PADRE JOAQUIM
Para me ouvirem botar discurso reuniu-se o povo todo na sala de pano… O Padre Joaquim, tal como avisara o Capela, era um caracol cinquentão com o púlpito às costas. Arrastou três ou quatro baboseiras e logo o trilho ficou ranhoso, era o unto da ganância.
As mulheres de bioco e os homens de samarras levantadas, golas forradas com peles de coelho ou carneiro. Olhos fundos, talvez fome, estava em crer que descrença. Mas desalento assim, depois de Abril? Passou-me cá uma coisa pela vista e perdi a tineta. A ferver, despi o casaco e o tempo já estava frio. Quando tornei a mim, estava eu a pregar sermoa de mendicante (para alguma coisa havia de me servir o latinorium que o Padre Alberto me impingira quando, aos dez anos, me puseram a ajudá-lo à missa…):
– Nada sei, nada ensino, Vocês é que sabem as linhas com que se cozem. Está aqui o Sr. Padre Joaquim, que é o vosso conselheiro espiritual. Melhor do que ninguém, é ele quem sabe tudo o que vai atormentando as vossas almas. No meu fraco entendimento eu acho que deve ser o Sr. Padre Joaquim a orientar este ajuntamento. Ó Sr. Padre Joaquim, faça o favor, sente-se aqui, este é que é o lugar que, por direito, lhe cabe….
Ele a resistir, sorridente, mas a chegar-se, todo opado. Diz mais duas baboseiras e pede que eu continue o meu discurso. Deixa estar que já te lixo à meia-volta, com quem o verbo mata, com o verbo morre, bate fundo, bate fundo… Bati fundo:
– Ó Sr. Padre Joaquim, bem haja! Vossência diz que está a gostar de me ouvir falar, bondade sua. Mas queira reparar que eu sou apenas um borra-botas. Vossência insiste em que eu desdobre o verbo e incerto estou eu em desdobrá-lo. O mais prudente seria eu fazer cruzes na boca. Porque se eu continuo a falar, forçado seria a fazer um ligeiro reparo a algumas palavras de Vossência e não quero ser mal-entendido, pois longe está de mim a intenção de ofendê-lo e muito menos a de ofender a doutrina da nossa Santa Madre Igreja. A mim mesmo digo eu: cala-te boca, antes pecado venial que mortal!
Ficou todo regalado, identificara a minha lengalenga de abadia. Nela não cheirou perigo, antes incenso. Riu muito e mandou que eu avançasse. E eu avancei, continuei a bater fundo, olarilas:
– Vossência está-se a rir e antecipadamente já me absolve do pecado que não penso cometer. Assim sendo, vou arriscar: há pouco Vossência disse que nós, os homens, somos o rebanho do Senhor e eu nada tenho a contrapor a tal parábola que é mais de Nosso Senhor Jesus Cristo do que nossa. Porém, Vossência também disse que este rebanho, armado de paciência, deve aguardar um sinal divino para encontrar o caminho da salvação. Ora eu, que sou apenas um zé-ninguém muito curto de razões, atrevo-me a dar parecer diferente: quem assim fica à espera do sinal do pastor, será rebanho de ovelhas e carneiros pois rebanho de homens e mulheres não fica à espera de sinais prá salvação, vai mas é em busca dela. Se Deus Nosso Senhor tivesse querido que o povo apenas fosse manso e paciente, ter-nos-ia feito como fez às ovelhas e aos carneiros. Mas Deus Nosso Senhor quis fazer-nos à sua imagem e semelhança. Quer isto dizer que nas entranhas do mais ranhoso dos homens ainda arde a chama divina. Ele tem, a cada instante, a possibilidade e a obrigação de decidir entre aquilo que ele acha ser o Bem e aquilo que ele acha ser o Mal. Não pensar, não escolher, ficar sempre à espera que os outros decidam por ele, isso é trair a vontade divina, voluntária conversão de homem a carneiro. Em nome de Deus nego que as mulheres sejam apenas fêmeas lanudas, em nome de Deus nego que os homens sejam apenas machos cornudos.
Zoeira por toda a sala. Descidos os biocos para os ombros, baixadas as golas das samarras. Falavam uns com os outros mas em voz alta, a rasgar e a explodir o silêncio da nave. O Padre Joaquim estava de pé. Fulo e fulvo, parecia um rabanete. Grita, manda que eu me cale, apostasia, sacrilégio… Sofre de azia o padre egrégio?
– Ó Sr. Padre Joaquim desculpe lá a inconveniência mas foi Vossência quem me deu a palavra e o que se dá com a mão direita não se tira com a esquerda. Faz favor não me interrompa, não me corte o fio à meada, que eu já estou tomado pelo fogo divino. Vocês reparem: está o vosso rebanho especado a meio de uma encruzilhada. Não sou eu quem vai dizer: voltem para trás, vão em frente, cortem à esquerda, dobrem à direita. Quem deve decidir isso sois vós e mais ninguém por vós.
