Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
François Hollande, le nécessaire pyromane.
http://lebondosage.over-blog.fr/article-fran-ois-hollande-le-necessaire-pyromane-122544673.html
Parte I
Como o tempo passa depressa. Como este blog é mantido de forma irregular e o seu autor um preguiçoso. Admito-o, exagero ligeiramente a ausência que se impregna entre cada uma das minhas intervenções. Para ser claro, uma lassitude geral dos negócios políticos e económicos instalou-se dissimuladamente em mim. A impressão de escrever no vazio e de ter dado a volta às coisas têm substituído o entusiasmo e a verve de batalha. No entanto mais que nunca enquanto a França se afunda na degenerescência liberal, as vozes ligeiramente subversivas e racionais devem fazer-se ouvir. A obstinação com a qual os pseudo-socialistas e a nossa antiquada elite se fecham na ineficácia macroeconómica é muito simplesmente espantosa. Há já alguns tempos já que eu tinha imaginado o cenário que se desenrola sob os nossos olhos. Eu tinha mesmo bastante criticado o Hollandisme revolucionário de Emmanuel Todd fazendo de Hollande o braço armado do neoliberalismo doutrinário. Devo confessar que mesmo esta hipótese, ainda que me parecesse mais provável, mergulhava-me na apreensão.
Mas força é de constatar que a realidade excede sempre as nossas piores hipóteses. François Hollande é assim um zelota do neoliberalismo mais terrível ainda do que eu nos meus piores pesadelos poderia imaginar. E neste sentido, é uma boa notícia, porque a hipótese que possa mergulhar a Europa na recessão é igualmente favorecida. Recordarei aqui que, pela minha parte, a única possibilidade para que um rompimento da zona euro se possa verificar será através da acção alemã. Pela sua submissão e pelo seu ódio ao seu próprio povo, as elites francesas não podem nunca e em nenhuma situação agir no sentido dos interesses do país. É precisamente esta sua obstinação em estar a desfazer a nação francesa que é paradoxalmente a melhor possibilidade de salvação a longo prazo para o país. Mas eu voltarei a este assunto mais tarde.
O não-sentido económico da hipótese liberal
Vou recordar aqui resumidamente porque é que as políticas da oferta não podem em nenhum caso funcionar. François Hollande, como todo o muito bom liberal que se respeita, não imagina o mundo feito de nação de povos, e de interacções entre estes diferentes povos. Os neoliberais são cartesianos extremistas. Eles analisam o mundo como o resultado da montagem lógica das mais pequenas partículas que fazem funcionar a sociedade, a saber, o indivíduo. Na lógica liberal, existe apenas o indivíduo, nada de outra coisa. É necessário compreender verdadeiramente bem esta hipótese de partida para efectivamente apreender o malogro cultural que produz o pensamento liberal e o seu corolário extremista: o neoliberalismo.
Trata-se de uma forma chanfrada de cartesianismo, este último um método de pensamento que descortica a realidade em pequenas partes para explicar o funcionamento pela montagem a posteriori. O liberalismo age da mesma maneira segmentando a sociedade em acções individuais e ao reuni-las depois supõe que pode explicar o conjunto total do funcionamento da sociedade. Este método cartesiano aplicado à economia prova-se infelizmente falso, porque esquece uma hipótese que nunca é verificada no mundo real. A da independência das variáveis. Para que a afirmação liberal seja justa, seria necessário que o conjunto que compõe a sociedade não interaja em nenhum caso com as partes distintas que a constituem. A hipótese liberal pressupõe por conseguinte que a sociedade não influencia em nenhum caso o indivíduo que, de facto, dela faz parte. Convenhamos, que aqui um simples estudo da história humana, o simples conhecimento básico em psicologia ou o simples conhecimento do mundo que nos cerca são o suficiente para infirmar esta hipótese absurda.
Ainda uma vez mais, tudo decorre dos axiomas neoliberais básicos. Reduzindo a sociedade a um conjunto de indivíduos que agem apenas em função dos seus próprios interesses, não pode compreender a impossibilidade que há em resolver a crise actual. Porque esta crise não é o fruto do azar do azar ou de um sistema político que se teria previamente enganado, [ não é um azar que se complica com o azar de termos agora políticos incompetentes] . Não é também não o fruto de uma característica natural própria ao povo francês. A crise económica actual é o resultado da aplicação de políticas económicas erradas ligadas estas a uma visão do mundo completamente contrária ao seu funcionamento real. Para o dizer mais cruamente, somos dirigidos por pessoas que têm uma visão do mundo tão próxima do real como a dos astrólogos dos marabus ou os membros da igreja cientologia. Uma das numerosas consequências desta visão errada do mundo é a famosa política da oferta. Uma política económica que demonstra pelo absurdo a inanidade e a ausência de compreensão geral dos homens políticos franceses e mais geralmente ocidentais.
