UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (31)

CARTA DO PORTO

DO HIGH-LIFE ATÉ PRATICAMENTE NADA!

Tempos houve em que, no Porto, uma ida ao cinema era um acontecimento social. Como o era uma ida ao teatro (que o havia pouco, na cidade), ou à ópera (que quase não havia).
Não esqueçamos que o Porto é o berço do cinema português, e que hoje, temos o mais idoso cineasta, do Mundo, em actividade, Manoel de Oliveira.

Em 1996 completou-se um século sobre a data em que um portuense, Aurélio da Paz dos Reis, fez, pela primeira vez, cinema em Portugal. Se nos recordarmos que a primeira sessão de cinema, a nível mundial, tinha sido efectuada, pelos irmãos Lumíère, apenas alguns meses antes, em Paris, consideraremos este facto de uma relevância extraordinária.
No campo da criação de espaços de exibição cinematográfica, também a cidade do Porto foi pioneira em Portugal. Alguns deles eram verdadeiras obras de arte, e marcaram um estilo e uma época, na arquitectura da cidade. O cinema no Porto e toda a cultura que lhe está associada constitui um património valioso, lamentavelmente pouco divulgado, sobretudo entre as gerações mais novas.

O primeiro espaço que exibiu filmes, foi o “High-Life”, em 1906. Colocado na Feira de S. Miguel, mais tarde Rotunda da Boavista, só lá esteve dois meses, sendo depois deslocado para a Cordoaria, onde permaneceria dois anos. Iria depois para a Praça da Batalha.

CINEMA-DO-PORTO-1000X

Até aos anos sessenta e setenta do século vinte, as pessoas, para irem ao cinema, cuidavam de se arranjar, vestiam “roupas de sair” e usavam os melhores adereços que tinham. As senhoras tiravam da naftalina os vestidos e as peles (se fosse o caso, ou mesmo que não fosse), e iam à caixinha das joias (verdadeiras ou de pechisbeque) e escolhiam as que melhor se adequassem à roupa que iriam usar. Os homens, de fato e gravata e com os sapatos irrepreensivelmente engraxados, acompanhavam-nas solenemente.

Nesse tempo, como nos dias de hoje, os cinemas apresentavam filmes, catalogados por faixas etárias. Havia filmes para todos, para maiores de seis anos, para maiores de doze anos e para maiores de dezassete anos. Nessa altura, ainda não havia filmes para adultos, eram proibidos. Prevenindo a “falta de sensatez do zé povinho”, o governo vigente “cuidava” dos seus, e tinha, como lei, códigos morais e de comportamento social bastante rígidos. Claro que, como em todo o lado e com toda a gente, não havia quem não tentasse prevaricar, a maior parte das vezes com bastante razão. Depois veio a revolução, e tudo isto acabou. Todos os filmes passaram a ser para todos, chegaram os filmes para adultos que todos passaram a poder ver, e acabaram os códigos morais e de comportamento social que antes eram impostos.

Havia cinemas espalhados por toda a cidade, e eram raros os que tinham mais do que uma sala. Como excepção surgiu o cinema Lumiére (com duas salas), em 1978, e o Trindade foi cortado a meio aparecendo com duas salas nos anos 80. O Batalha (com a sala Bébé), existia desde 1947. Desta forma, era impossível sair de casa para ir ao cinema, sem se saber ao certo, onde e o que se ia ver. Para isso, comprar o jornal todos os dias era prática comum. Em minha casa, o Primeiro de Janeiro tinha tudo o que necessitávamos sobre o assunto.
Hoje, vamos ao cinema e a preocupação de se saber o que se vai ver, não existe, já que todos eles têm várias salas. É uma comodidade muito grande, apesar de se ter perdido muito do encanto de outrora.
O número de sessões diárias era também limitado a duas e raramente a três, o que ajudava a fazer da ida ao cinema um acontecimento.
Na entrada das salas de cinema, o porteiro era rei, e fazia cumprir as determinações superiores, com zelo e até com, muitas vezes, a arrogância que os chefes pequeninos (não no sentido físico da palavra) entendem dever ter.

