FRATERNIZAR – A cruz de Lampedusa – por Mário de Oliveira

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Duas tábuas, em lugar das pessoas!

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Só mesmo da cabeça de gente cristã podia ter nascido a ideia de mandar fabricar uma cruz com duas tábuas de um dos barcos que, a cada hora que passa, chegam carregados de pessoas sem nome e sem terra, provenientes do norte de África, rumo à Europa, onde em vão esperam encontrar o pão e a dignidade que já lhes são negados nos países onde nasceram. Para as pessoas cristãs, estas duas tábuas em forma de cruz valem muito mais que as mulheres, os homens, as crianças que conseguem chegar, vivas, à ilha de Lampedusa. Já benzida pelo papa Francisco, cristão dos quatro costados, a cruz será, agora, transportada de comunidade cristã em comunidade cristã, um pouco por toda a Itália. O gesto pretende ser simbólico, mas tem tudo de sádico, a dizer, de resto, com o próprio cristianismo que, demencialmente, valoriza/ cultua o sofrimento, o sacrifício, a dor, a humilhação, o jejum, o ostracismo e faz morrer crucificadas as pessoas, as populações, os povos, para, desse modo, as redimir do pecado e da ira do seu Deus, o mesmo de todos os impérios. Que sentido pode ter acolher uma cruz, em lugar das pessoas de carne e osso que, alquebradas, doentes, esfomeadas, chegam a Lampedusa? Quando está aí, a gritar perante nós, a realidade nua e crua, para quê um símbolo dela, e logo, uma cruz, o instrumento de tortura utilizado pelo império romano contra os rebeldes políticos que activamente se lhe opunham?!

O escabroso facto ocorre – e não é mera coincidência – nos mesmos dias em que os cristãos, elas e eles, estão voltados para o sofrimento e a paixão do seu Cristo – por favor, não confundir com Jesus, o filho de Maria – que, todos os anos, pela primavera, mais semana, menos semana, eles próprios se encarregam de voltar a crucificar/matar e, depois, ainda exibir, morto, pelas ruas de certas cidades, Braga e Sevilha, por exemplo. E tudo sucede, sem que os tribunais dos respectivos países intervenham, prendam os responsáveis e os julguem. Pelo contrário. O facto, com tudo de cruel e de sádico, é, até, um dos ingredientes do chamado turismo religioso da Páscoa. As agências de turismo pelam-se todas por este tipo de sadomasoquismo cristão das populações. E há sempre artistas que emprestam ou vendem os seus talentos para ajudar a tirar partido deste tipo de coisas. Esquecem-se que a arte só o é verdadeiramente, quando está ao serviço da libertação/ dignificação das pessoas, das populações, dos povos, nunca ao serviço da sua humilhação/ flagelação/ crucifixão.

É certo que há montanhas de vidas reais que são dramas e tragédias de fazer suster a respiração ao mais insensível. Há populações e povos condenados a ter de viver todos os seus dias na cruz. Mas o imperativo ético consiste em mobilizar-nos politicamente contra as causas estruturais que estão na origem de tanto sofrimento. Já aproveitar-se dessas tragédias e desses dramas, dessas vidas crucificadas, para com elas, simbolicamente que seja, fazer turismo religioso e ganhar dinheiro, é a pior das ignomínias e o cúmulo do absurdo. O cristianismo é, neste particular, a grande transnacional do culto do sofrimento humano. Chega a dizer, em coro com o seu grande fundador-doutrinador S. Paulo, que sem sangue não há redenção. Procede e fala assim, porque é adorador de um Deus que, no dizer cristão, exige o sangue do próprio filho para se reconciliar com a humanidade. Um absurdo antropológico-teológico!

A verdade é que a celebração da Páscoa cristã é uma reiterada celebração do sofrimento humano. No entender dos cristãos e seus teólogos, a cruz, real ou simbólica, é sempre redentora. Por isso, Lampedusa, a ilha plantada às portas da cidade de Roma, pode continuar a ser a miragem que tem sido para os povos não europeus que, a partir do norte de África, a demandam com risco das próprias vidas, porque a Europa do Dinheiro, de raízes cristãs, não derrama uma lágrima que seja. E, se derramar, como faz o papa de Roma, é apenas diante da cruz fabricada por duas tábuas, procedentes de uma embarcação que naufragou e se desfez contra as rochas. Nunca, por nunca, diante das mulheres, dos homens e das crianças que vêm desaguar àquela ilha, à procura de uma oportunidade, e o que encontram, é a opulência de Roma, da praça e da basílica de S. Pedro, mai-las lágrimas de crocodilo dos cristãos, derramadas durante liturgias e vias-sacras faz-de-conta, que as reais são demasiado cruéis e tiram-nos o sono.

Cristianismo e cinismo, não só rimam, como têm tudo para serem sinónimos. Quem pensa que o cristão é o supra-sumo do humano, ponha os olhos nas duas tábuas da cruz de Lampedusa que, por estes dias, faz turismo religioso, de comunidade cristã em comunidade cristã, em Itália. Com a bênção e a unção do papa Francisco, o antípoda de Francisco de Assis e de Jesus. Corram, pois, senhoras e senhores, a celebrar a Páscoa cristã com o papa Francisco ou com os bispos e os párocos/ pastores das igrejas cristãs. Perante alguma das incontáveis cruzes que existem por aí em cada canto e esquina, e que, além de ajudarem a esconder o sofrimento real das populações, ainda dão muito dinheiro a ganhar às agências de turismo religioso, aos párocos e aos bispos cristãos do mundo, e aos pastores de igreja. Mas não contem comigo, para esta crueldade inominável. Contem, sim, com o meu mais vivo repúdio e o meu mais indignado protesto! Vampiros, que sois, todos vós, que ides por estes sujos negócios cristãos!

 

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