Esta política consiste em melhorar a sacrossanta competitividade do país para melhorar a situação da balança de pagamentos. Pressupõe de resto que o motor da economia seja o comércio. Enquanto que na verdade é essencialmente o investimento que é o motor do crescimento. E o investimento pode ser estimulado também por uma outra coisa que não as exportações. Mas ignoremos isso e vejamos que método é que a política da oferta utiliza para relançar o crescimento. Trata-se de reduzir ao máximo o custo local do trabalho ou seja pela baixa salarial que implica um controlo dos salários distribuídos, controlo este que nenhum país desenvolvido possui. Vê-se mal o Estado a impor a todos os assalariados uma diminuição dos rendimentos. Este tipo de política traduz-se na prática pela baixa dos salários mínimos, quando existem, e pela baixa dos salários dos funcionários. O segundo método é a baixa dos encargos diversos que se aplicam às empresas. Trata-se bem frequentemente de degradar as contas do Estado e o investimento público esperando que a simples baixa dos encargos das empresas permita um aumento mesmo efémero das exportações. E por fim, o último método e mais eficaz consiste em fazer uma desvalorização monetária. Estas políticas são supostas permitirem relançar o crescimento estimulando o investimento pela via da expansão das exportações.
Como a cada raciocínio simplista e pseudo-cartesiano isto implica duas hipóteses nunca postas na mesa pelos defensores destas políticas. Em primeiro lugar, é necessário supor que há um mercado externo para absorver a oferta adicional e em quantidade suficiente. E é necessário esperar que esta política não seja seguida por outros países. Dado que várias nações põem-se a fazer a mesma política da oferta, reencontra-se-são rapidamente a fazer uma guerra e uma corrida à redução da procura [interna]. Em segundo lugar, é necessário esperar igualmente que os lucros gerados pelos excedentes comerciais, e as exportações, ultrapassem os efeitos da redução da procura interna [ e dos lucros obtidos pelos produtos vendidos internamente]. Porque, no caso contrário, as políticas da oferta produzem o efeito oposto ao efeito desejado, diminuindo o investimento global do país. São bem recentes os exemplos espanhóis e gregos em que se mostra que as políticas da oferta degradam, na prática, mais frequentemente do que melhoram o investimento local. E quando estas políticas são generalizadas ao planeta inteiro, a deflação nasce naturalmente. Cada um procura dinamizar o crescimento à custa do défice comercial do vizinho. Não se poderia explicar ou exprimir melhor a catástrofe que representa o espírito liberal na sua capacidade de produzir regularmente deflações. Fê-lo e com que talento, nos anos 30. Recomeça de novo, hoje. Notar-se-á de passagem que efectivamente indiquei que as desvalorizações fazem parte dos métodos para praticar a política da oferta. E é bem por isso que se pode ver por aqui ou por além um ou outro economista neoliberal a preconizarem esporadicamente a saída do euro e a desvalorização. Mas se defendo eu próprio a desvalorização e a saída do euro, não é certamente para fazer uma política da oferta à japonesa, bem pelo contrário. Porque desvalorizar simplesmente para aumentar o seu crescimento em detrimento do vizinho, aqui está claramente ma política que não nos levará muito mais longe do que a política que actualmente aplicamos.
Neste sentido, os europeistas têm razão de zombar daqueles[1] que querem sair do euro para simplesmente desvalorizar. Porque à imagem de que se passou nos anos 90 a guerra das moedas não é necessariamente melhor que a agonia no euro. Justamente poderíamos pôr um fim nas pretensões dominadoras da Alemanha sobre o continente[2]. Mas não é este o desafio e o nosso objectivo como nação, pois não nos devemos reduzir à simples vingança nacionalista. Se devemos libertar-nos do constrangimento monetário europeu, é sobretudo para poder efectuar políticas de relançamento da economia e de controlo sobre a procura. Mas para isso não é necessário simplesmente romper com o euro e a UE, é necessário romper com a tranquilidade de espírito do neoliberalismo. É necessário romper com a ideologia de tudo ao mercado e à auto-regulação económica. Romper com a crença que a soma dos interesses individuais gera o interesse colectivo. É uma ruptura coperniciana que é necessário realizar e isto vai bem mais longe do que a simples ruptura com um instrumento monetário absurdo.
(continua)
______
[1] N. T. Aqui, a critica dirige-se a todos, neoliberais ou o seu oposto, àqueles que vêem a desvalorização como o remédio para a crise.
[2] N.T. Podemos concordar , e concordamos, com o autor, de que a saída da crise será a de criar uma outra Europa, um outro projecto de integração, uma outra vontade política de fazer as coisas, em suma uma outra arquitectura europeia. No caso de tudo isto não ser possível, a saída da Alemanha será então a menos má de todas as hipóteses e esta fá-lo-á a continuarem as coisas como estão. Simplesmente os efeitos colaterais poderão ser graves, pensamos nós.


Oh! Júlio, Ainda lhe puxam fogo! ahahahahahahaha