Contava-se até uma história, não sei se verdadeira, sobre um filme que tinha o título de “Helga” (1968). Esse filme, que tinha cenas de nudez explicita, e, diziam, era cientificamente educativo, foi catalogado como filme para maiores de 21 anos (era a idade em que na altura se entendia chegar à idade adulta, vulgo maioridade). Os porteiros de serviço faziam cumprir religiosamente a lei, e na dúvida sobre a idade do proponente, à entrada obrigavam a mostrar o Bilhete de Identidade, impedindo o acesso a quem não tivesse a idade mínima exigida. Numa qualquer sessão chegou um casal de jovens. Ele, veio a saber-se depois, tinha já vinte e um anos, mas ela ainda os não tinha completado. Com a razão que a lei lhe fornecia, o porteiro impediu a entrada à jovem. E com a a razão acrescida que a moral vigente também lhe fornecia, os poucos meses que faltavam para a jovem completar a idade mínima exigida, eram o suficiente para que não abrisse excepções. Mas, contrapuseram os dois, eles eram casados. A jovem senhora, era casada com o jovem senhor, e como tal, a lei e a moral deveriam ser ultrapassadas num caso como aquele. A história ficou conhecida porque o porteiro, do alto da sua autoridade, foi inflexível, e pelo menos naquela sessão, o jovem casal não viu o filme.

Havia uma outra característica nas salas de cinema de então. O silêncio era regra. As pipocas, os rebuçados, os sumos e demais coisas que hoje são comuns, e provocam barulhos muitas vezes irritantes, não existiam. Havia dois intervalos para que as pessoas se dirigissem ao bar e lá comessem algumas coisa que quisessem, mas mais importante do que isso, esses intervalos serviam para que se socializasse. Claro que com o advento dos telemóveis e da internet, isso hoje é considerado “démodé”.

A ida ao cinema, tinha a sua maior afluência, como nos dias de hoje, à Sexta-feira à noite e ao Sábado. Depois das sessões, era costume continuar as conversas começadas nos intervalos, à mesa de um qualquer café, com pregos, torradas, cervejas e sumos a acompanhar. De um modo geral, estes convívios terminavam pelas duas da manhã, já que era a hora a que os cafés da cidade fechavam. Nessa altura, a vida nocturna do Porto não era mais do que isto. A cidade era “a do trabalho” e fazia jus a esse epíteto.
Enfim, vidas simples e até, agradáveis.

Entretanto, todas as salas de cinema do Porto, que fizeram as delícias de gerações, fecharam as suas portas, dando lugar, nas suas instalações, a “bingos”, a pura e simplesmente nada, a promessas de bons aproveitamentos para a cidade e até a “igrejas das mais variadas profissões de fé”. Nem todas as opções foram muito bem aceites e acolhidas pela população. O que começara no High-Life, em 1906, acabou em nada, antes de terminado o século. A exibição de filmes passou a estar a cargo de centros comerciais com múltiplas salas de cinema, quase todas fora do perímetro da cidade (já só resta na cidade o “Dolce Vita”das Antas), e a maneira de viver das gentes do Porto, pelo menos nesta matéria, mudou radicalmente.
Perdemos numas coisas, ganhamos noutras.
Terá o saldo sido positivo? É evidente que sim. A evolução que tivemos neste últimos anos, em termos económicos, sociais e de liberdade de escolhas, superam largamente alguns dos modos de vida e de regras sociais e de convivência, que genericamente perdemos com a liberalização dos costumes.

 

About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

4 comments

  1. Albertia Eudora Silva

    Mais uma crónica cheia de interesse para quem viveu esses tempos e não só…
    Abraço.
    Eudora

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  2. Uma crónica que apresenta duas épocas .Cada uma com os seus atavismos vivenciados sob prismas diferentes ,mas bem galardoados -Maria

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  3. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (31) | joanvergall

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