Quer se queira ou não, Sidónio Pais foi um dos casos mais curiosos de popularidade em toda a história da I República. Para alguns, ainda é hoje considerado «o caso mais notável de carisma em Portugal e mesmo na Europa» (1)
Odiado por uns, combatido por outros e atacado por tantos, Sidónio Pais era, no entanto, extraordinariamente amado por multidões que o aclamavam numa entusiástica loucura.
Para Raul Brandão, havia nele uma distinção que os outros não tiveram; um não sei quê, que atraía os homens e principalmente as mulheres.
«Era uma figura alta, distinta, adorado pelas mulheres, e que não conseguia passar sem saias à sua volta.» (2)
«A sua fisionomia insinuante tinha a palidez do mármore pantélico, brunido pelos beijos quentes da luz helénica. A boca rubra e voluptuosa era esculpida em recorte amoroso pela asa alada do Deus Cupido» — assim o descreve Maria Feio, que o venerou com um pequeno livro, Sidónio Pais através do Coração, onde Sidónio é o Grande Amoroso e o homem sonhado em qualquer leito de mulher apaixonada.
Estava separado da mulher, que continuava a viver em Coimbra, mas não lhe faltavam companhias femininas. A condessa de Ficalho era, sem dúvida, a mais frequente.
Nas mulheres, estrato em que predominava um analfabetismo na ordem dos oitenta por cento, encontrava Sidónio a grande força do seu carisma.
António de Albuquerque, conhecido autor de O Marquês da Bacalhoa, descreve esta faceta da vida de Sidónio Pais num pequeno folheto com o título Sidónio na Lenda:
«A causa fundamental do rápido engrandecimento do herói de pechisbeque gerou-a o mistério lascivo das mulheres, de quem Sidónio se tornara o ídolo ambicionado e temido, graças à sua velha reputação de irresistível sedutor de fêmeas, semeando paixões, desgraças e ciúmes, não poupando as esposas dos seus condiscípulos de Coimbra, espécie de D. Juan das tricanas da alta e das burguesinhas da baixa.
Esta tristíssima fama foi-lhe granjeada por uma escandalosa aventura, que dissolvera uma família e foi causa dos maiores tormentos e desgraças.
A imobilidade da sua face de degenerado», prossegue o autor de O Marquês da Bacalhoa, «o fino bigode à Kaiser, o frio olhar impenetrável e uma certa elegância no andar, apaixonara lascivamente todas as fêmeas atacadas de lúbrico histerismo. Depois, ele — dizia-se à boca pequena entre sorrisinhos de cobiça — era um forte, um incansável nas lides do amor! Qual seria, pois, a mulher que não pretendesse experimentar a sua virilidade de másculo?» (3)
A fama de Sidónio era de tal ordem que nos tempos de Coimbra alguns amigos chegavam a dizer: «A Sidónio pode-se confiar tudo, menos a mulher!»
Contam-se histórias à volta da «perdição das mulheres» por Sidónio Pais, que vão desde a esposa fiel que não hesita em denunciar o marido, oficial do Exército envolvido numa conjura que visava raptar o presidente durante o Concurso Hípico de Palhavã e levá-lo depois para o Forte da Ameixoeira (4), até um outro caso, relatado por um filho do coronel Sã Cardoso, que envolve uma atraente dama a servir simultaneamente de amante de um oficial preso no Forte da Graça, em Elvas, e do tenente Vinagre, da Polícia secreta sidonista (5)
Uma outra peripécia da vida amorosa de Sidónio Pais é-nos contada pelo jornalista Rocha Martins, nela ressaltando que nem sempre os negócios de Estado encontravam vaga no tempo libidinoso do presidente.
Rocha Martins dá conta de que certo dia um ministro (provavelmente Tamagnini Barbosa) teve necessidade de se deslocar ao Palácio da Pena com documentação urgente para o presidente dar despacho.
O ministro esperou… esperou, e Sidónio nada!
Ao fim de aguardar um bom par de horas, o ministro consegue, por fim, entrar no gabinete do presidente, mesmo a tempo de ainda ver escapulir-se a «saia» que lhe fizera esperar tanto tempo.
Sidónio tinha sempre a sua residência em Sintra cheia de senhoras, que ali passavam as suas férias de Verão. «Era para trabalhar em obras de beneficência», diz-nos Jesus Pabón no seu livro A Revolução Portuguesa, p. 311.
A condessa de Ficalho, que não perdia uma destas oportunidades de estar com Sidónio, escreve:
«Depois de nos fazer trabalhar tanto quanto podíamos… e mais, bastava um sorriso dele e esquecíamos todo o cansaço; estava tudo pago.»
É claro que as más-línguas, como sempre, não podiam faltar.
O autor de Sidónio na Lenda jura a pés juntos que o presidente alojara pelo menos uma concubina francesa no Palácio da Pena, e que só queria dormir na cama do ex-rei D. Manuel, de onde apenas tinham sido mudados os lençóis.