UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (29)

CARTA DO PORTO

A PRIMAVERA, O DIA DO PAI E UNS PETISCOS

.

Contrariamente ao que muitos pensam, a Primavera não começa sempre no mesmo dia. Umas vezes é a 21, na maior parte dos anos é a 20 e há até alguns anos em que começa a 19 (assim será em 2044 e 2048). Nos últimos quatorze anos, só duas vezes (2003 e 2007) começou a 21, e não voltará a verificar-se o equinócio (data em que se convencionou que a noite tem a mesma duração do dia) da Primavera, nesta data, até 2050.

Neste ano de 2014, começou hoje, 20 de Março, às 16h54m, e daqui para a frente, e até 21 de Junho (solstício de Verão), os dias vão crescer, e a noites, minguar. Antes disso, a 30 de Março, vai mudar a hora. Vamos entrar no horário de Verão. Quando, nesse dia, os relógios estiverem a dar uma hora, como que por milagre, passam a dar duas.

 

Entretanto, ontem foi dia do pai, e não tendo eu já, a quem dar qualquer prenda, e estando os meus filhos, uns, espalhados pelo mundo e, outro, em aulas durante todo o dia, decidi dar-me uma prenda.

Talvez pelo afastamento que a vida me impôs, não ligo nada aos dias marcados para se ser feliz. Não é, nem nunca foi, o calendário, que me impôs o ritmo da alegria ou da tristeza. Não é, nem nunca foi, o calendário, que me mostrou de quem me devo lembrar ou a quem devo mostrar os meus sentimentos, embora, esse maldito calendário me tenha feito muito jeito, uma ou outra vez, para me lembrar de não me esquecer.

Se os nossos filhos se não lembrarem de nós nos restantes dias do ano, se nós não nos lembrarmos deles, ou dos nossos pais, ou de seja quem for que supostamente nos seja querido, nos restantes dias do ano, para que serve a lembrança nestes dias? E estes dias, do pai, da mãe, dos avós, das crianças, do gato e do cão, marcados indelevelmente no calendário, supostamente para o bem comum, para que têm servido que não seja para alimentar o consumismo?

Mas o comércio (de toda e qualquer espécie) precisa de efectuar negócios para poder ganhar dinheiro, pelo que parece que tudo lhe é permitido fazer. Assim, o apelo às compras vergasta-nos a todo o momento e em todo o lado, entra-nos abusivamente pela casa dentro, apelando a que nos endividemos, pois que, de acordo com a publicidade agressiva que hoje grassa, só assim poderemos mostrar aos nossos pais, filhos, avós, maridos, mulheres, amantes, etc., o quanto os amamos.

Ora, batatinhas!

Enfim, num dia tão lindo como ontem esteve, decidi, presentear-me.

Coisa muito simples, como se impõe a quem, por dever do ofício dos outros, passa o dia sozinho. A minha mulher é uma das felizardas que ainda tem emprego, e tem um local e horário fixos, e a maior parte dos meus amigos também. A prenda, singela como disse, teria que ter a ver com algum prazer. E que melhor prazer existe que o da boca?

Parti com os meus pensamentos para o centro da cidade.

A escolha afigurou-se difícil. Era já quase meio-dia e eu ainda não tinha decidido o que queria comer, e, pior ainda, onde.

Ao fim de umas quantas cogitações, decidi que iria a um local novo. Um que eu ainda não conhecesse.

A escolha afigurou-se ainda mais difícil. O que mais há no centro do Porto, são restaurantes, tascas, tabernas, casas de bom comer e petisqueiras. E, tenho aquilatado, de muito boa qualidade.

.

Percorri Santa Catarina.

R. Santa Catarina

R. Santa Catarina

Espreitei a Rua de 31 de Janeiro.

R. 31 de Janeiro

R. 31 de Janeiro

Fui à Batalha, e vi a Praça, o Rei, o Teatro, o Cinema, a Igreja e as pessoas.

Praça da Batalha

Praça da Batalha

Praça da Batalha - Igreja de Santo Ildefonso - Cinema Batalha - Águia dÓuro

Praça da Batalha – Igreja de Santo Ildefonso – Cinema Batalha – Águia dÓuro

.

Apetecia-me comer carne, decidi.

