ESTES OUTROS CHIPRE QUE AMEAÇAM A EUROPA – por EMMANUEL LÉVY e HERVÉ NATHAN

 Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Estes outros Chipre que ameaçam a Europa

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EMMANUEL LÉVY E HERVÉ NATHAN

Marianne, 10 de Abril 2013

O modelo de Chipre, com um sector financeiro hipertrofiado submetido aos  capitais estrangeiros, está longe de ser um caso isolado entre os 27 membros. Uma passagem em revista  sobre as ” economias de casinos” que são verdadeiras bombas ao retardador,  que o Eurogrupo terá de desactivar..

outro chipre - I Longa fila de espera diante da filial do  banco Laiki em Chipre, Março de 2013 – Pavlos Vrionides/AP/SIPA

Para o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaüble, a questão de Chipre é simples: o país não teria simplesmente o bom modelo de actividade económica. A razão de todos os males que arrasam a pequena ilha mediterrânica que entrou para o euro em 2008, será então a qual ? A hipertrofia do sector financeiro. E, na verdade, Chipre vive – vivia sob o peso, devemos dizer, uma vez que o paraíso fiscal se destina  à falência – do dinheiro dos bancos estrangeiros.

Não menos de 58,5 mil milhões de euros representando 2,5 vezes o PIB do país. Mas Chipre será então um “caso excepcional”, como lhe chamou Benoît Cœuré, vice-presidente do BCE? Bem, não! «Economia de casino», nas palavras de Pierre Moscovici, existem muitos outros na Europa, referenciadas pelo FMI desde, em 2007, antes da crise.

Como Chipre, o seu sistema financeiro hipertrofiado representa várias vezes a sua riqueza nacional e é minado fortemente pela corrupção, pelo dumping fiscal e pela regulamentação laxista.

Pois, já  que o Presidente do Eurogrupo, o holandês Jero Dijsselbloem, afirma que “a solução para Chipre servirá de modelo  para futuras reestruturações bancárias na zona euro”, Marianne percorreu os principais países potencialmente candidatos, estas bombas ao retardador  na UE

MALTA, CASINO DA EUROPA

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La Valette, Malta SUPERSTOCK/SUPERSTOCK/SIPA

 

Depois de Chipre e do Luxemburgo, Malta é o terceiro mais pequeno país da União Europeia e da zona euro.

O seu ministro das finanças, Edward Scicluna, sabe que, depois da queda de Chipre, o capital não se pode refugiar em Malta, porque a estrutura económica do seu país é ainda mais frágil: os 26 mil milhões de euros dos activos dos bancos estrangeiros em Malta correspondem a 4,1 anos do PIB, duas vezes mais do que em Chipre.

Economia de casino, no sentido próprio do termo, pois que o negócio dos jogos em linha encontrou o seu porto de abrigo em La Valette, com uma regulação muito flexível – ao contrario de outros países da UE – e especialmente uma tributação super-ligeira. Ou seja, quem aí esteja estabelecido, amanhã, uma taxa bancária ou que a ilha proceda a um aumento de impostos, e essas actividades acabarão por sentir o rastilho de um barril de pólvora, em nome da optimização fiscal.

 

O LUXEMBOURGO, sempre tão secreto

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Câmara dos deputados, Luxemburgo ANGOT/SIPA

 

 

 

Membro fundador da União Europeia, o Grão-Ducado foi desde há muito um lugar ao sol na pequena comunidade do sigilo bancário. O seu índice de opacidade bancária, tal como é calculado pela associação Tax Justice Network, o lugar, portanto, coloca-o em terceiro lugar do pódio. Os bancos estrangeiros têm acumulado de quase US $ 1 milhão de milhões de dólares, ou seja ou 23 anos do PIB!

A sua receita: o Luxemburgo  não pratica a tributação por retenção na fonte sobre os rendimentos financeiros internacionais. Assim, os dividendos pagos, por exemplo, sobre a conta na Suíça de fundos Luxemburgueses não tem nenhuma tributação.

Uma receita que é a delícia dos grandes bancos europeus. De imediato, a diferença principal com Chipre, não se trata dos bancos luxemburgueses mas de filiais das empresas que são gigantes da indústria financeira, bem mais dignos de crédito, como BNP Paribas, Deutsch Bank ou UBS que encaixariam um choque, se a crise aí deveria haver.


O império britânico do mal: JERSEY, MAN… e a City

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La City, Londres NICOLAS JOSE/SIPA

O seu a seu dono. A Grã-Bretanha abriga o maior centro financeiro na União Europeia.  A City é fortemente atractiva  pela sua indústria da finança (um terço do PIB do Reino Unido vem deste sector) e pelas condições fiscais vantajosos. Um exemplo? Os estrangeiros “residentes não-domiciliados”  não são tributáveis nos seus rendimentos recebidos do exterior até ao décimo oitavo ano de residência.

