Não sem razão, algumas vozes têm manifestado grande perplexidade relativamente ao silêncio dos escritores perante o quotidiano do país, sem que o peso desse quotidiano encontre ecos nos textos produzidos. Com raríssimas excepções, os autores parecem anestesiados e em crise de ideias susceptíveis de intervenção activa e crítica contra o discurso propagandístico, e não raro contraditório e incoerente, que a cada momento é difundido como se os cidadãos fossem desprovidos de inteligência.
É claro que todos os dias chega às livrarias uma enorme quantidade de textos (nunca a produção foi tão fecunda!) mas a grande massa desses livros pertence à categoria do que já foi designado por “literatura-lixo” e de evasão sem qualidade. E se a ficção traduz por vezes reflexos de um tecido social português – lembro aqui o caso de Nuno Júdice com o romance “A Implosão”, ou o de Lídia Jorge com o recentíssimo “Os Memoráves”, não esquecendo Rui Zink e alguns mais – é talvez o discurso poético a manifestar um maior alheamento a temas e problemas que deveriam tocar a sensibilidade dos poetas, os quais não deixam de ser cidadãos convocados para o debate de ideias e para uma intervenção contra a resignação e o conformismo que transparecem com estranha naturalidade nos vários meios de comunicação social, sem respeito e sem pudor pela dignidade dos ofendidos. Por isso é de relevar o discurso de Luís Filipe Castro Mendes: «Dói-nos a vida, mas dizem-nos que merecemos,/ porque pensámos em viver do mesmo modo/ que as pessoas que pensam que estão a pensar/ e falam na televisão. […] O quotidiano não cega: nós/ é que estamos distraídos.» (“A Misericórdia dos Mercados”, p. 24).
É por esta razão que saúdo o livro de Luís Filipe Castro Mendes, recentemente publicado pela Assírio & Alvim, até porque, para o autor, «a poesia não se dá, arranca-se à vida e segue-se em frente» (p. 39). Já desde “Recados” (1983) que este poeta, diplomata de carreira, experimenta a renovação da escrita poética, questionando as relações entre o “eu” e o “outro”,considerados socialmente. E no seu penúltimo livro (“Lendas da Índia”, D. Quixote, 2011) irrompe, sem surpresa, a sequência “Canções do exílio: memória de Abril”, onde no poema “Memória pessoal” se inscreve a invocação de um tempo desamado dos “papéis colados pelos muros/ na policiesca noite de Lisboa».
Em “A Misericórdia dos Mercados”, porém, o sujeito recupera a involução política e social que se foi instalando na prática do engano e do “arrangismo”, e enuncia o discurso que progressivamente se foi levantando por parte de “Os derrotados de Abril”: «Preferiam a guerra, os anos de cinza,/ a morte devagar distribuída/ e os muros pintados a cal.// E eles pensam: terá voltado a nossa hora?[…] Seja como for, por caminhos ínvios/ ou por mecanismos que não se entendem,/ mas que filhos de gente conhecida explicam,/ ainda que fiquemos sem o nosso dinheiro,/ o importante é que os pobres vão perder a grimpa/ e o arrojo:/ o nosso tempo voltou» (p. 82).
Numa sequência coerente, o Autor insere imediatamente um conjunto de poemas sob o título “Os dispensáveis”. E se o primeiro parece envolver de forma irónica uma questão supostamente autobiográfica («Demoro pouco, deixei uns versos./ Sustentarem-me é um desperdício.», p. 83), outros exemplos ampliam criticamente a prática “troikiana” deste tempo maldito: «Pertenço a uma odiada seita/ que professava no serviço público.» (p.84); «Cercam-te os dias que deixaste passar/ como embalagens de plástico numa lixeira» (p. 86); para concluir a série com um belíssimo poema, não por acaso intitulado “Soneto funcionário”: «Agente que sou vil do desperdício,/ funcionário sem rosto e sem vergonha,/ pior que lama reles, meretrício,/ redundância fatal que nem se sonha// nos piores pesadelos das Finanças,/ imagem que o desprezo fez profundo» (p. 87).
E ainda noutros lugares é explícito o discurso que propõe a resistência e a dialéctica do “não”. Basta ver o poema que dá o título ao livro (“A misericórdia dos mercados”) ou o emblemático texto “Modos de produção”: «Os mercados não investem na alegria:/ o sangue, o suor, as lágrimas,/ já não como matéria de heroísmo,/ mas como modo de legitimação moral/ da especulação financeira» (p. 80). Tudo meios expressivos para amplificar o que já estava inscrito no seu anterior livro: «Se nada podemos fazer contra a estátua de pedra/ ou de sal/ em que nos querem transformar,/ ao menos deixemos ficar o grito/ dissonante/ da nossa recusa,/ com toda a raiva e o amor que os brutos não entendem» (“Lendas da Índia”, p. 144). E a liberdade de manifestar a nossa resistência ainda pertence ao código cultural do escritor, que, enquanto tal, assume o compromisso da dignidade da sua própria palavra.