Era eu a usar e abusar da oratória de sacristia… Contei depois como noutras fábricas, abandonadas pelos patrões, os trabalhadores tinham conseguido pô-las novamente a funcionar por conta própria, correndo os riscos inerentes, ou homens ou caga-lumes!… E que o mesmo poderia acontecer também em S. Ramiro. Tratassem de esquecer o que o patrão lhes devia, mas apararem dívidas novas isso é que não, porque há a lei dos homens e há a lei de Deus.
– Vamos lá a ver se temos o bestunto afinado para não deixar que a primeira contradiga a segunda. O vosso patrão bateu asas faz oito meses. Não vos despediu, não vos indemnizou como devia, porque é essa a lei dos homens. Pela mesma lei estais ainda por conta do patrão e ele já vos deve oito meses de salários em atraso, mais férias e subsídios na proporção. E cada mês que passe sem que reabra a fábrica, é outro mês de salário que vos fica a dever. A fábrica nada produz e tem dívidas cada vez maiores. Não falo apenas dos salários. O Estado taxa multas sobre os impostos devidos e não pagos. E os Bancos e os fornecedores taxam juros sobre as letras vencidas e não pagas. O que vai acontecer está à vista: a fábrica vai à falência. E indo à falência, teares e fazenda vão a leilão, é tudo vendido ao desbarato. Acaba-se a fábrica e, do dinheiro assim apurado, sobrará dez reis de mel coado para cada um de vós. É isso que querem? Quanto à lei divina, só pergunto: quer Deus que os vossos filhos morram à fome?
A casa quase que vinha abaixo, houve até um certo pânico. O Padre Joaquim levantava os braços e gritava, ninguém lhe dava atenção. O Capela sorria. A D. Emília fitava-me com olhos em brasa, alumbramento.
– Reparai! Em conjunto, sois certamente o maior credor da fábrica. Quando há perigo de falência, o credor maior tem sempre uma última palavra a dizer. E Vossemecês podem dizê-la. Podem dizer que vão pô-la novamente a funcionar. Que assumem, perante os outros credores, as responsabilidades assinadas pelo valdevinos do patrão. Foi ele quem bateu asas, quem deixou as dívidas, quem atirou ao poço da miséria milhares de vidas, se contarmos com os outros trabalhadores e respetivas famílias da Covilhã, do Porto e de Coimbra. Isso só o faz um irresponsável ou então um vigarista. Ele é pássaro bisnau, prometeu à mãe que reabria a fábrica e reabriu-a. Mas agora fechou-a, deu o dito por não dito. Não se doam as mãos que, na árvore sã, cortam o galho ladrão. Está o vosso rebanho na encruzilhada. Eu sou de fora, eu cá não posso fazer nada. Mas vós, se nada quereis fazer nesta aflição, pois mereceis morrer de fome. Mas convosco os vossos filhos, o que é lástima, porque inocentes. Se escolherdes o caminho da salvação; se escolherdes reabrir a fábrica por vossa conta e risco, pois tereis a minha ajuda e a dos meus companheiros que, já o disse, ,juntos atravessámos transe maior do que este e até já assinalámos os perigos que há na carreira. E isto não é favor, é sentimento que liga e religa deserdados a deserdados. Religar, religação, religião. Acordem, pensem, discutam, decidam! Cristo pediu para acordar os homens! É mais fácil fazer passar uma corda pelo fundo de uma agulha, do que um homem rico entrar no Reino dos Céus.
Silêncio, expectativa. Continuei:
– Foi ele quem disse: quando todos os homens estiverem acordados, todos serão comigo no Reino do meu Pai. E quando tal acontecer, eu pergunto: onde então a injustiça, onde a traição, onde a inveja, onde a calúnia, onde a cobiça e a avareza, onde a fraude e a arrogância, onde os ricos, onde os pobres, onde os escravos e os senhores, onde as armas, onde a raiva, onde a guerra? Para os homens subirem ao Reino de Deus, primeiro é preciso acordá-los! Portanto, seguindo o ensinamento de Jesus Cristo, acordem e não deixem que gente de fora meta o bedelho! Olhem que andam por aí lobos vestidos com peles de carneiro. Eles são os hipócritas, os fariseus, eles são como sepulcros caiados, formosos por fora e por dentro a podridão. Acordem, discutam, troquem ideias, decidam, mas tudo em sã consciência, como é de esperar em magote que é de homens e mulheres. Só carneiros é que vão mansos e de olhos abertos para a matança. Abracem a vida, transformem esta fábrica numa cooperativa de produção!
O Padre Joaquim ficou com o escroto virado do avesso, estou em crer que bate fundo o curso do meu discurso…
A D. Emília recolheu os Bilhetes de Identidade dos colegas para eu ir registar a Cooperativa. O que logo tratei de fazer, com a urgência pedida.
CINTOS
Hoje, em S. Ramiro, a Cooperativa Têxtil não pára de laborar. Quando há crise os cooperantes apertam os cintos que logo alargam quando passa a crise. Juntos, mas todos juntos. Bate fundo a coesão, fundo, muito fundo!