E com isto se agrada, e muito , a alguns oligarcas russos em busca de abrigo quanto ao pagamento de impostos. As empresas também têm direito aos seus pequenos brindes. Assim, Michael Osborne, Ministro das finanças de sua Majestade,  pretende reduzir a taxa de imposição fiscal sobre sociedades, de 28% para 24%, com o objectivo de atrair investimentos do exterior

De acordo com o jornalista Nicholas Shaxson, autor do livro Paradis fiscaux, enquête sur les ravages de la finance néolibérale “:  A Grã-Bretanha está no centro de uma rede de paraísos fiscais que alimentam a City de capitais e em que  se alimenta um gigantesco volume de negócios. O primeiro circulo da teia é constituído pelo que se chama as dependências da coroa – Jersey, Guernsey e ilha de Man-, cuja actividade é essencialmente feita com é feita com os países da Europa, África, ex-URSS e o Médio Oriente. O segundo círculo inclui territórios ultramarinos britânicos, de entre os quais as Ilhas Caymão e as Bermudas, viradas sobretudo para a América do Norte e do Sul.”

Os confettis do Império fazem parte do ‘ espaço offshore global’ que é o Reino Unido. Em Jersey, Guernsey e ilha de Man, nada é mais fácil do que aí colocar os seus haveres num trust, de facto num gestor de fortunas,, frequentemente uma subsidiária local de um grande banco britânico, que vai manter secreta a identidade dos felizes proprietários. Então, o dinheiro é investido legalmente no sistema financeiro de Londres.

Os números dão-nos vertigens: os fundos estrangeiros depositados em Londres ascenderam a EUR 3 400 milhares de milhões ! Esta teia de aranha constitui um duplo perigo sistémico para a União Europeia. A primeira razão é que a cidade de Londres é muito mal controlada pelas autoridades públicas.

A manipulação recente da taxa Libor (taxa de juros de curto prazo), conduzida por uma dúzia de bancos, localizados em Londres, que se entendiam em variar o custo do dinheiro diariamente revela a passividade do Banco da Inglaterra, responsável pela fiscalização das instituições financeiras. Um escândalo que revela a ausência de verdadeira polícia financeira neste país.

Segunda razão: os paraísos fiscais da apertada rede, Jersey, Guernsey, Man, Malta, que reenviam os capitais para os bancos britânicos, garantindo um sólido abrigo fiscal para os seus proprietários, são uma enorme dor de cabeça institucional.

Em caso de falha bancária maior em Jersey, que contém 133 mil milhões de euros de investimento estrangeiro, ou em Guernsey (77 mil milhões de euros), quem seria responsável pelas dívidas? Estas ilhas seriam bem incapazes de assumir esse carga que representa até 40 vezes o valor do seu PIB. Seria então a Grã-Bretanha a responder perante este cenário e, possivelmente, o sistema bancário europeu por solidariedade,? Ninguém sabe e ninguém tem realmente necessidade de o saber,

IRLANDA E AS DÍVIDAS DOS BANCOS

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O relógio de City Hall, Dublin SUPERSTOCK/SUPERSTOCK/SIPA

 

 

Em 2009, a pequena e próspera República da Irlanda foi avisada, mas um pouco tarde de mais, de que os seus bancos tinham crescido muito mais do que a economia real da ilha, apesar desta ter tido um comportamento de grande dinamismo.

Incapaz de lidar com a explosão de uma bolha imobiliária, sem equivalente na Europa, dois grandes bancos, que atraíram investimentos ingleses e com remunerações generosas, viram-se forçados a declarar falência. Estes foram nacionalizados pelo governo, que é forçado a injectar 30 mil milhões de euros no sistema financeiro!

Os interesses dos empréstimos acrescem-se aos efeitos da recessão económica. A factura global total da crise sobe para 64 mil milhões de euros, aumentando por esta via a dívida pública de 25% para 117%. Os sacrifícios exigidos aos irlandeses são consideráveis: aumento de 25 mil milhões em impostos, reduções nos salários nos sectores público e privado, o desemprego em quase 15%…

Para sair do programa de assistência europeu, o governo hoje deseja empurrar  uma parte da dívida bancária, EUR 28 mil milhões, para o mecanismo de estabilidade Europeu ( MEE). Apesar do apoio do FMI, os dirigentes alemães, holandeses e e finlandeses  recusam e bloqueiam qualquer decisão. A bomba irlandesa, a mais antiga, está sempre activa.

Eslovénia e Letónia, os novos pequenos países

 

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Igreja franciscana da Anunciação em Ljubljana, na Eslovénia SUPERSTOCK/SUPERSTOCK/SIPA

 

País discretamente localizado ao sul da Áustria, a Eslovénia pode ser a próxima vítima do Presidente do Eurogrupo, Jero Dijsselbloem, uma vez que as dívidas dos dois bancos nacionalizados representam cerca de 20% do PIB (7 mil milhões de euros).