Tinha ouvido falar de um restaurante na Rua de Santo Ildefonso, já muito próximo da Praça dos Poveiros, que só servia pregos, ou quase. Muito bons, disseram-me na altura. Eram uma especialidade!

A fome já começava a apertar e lá me dirigi para o dito espaço.

Ao passar na Praça dos Poveiros lembrei-me de que já há semanas atrás tinha ido para aquelas bandas, tendo acabado por petiscar num local novo, para mim, que muito me agradara. Esperei voltar a ter a mesma sorte, coisa que, se bem pensasse, quase não seria necessária, dada a óptima reputação da nossa região, também nessa matéria.

Carro estacionado numa sombra ao lado do Jardim de São Lázaro, moedinha metida no parquímetro e sem arrumador à vista, máquina fotográfica no bolso, e lá fui, com o estômago a dar horas.

Foto Internet

Foto Internet

O Restaurante em apreço era o “Venham mais 5”. Uma taberna muito bem arranjada e arejada, cujo nome tem a ver com a letra de Zeca Afonso.  O proprietário quer incentivar à mudança, à luta. “Temos que criar, temos que lutar, temos que modificar o país”, diz!

Quando cheguei, já passava do meio dia e meia, a casa estava quase cheia. Lá me arranjaram uma mesinha a meio da sala.

Pedi um prego e um fino. Nem sabia bem se havia mais coisas. Vi depois que sim, sopa, petingas, doces, e outras coisas de babar.

foto Internet

foto Internet

O prego, de lombo de boi, chegou, suculento, e com queijo tipo serra, no meio da sanduiche. Nunca tinha comido uma mistura assim. A água cresceu-me na boca só de olhar e de sentir aquele maravilhoso odor. Trinquei o pão, e os sinos tocaram. Delicia das delícias, a carne bem tostada por fora mas em sangue, o queijo derretido espalhando-se por todo o lado, o pão bem torrado. Mesmo a meu gosto! Tive de me conter para não mandar vir outro prego, assim que terminei aquele. Fiquei cliente. Não irei demorar muito tempo até voltar.

O serviço foi razoável, não estragando, de modo algum, a vontade de regressar, e a condizer com o espaço, e na hora de pagar, foi apresentado um preço justo e comedido. Recomenda-se vivamente esta casa de bem comer, até para se experimentarem outros petiscos e outras bebidas (bebi cerveja, bem tirada e na temperatura ideal), já que me disseram terem sangria (huuummmmm!).

.

A PRÓXIMA CARTA DO PORTO SAIRÁ NO DIAS 26/3 ÀS 20H.

A ALTERAÇÃO DEVE-SE AO FACTO DE O DIA 27  DE MARÇO SER O “DIA DO TEATRO” E “A VIAGEM DOS ARGONAUTAS” IRÁ TER UMA EDIÇÃO ESPECIAL DEDICADA AO DIA

.

ENTRETANTO, DE NOVO E MAIS UMA VEZ, VÃO ATÉ À PRAÇA DAS CARDOSAS.

VAI VALER A PENA!

urbam market

About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

9 comments

  1. Maria Carmo Duarte

    Gostei muito! Obrigada por me deixar deliciar com a sua escrita.

    Gostar

  2. Maria Mamede

    Como sempre, gostei das suas deambulações e das suas decrições, algumas delas bem poéticas, diga-se…e clar, gosto muito das suas sugestões em relação a pratos e restaurantes, de todos os tipos, principalmente onde se come bem e razoaveis em termos de preço. Gosto das suas descrições, simples e precisas, que nos fazem ver ou adivinhar os lugares por onde passa.
    Parabéns!
    Abraço
    Maria Mamede

    Gostar

  3. Albertia Eudora Silva

    Gostei das suas considerações sobre os “dias de celebração” marcadas por calendário e estou plenamente de acordo. Achei muito interessante a descrição do seu roteiro para chegar ao restaurante, dando ocasião de nos apresentar lindas imagens da cidade.
    Parabéns! Abraço amigo,
    Eudora..

    Gostar

  4. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (29) | joanvergall

  5. betharr

    ad orei ver a cidade pelos teus olhos. qto à comida disse-me um lisboeta amante de São Paulo que ‘come-se muito bem em Portugal’. viajar virtualmente através das imagens é bom mas um bom prato somente in loco. necessito navegar.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s