícia a fim de reduzir o seu orçamento em 20%. Uma parte das suas prerrogativas passaram a ser confiadas a empresas privadas. Esta medida é acompanhada de numerosas supressões nas forças da ordem, 2.764 postos de trabalho em três anos apenas para West Land. [E entretanto há infra-estruturas que não se criam ou se esperam que venham os capitais estrangeiros a criar, porque o país está endividado. O exemplo dos Jogos Olímpicos de Londres é bem um exemplo, com grande parte das infra-estruturas a serem privadas, de que a Inglaterra como Estado na mão destes liberais está pura e simplesmente de tanga, incapaz de gerar riqueza nem no presente nem no futuro, a depender dos capitais líquidos estrangeiros, maioritariamente chineses para a criar com o trabalho inglês. Esquecendo-se, com os diabos, que capitais líquidos, em-si mesmos não são riqueza, são apenas a possibilidade desta poder ser gerada da mesma forma que o poderia fazer o governo inglês, trocando títulos de dívida pública por dinheiro fresco com o BoE, para investir a seguir em infra-estruturas de forte componente em produção nacional. Mas não há vontade política]

Malta vende a nacionalidade europeia. Solidária, Malta decidiu estender a mão aos seus (ricos) vizinhos do sul. Para encher seus cofres e manter os seus compromissos europeus , a ilha quer vender a nacionalidade europeia a quem der mais. Uma solução que ofuscou os deputados. A cidadania europeia não deve ter um preço, lembrou o Parlamento Europeu numa resolução aprovada em 16 de Janeiro. Uma afronta de empréstimo quando se considera que muitos Estados, entre os quais a Áustria, Reino Unido, Espanha , Bulgária e Hungria oferecem autorizações de residência permanentes para os mais generosos investidores. [E no caso de Espanha deveríamos ainda falar do Projecto de Las Vegas Sands Corporation que irá transformar Madrid no maior bordel da Europa e igualmente no Macau Europeu, onde até a legislação sobre o trabalho e sobre os jogos irá ser modificada para corresponder…aos desejos de Las Vegas Corporation. Madrid, como uma boa puta quer sobretudo dinheiro, sob o olhar sereno de Bruxelas. Mas não só os países citados vendem a sua nacionalidade. Portugal já pertence ao mesmo lote de vendedores. Mas a Europa a partir de Bruxelas não se distingue das putas ou possivelmente assume-se com muito menos dignidade que elas. Com efeito, muitas delas são, pela precariedade a que a sociedade as condiciona, empurradas para esse modo de vida. No caso europeu, a prostituição dos Estados membros é uma opção política sob a batuta de Bruxelas uma vez que BCE, Comissão Europeia e Bundesbank optaram não pelo relançamento das economias, sobretudo das economias excedentárias, optaram antes por políticas de austeridade e incompatíveis, portanto, com o crescimento económico; optaram igualmente não pela eliminação da especulação sobre os Estados mas antes pelo contrário, alimentaram sucessivamente os rumores para que esta especulação atingisse dimensões incalculáveis em qualquer sítio governado por gente competente ou apenas honesta que seja, não, decidiram antes optar por ficarem na dependência dos rating que ninguém sabe como é que se calculam e dos mercados financeiros. Em face dos resultados a prostituição dos Estados membros em saldo, em tudo e até na nacionalidade, deve ser vista então como um produto desejado de Bruxelas. Mas a prostituição vai mesmo muito maios longe. Veja-se o espectáculo degradante à volta dos quadros de Miró, veja-se o papel curioso de Francisco Nogueira Leite, inserido na mesma lógica, veja-se a pressão para se desfazerem do que é publico. Veja-se igualmente a prostituição a um outro nível. Dir-se-á que as prostitutas vendem o seu corpo, pois bem, o Governo Português quer que nós lhe vendamos a alma. Veja-se o anúncio que acabo de ver a propósito a propósito dos sorteios de carros pelo Fisco a quem…concordar no fundo com a política fiscal seguida. O prémio da concordância. Visconti no seu filme Os malditos mostra e explica bem o que isto significa].

A Grécia, um pobre falido. A falência da Grécia foi o símbolo da crise da dívida europeia. Agarrado pela garganta, o Estado grego está sob a tutela da Troika (BCE , FMI , Comissão Europeia) e é obrigado a desmantelar os serviços públicos , a fim de receber planos de assistência de vários milhares de milhões de euros. Para encontrar 50 mil milhões de euros até 2020, o Estado vendeu as suas acções em diversas empresas , como a operadora telefónica a OTE. A lotaria nacional grega, as minas de níquel, o porto de Piraeus aguçou o apetite dos investidores [e naturalmente foi oferecido à China, a futura potência ocupante da Europa] . Destaque deste leilão digno de Mont-de-Piété, é o facto de ter sido posto à  venda uma lista de 47 ilhas e ilhotas desabitadas que pertencem ao Estado.

Alexis Toulon, Europe 1, a 24 Janeiro de 2014; Júlio Marques Mota, 3 de Fevereiro de 2014

http://www.europe1.fr/Economie/Endettee-l-Europe-vend-ses-entreprises-1781495/

Depois disto, partilhemos os anseios de Barack Obama quanto ao conceito de identidade nacional, de sonho americano, de igualdade. E assim se quer voltar a recriar um país, como assim se poderia recriar a Europa dos cidadãos, a Europa que os neoliberais desprezam.

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Para ler a primeira parte do discurso de Barack Obama, na tradução de Júlio Marques Mota, e que começou a ser publicado em A Viagem dos Argonautas hoje às 13 horas, vá a:

A DESIGUALDADE, A QUESTÃO QUE CARACTERIZA O NOSSO TEMPO, por BARACK OBAMA

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