Um relatório da Comissão anti-corrupção eslovena acusa « um círculo de pessoas que seriam as eminências cinzentas da finança eslovena, responsáveis hoje pelos graves problemas no sector bancário. E o Banco Central não iria sancionar os bancos quando ele próprio estava ao corrente dos factos.

A Letónia, candidata à entrada na zona euro, ela, tem medo de se tornar o refúgio dos capitais russos, fugidos de Chipre. Embora a Letónia  se defenda, ela já é objecto de uma aquisição rastejante: metade dos depósitos dos seus bancos vêm dos seus poderosos países vizinhos: Rússia, Bielorrússia, Ucrânia. E a soma aumentou 20% só num ano.

O bazar cipriota demonstrou mais uma vez a incapacidade dos reguladores nacionais para evitar que os banqueiros façam o que quiserem. O aparecimento da Autoridade de supervisão bancária europeia será ela suficiente?

Foram necessários quatro anos de discussão para chegar a um acordo e não será antes de Julho de 2014 que o BCE será responsável pela supervisão, não de 6.000 instituições da zona euro, mas apenas dos 600 mais importantes, os chamados ‘sistémicos’. Uma categoria em que não caiam, por exemplo, os dois bancos cipriotas na origem da crise…

Um banqueiro francês aponta outra dificuldade: ‘ é necessário que o Banco Central Europeu contrate 800 especialistas de finanças. E, para esta profissão, não podem ser principiantes “. Aviso aos amadores. Será também necessário progredir sobre a questão de um fundo de garantia de depósitos ao nível europeu.

A directiva prevê que cada país reúna uma soma equivalente a 1% do total do depósitos. A França, contudo boa aluna na matéria, não conta conseguir esta soma, 10 mil milhões de anos, no espaço de sete anos.

Mas para além destes simples enquadramentos, diz o economista Frédéric Lordon, os responsáveis nacionais ou europeus deverão sair  dos dilemas em que as finanças na loucura os meteram : salvar os bancos com o custo financeiro e moral que isso implica ou deixá-los cair e morrer com eles

“Durante este tempo,, afirma Frederic Lordon,  juntando os erros técnicos ao escândalo político e moral da “gestão” da crise financeira, os eurocratas e responsáveis nacionais  espantam-se ainda de ter um problema de comunicação com as pessoas…”

«CHIPRE DEVE CONTINUAR NA UE » Por Georges Prévélakis, ESPECIALISTA EM GEOPOLÍTICA

Marianne: A CRISE CIPRIOTA DE QUEM É A CULPA ?

Georges Prévélakis :. De toda a gente, mesmo se esta resposta não satisfaz aqueles que procuram um único bode expiatório. Os cipriotas levaram obviamente muito tempo antes de perceberem a extensão dos seus problemas e, nesse sentido, o governo anterior de Dimitris Christofias (ex-presidente da República e líder do partido comunista cipriota) tem uma grande e especial responsabilidade.

Mas a União Europeia não pode esquecer as suas próprias culpas: os cipriotas não estavam a trabalhar no escuro, sozinhos, houve cumplicidades dentro da UE, uma falta de vigilância e uma tolerância enorme para com os produtos derivados, o que pode ser explicado por várias razões. Uma delas é esta preocupação constante para o compromisso que deixa para amanhã a solução dos problemas, a outro é relevância extrema dada ao curto prazo, minimizando ou mesmo ignorando o que tem a ver com o longo prazo. Na verdade, a crise cipriota vem mais uma vez colocar em destaque a falência da metodologia Europeia.

Deve o país sair, voluntariamente ou à força da UE como alguns já o afirmaram ?
G.P. : A União Europeia é um bem comum fundamental e, por razões económicas e geopolíticas, a Grécia como Chipre devem continuar a permanecer nesta zona. Obviamente, os cipriotas vão sofrer  e tem que fazer mais sacrifícios tanto mais insuportáveis quanto eles nunca são justos e sempre afectam os mais pobres.

Mas a saída da UE exporia o país à cobiça de potências externas – a Rússia, a Turquia, a China, entre outros – com o risco de acentuar antagonismos perigosos. O país não deve tornar-se uma arena onde os blocos se confrontam mas, também imperfeitos e fracos são estes tempos, tem de continuar a desfrutar da protecção e da relativa estabilidade que lhe traz a Europa.

No entanto, o contraste entre o boom da Turquia e as situações grega e cipriota é esmagador…
G.P. : Há alguns anos, evocava-se  o dinamismo da Grécia e a má saúde da economia turca. Inverteu-se a relação. A história é cíclica e, aliás, os cipriotas têm mais do que quaisquer outros, a experiência das dificuldades…
Propos recueillis par Alain Léauthier

 

Ver: http://www.marianne.net/Ces-autres-Chypre-qui-menacent-l-Europe_a227797.html

 

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