Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Valls para dissolver o socialismo das utopias
O novo executivo da carpa e do coelho: uma mudança de regime
Raoul Fougax , Revista Metamag, 01/04/2014
Valls pour dissoudre le socialisme des utopies – Le nouvel exécutif de la carpe et du lapin : un changement de régime
O Presidente Hollande nomeou um novo primeiro-ministro. Mas a escolha não foi a sua. O Ministro, enfim, é como a imigração, suportado mas não escolhido. Manuel Valls é uma espécie de anti-Hollande, voluntário e colérico, um tipo muito teimoso que às vezes faz certas derrapagens, uma pessoa mal controlada e mais perto, é verdade, de um Sarkozy do que do anterior primeiro-ministro Ayrault.
A solha coabitava com o linguado, mas com o lúcio tudo isto vai mudar. Há de facto casamento da carpa e do coelho entre o Presidente e o seu novo primeiro-ministro. O Presidente fragilizado por uma grande derrota eleitoral aceita uma outra forma de coabitação. O primeiro-ministro vai ocupar o terreno com o seu estilo. Este arrisca-se realmente a vir conduzir a politica da nação como está previsto na Constituição. Pode-se talvez mudar a Constituição na prática porque um primeiro-ministro do mesmo campo que o Presidente, e mais importante do que este último, isso nunca se viu.
Hollande tem dificuldade em assumir o risco de instalar um prefeito do palácio que, talvez, seja mesmo mais poderoso que o próprio soberano. Mas ele também acha que Valls será uma referência excelente e considera-se bem mais esperto que Valls. Hollande é o único capaz de passar pela força das baionetas uma revolução, à esquerda, sob a forma de suicídio ideológico, transformando a França por uma viragem à Blair ou à Schroeder. Os ecologistas e a esquerda da esquerda não se enganam. Para eles, Valls é a pior das escolhas, deve ser inicialmente necessário balizá-lo primeiro e, depois, vigiá-lo.
À direita, o ex-ministro do Interior, apesar das suas falhas, continua a ser popular graças às suas posições de tipo Mussolini, acredita-se que ele não chegará a ser capaz de responder às revoltas ideológicas no seu próprio campo.
O diário Libération estabelece o seguinte retrato político de Manuel Valls: “Imigrante catalão defensor de um socialismo francês à Tony Blair, Manuel Valls, 51 anos e preferido pelos franceses para liderar o governo, tem muitas vezes chocado a esquerda na sua posição de “principal” polícia de França, ou seja como Ministro do Interior. Bem mais popular à direita que à esquerda este homem de ambição assumida, de tom por vezes agressivo, traçou durante cerca de dois anos nessa função o seu caminho para ser primeiro-ministro, o caminho para Matignon onde está a sede do governo, ao ritmo das polémicas suscitadas pela sua firmeza. Mais recentemente: tivemos o braço de ferro em que se envolveu em Janeiro com o polémico Dieudonne, repetidamente condenado pelo seu anti-semitismo e de que ele conseguiu a proibição dos seus espectáculos. Alguns meses antes, ele tinha já provocado um alvoroço depois da prisão na escola e a expulsão para o Kosovo de uma universitária de 15 anos, cigana, que vivia no no leste da França“.
Desde a esquerda radical até a alguns funcionários do seu partido, vários foram aqueles que pediram a sua cabeça. Porque é à direita que Manuel Valls, defensor da ordem republicana com um discurso musculado, agrada mais. Num estudo lançado em Março, 41% dos simpatizantes da direita escolheram-no como primeiro-ministro entre as personalidades socialistas, enquanto nesta proposta votaram apenas 20 por cento dos simpatizantes à esquerda. A sua energia no Ministério do Interior e a cobertura feita pelos media das suas intervenções também não são sem nos fazer lembrar uma reminiscência de um seu antecessor de direita que veio a tornar-se mais tarde Presidente da República: Nicolas Sarkozy.”
“Queriamos um Blum, dão-nos Henriot”, confiava um deputado ecologista irritado. Valls, o ambicioso, não podia dizer não, ele disse sim. Sabe contudo que reduz assim as suas possibilidades de ser apresentável ou seja presidenciável em 2017. Para manter na linha de mira o cargo supremo, um supremo pensamento: ser-lhe-á necessário ter êxito e ser enquanto primeiro-ministro um anti-Jospin depois de ter sido um anti – Hollande. Ele tem a ambição. Será que ele tem as qualidades?
Ele corre o risco de lhe faltar o talento consensual de um Hollande que agora será capaz de reconstruir uma pequena popularidade, tendo encontrado um verdadeiro fusível. Vamos ver o governo e a sua composição política assim como as suas posições sobre as questões importantes, tais como: segurança, imigração, nuclear, OGM e gás de xisto. Valls pode dissolver os seus inimigos à esquerda como vulgares movimentos da extrema direita? Isto não é seguro.
Sobre a coabitação entre o laxismo e o autoritário, deseja-se felicidade a François Hollande numa primeira fase porque, ao longo dos meses, a autoritário vai- se transformar num agitado e o presidente talvez irá a atingir a sua serenidade. É-se depressa um sábio quando comparado a um furioso. Ele tinha que pensar nisso ao engolir a poção amarga desta remodelação de gabinete que ele não queria e que lhe é imposta não pelo voto dos eleitores, mas pela conjuntura económica.
http://www.metamag.fr/metamag-1933-Valls-pour-dissoudre-le-socialisme-des-utopies-Le-nouvel-executif-de-la-carpe-et-du-lapin–un-changement-de-regime.html